Fundador, guitarrista e vocalista do Cólera morreu em 27 de setembro de 2011, aos 49 anos; em 2026, Juventudes.ComCausa dedica programação especial à memória do músico, à cultura do faça você mesmo e à relação entre música, juventudes e defesa da vida
Neste 27 de setembro, completam-se 15 anos da morte de Edson “Redson” Pozzi, um dos fundadores, guitarrista, vocalista e principal compositor do Cólera, banda que ocupa um lugar fundamental na história do punk brasileiro. Redson morreu em São Paulo, em 27 de setembro de 2011, aos 49 anos.
Mais do que lembrar uma data, o aniversário de sua morte abre espaço para recuperar uma trajetória que atravessou música, produção independente, pacifismo, direitos humanos, preocupação ambiental e a defesa de que jovens podem criar seus próprios meios de expressão e organização.
Em setembro de 2026, essa memória integra a programação do Juventudes.ComCausa, que definiu os 15 anos da morte de Redson como uma das pautas centrais do mês, com grande especial no Portal C3 e na RedeDH, além de vídeos, entrevistas, registros históricos e ações de memória da cena independente.
Dos primeiros anos do punk brasileiro ao Cólera
O Cólera surgiu em São Paulo, em 1979, em um período em que o punk começava a construir suas primeiras redes no país. Redson esteve na formação do grupo ao lado do irmão Pierre Pozzi e participou diretamente da definição da identidade que acompanharia a banda durante décadas.
Em 1982, o Cólera participou de “Grito Suburbano”, coletânea dividida com Inocentes e Olho Seco. O registro tornou-se um documento da primeira geração do punk paulistano e ajudou a levar para o disco uma produção que até então circulava principalmente por shows, fitas, encontros e redes construídas pelos próprios integrantes da cena.
A formação com Redson na guitarra e voz, Val no baixo e Pierre na bateria consolidaria uma das fases mais conhecidas da banda. Em 1985, o Cólera lançou “Tente Mudar o Amanhã”, trabalho cuja ficha técnica registra também a participação direta de Redson na mixagem, coordenação e arte do disco.
Essa atuação em diferentes etapas da produção ajuda a compreender uma dimensão importante de sua trajetória: Redson não se limitava ao papel de músico no palco. A construção de meios próprios para gravar, divulgar, distribuir e estabelecer contatos fazia parte de sua compreensão do punk.
“Pela Paz em Todo Mundo”
Em 1986, o Cólera lançou “Pela Paz em Todo Mundo”, disco que se tornaria uma das principais referências de sua trajetória e que completa 40 anos em 2026. O trabalho consolidou uma característica que distinguia o grupo dentro do punk: a combinação entre uma música rápida e contestadora e mensagens pacifistas, antimilitaristas e de preocupação social e ambiental.
A paz, para Redson e para o Cólera, não significava ausência de crítica. As músicas continuavam tratando das contradições das cidades, da violência, da fome, da guerra, das desigualdades e das formas de controle presentes na sociedade.
Essa combinação ajudou a construir uma identidade própria: questionar sem transformar a violência em horizonte e utilizar a música como forma de comunicação sobre liberdade, humanidade e convivência.
Quatro décadas depois do lançamento de “Pela Paz em Todo Mundo”, sua mensagem permanece como um dos eixos utilizados pelo Juventudes.ComCausa para aproximar a memória de Redson das discussões contemporâneas sobre juventudes, cultura independente e defesa da vida.
Direitos humanos também entraram nessa história
Uma entrevista concedida por Redson em dezembro de 2006 e preservada pelo Portal C3 ajuda a compreender de que maneira essas ideias foram construídas.
Na conversa, ele recordou sua juventude durante a ditadura militar, sua participação em mobilizações e a busca por uma forma de relacionar música e transformação social. Também relatou a importância que o contato com a Declaração Universal dos Direitos Humanos teve para organizar ideias que já apareciam em sua trajetória, como liberdade de expressão, liberdade de circulação e respeito ao espaço do outro.
Redson explicou ainda que via no punk uma possibilidade de transmitir essas ideias e de incentivar outras pessoas a agir. Ao falar sobre o sentido dos shows do Cólera, resumiu a relação entre música e participação em uma frase direta:
“A música é a chave que abre esta porta.”
A entrevista também registra sua insistência no princípio do “faça você mesmo”, expressão que ultrapassava a produção musical. Para Redson, jovens criando seus próprios movimentos, atividades, shows e formas de comunicação representavam uma continuidade daquela experiência que havia marcado as primeiras gerações do punk.
Fazer discos, criar redes e construir circulação
O papel de Redson na cultura independente também apareceu fora das composições.
Ele esteve ligado à criação da Ataque Frontal, gravadora que lançou trabalhos do Cólera e de outros nomes do punk, e criou o Centro Informativo Cólera (CIC). Antes da internet e das redes sociais, o CIC utilizava correspondências para manter contato com pessoas de diferentes lugares, divulgar atividades e distribuir discos, camisetas, fanzines e outros materiais.
Era uma estrutura baseada em comunicação direta, correspondência, contatos entre bandas e circulação independente.
Essa rede também alcançou outros países. Em 1987, o Cólera realizou uma extensa turnê europeia. Segundo registro do Sesc São Paulo, foram cinco meses, 56 apresentações e passagem por dez países, em um circuito que incluía espaços autogeridos e ambientes ligados à cena punk europeia.
A experiência tornou-se um dos episódios mais conhecidos da história do grupo e demonstrou a capacidade de uma banda independente brasileira construir circulação internacional a partir de redes próprias.
Memória de uma cena é também memória coletiva
Contar a história de Redson significa também olhar para uma cena formada por muitas pessoas.
Bandas, músicos, produtores, fotógrafos, jornalistas, responsáveis por espaços culturais, criadores de fanzines, selos independentes e, principalmente, o público fizeram parte da construção do punk brasileiro.
Por isso, a proposta do especial de 15 anos não se limita a uma biografia individual. A programação editorial do Juventudes.ComCausa prevê recuperar também a memória das cenas independentes, seus espaços, produtores, fotógrafos, bandas e públicos, relacionando esse acervo às novas gerações.
Preservar essa história permite compreender como manifestações que muitas vezes cresceram longe dos grandes meios de comunicação criaram seus próprios circuitos de produção cultural.
É também uma forma de registrar experiências que podem desaparecer quando fotografias, gravações, cartazes, depoimentos, fitas, fanzines e lembranças pessoais não são preservados.
Redson Presente — Punk, Paz e Transformação
A passagem dos 15 anos integra a programação especial “Redson Presente — Punk, Paz e Transformação”, organizada dentro do Juventudes.ComCausa.
O calendário prevê conteúdos entre 20 e 27 de setembro, passando pela relação entre Redson, Cólera e cultura de paz; punk e direito à cidade; comunicação e produção independente; entrevistas e registros históricos; Ataque Frontal e circulação musical; além de depoimentos de artistas e bandas sobre seu legado.
O dia 27 concentra o grande especial pelos 15 anos da morte de Redson, envolvendo Juventudes.ComCausa, Portal C3 e RedeDH. Nos dias seguintes, a programação prevê ainda organização de acervo, repercussão e balanço da campanha.
A proposta coloca a memória em movimento. Em vez de tratar Redson apenas como personagem de um período encerrado da música brasileira, o especial busca observar como questões presentes em sua trajetória continuam dialogando com jovens que hoje criam bandas, festivais, coletivos, mídias independentes e outras formas de produção cultural.
Quinze anos depois
Redson morreu em 2011, mas o Cólera continuou em atividade. Nos anos seguintes, integrantes da banda destacaram a importância de preservar a obra e dar continuidade ao grupo, mantendo vivo um repertório construído durante décadas.
A permanência dessas músicas, a circulação dos discos e o interesse de novas gerações também ajudam a explicar por que sua trajetória continua sendo revisitada.
Em sua entrevista de 2006, Redson dizia perceber jovens criando seus próprios movimentos e reconhecia nisso a continuidade do “faça você mesmo”. Duas décadas depois daquela conversa e 15 anos depois de sua morte, essa talvez seja uma das dimensões mais concretas de seu legado.
A história de Redson Pozzi permanece ligada ao Cólera e ao punk brasileiro, mas alcança também um campo mais amplo: o da música feita de forma independente, da construção de redes, da memória cultural e da tentativa de transformar indignação em participação.
Em 27 de setembro de 2026, lembrar seus 15 anos de ausência é também voltar a uma pergunta que atravessou sua trajetória: o que cada geração pode construir com os meios que tem nas mãos?
Para o Juventudes.ComCausa, recuperar essa memória significa colocá-la novamente em circulação — entre quem viveu aquela cena, quem ajudou a construí-la e quem está começando agora a criar a sua própria.
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