8 de setembro: alfabetização amplia direitos, participação e inclusão digital

Dia mundia da alfabetização

Dia Internacional da Alfabetização reforça a educação como direito humano e amplia o debate sobre educação popular, incentivo à leitura, acesso às tecnologias e formação crítica de crianças, adolescentes e jovens

Celebrado em 8 de setembro, o Dia Internacional da Alfabetização chama atenção para um direito que acompanha as pessoas durante toda a vida: a possibilidade de ler, escrever, compreender informações, expressar ideias e participar de maneira mais autônoma da sociedade.

A data foi proclamada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1966, durante a 14ª sessão de sua Conferência Geral, e passou a ser celebrada internacionalmente a partir de 1967. Em 2026, o Dia Internacional da Alfabetização marca 60 anos de sua instituição e é celebrado sob o tema “Alfabetização para as pessoas, o planeta e a prosperidade”.

Mais do que recordar a importância de aprender a ler e escrever, o 8 de setembro oferece uma oportunidade para discutir como a alfabetização está relacionada à cidadania, à redução das desigualdades e à participação social. Em um cotidiano atravessado por redes sociais, aplicativos, plataformas digitais, mecanismos de busca e ferramentas de inteligência artificial, alfabetizar também significa preparar crianças, adolescentes e jovens para compreender e utilizar criticamente as tecnologias e interpretar o grande volume de informações que recebem diariamente.

Alfabetização é um direito humano

A UNESCO considera a alfabetização um direito humano fundamental e uma base para o exercício de outros direitos. Em 2024, pelo menos 739 milhões de jovens e adultos em todo o mundo ainda não possuíam habilidades básicas de alfabetização, enquanto quatro em cada dez crianças não alcançavam o nível mínimo de proficiência em leitura. Os números demonstram que, apesar dos avanços registrados ao longo das últimas décadas, garantir que todas as pessoas possam ler, escrever e compreender aquilo que leem continua sendo um desafio mundial.

No Brasil, os indicadores também revelam avanços acompanhados de desafios persistentes. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, mostram que a taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais passou de 5,3% em 2024 para 4,9% em 2025. Entre crianças de 6 a 14 anos, a taxa de escolarização chegou a 99,5% em 2025.

Estar na escola, entretanto, é apenas uma parte desse processo. É necessário garantir permanência, aprendizagem, acesso aos livros, incentivo à leitura, ambientes adequados de estudo e oportunidades para desenvolver autonomia e pensamento crítico.

Aprender a ler também é aprender a compreender o mundo

A alfabetização não termina quando alguém consegue juntar letras e formar palavras. Ler envolve compreender aquilo que está escrito, relacionar informações, fazer perguntas, comparar ideias e perceber diferentes maneiras de interpretar uma realidade.

Uma criança que desenvolve essas capacidades amplia suas possibilidades de participar da escola, comunicar aquilo que pensa e conhecer seus direitos. Para adolescentes e jovens, saber interpretar informações também se torna fundamental para compreender notícias, acessar serviços públicos, procurar oportunidades de formação e trabalho, participar de processos comunitários e tomar decisões no cotidiano.

Nesse sentido, alfabetização e cidadania caminham juntas.

Educação popular aproxima conhecimento e território

A reflexão proposta pelo Dia Internacional da Alfabetização também permite reconhecer que os processos educativos não acontecem exclusivamente dentro das escolas. Bibliotecas comunitárias, movimentos sociais, associações, organizações da sociedade civil, pontos de cultura, coletivos juvenis e projetos comunitários também criam espaços importantes de formação.

A educação popular parte justamente do reconhecimento de que todas as pessoas carregam conhecimentos construídos a partir de suas experiências, territórios, culturas e histórias. Uma oficina de leitura pode começar com a história de uma comunidade, enquanto uma atividade de escrita pode registrar as memórias de moradores. Uma roda de conversa pode trabalhar direitos a partir das experiências relatadas pelos próprios participantes, e uma produção audiovisual pode permitir que crianças e jovens contem suas histórias a partir dos próprios olhares.

Assim, ensinar e aprender deixam de ser processos de uma única direção e passam a envolver troca, participação e construção coletiva do conhecimento.

Livros e leitura como portas para novos mundos

O incentivo à leitura ocupa um lugar fundamental nesse processo. O contato com livros, histórias, poemas, quadrinhos, jornais e diferentes linguagens amplia o vocabulário e estimula imaginação, criatividade e capacidade de interpretação.

Esse vínculo pode começar antes mesmo da alfabetização formal. Ouvir uma história, observar as imagens de um livro, inventar personagens, conversar sobre aquilo que foi lido e recontar uma narrativa são práticas que ajudam crianças a construir relações com a linguagem.

A leitura também pode servir como ponto de partida para discutir o território, as diferenças, os direitos humanos, a diversidade e situações vivenciadas no cotidiano. Por isso, bibliotecas, escolas, famílias, organizações comunitárias e projetos sociais possuem papéis complementares na formação de novos leitores.

Alfabetização também precisa chegar ao mundo digital

Se durante muito tempo alfabetizar esteve diretamente relacionado ao papel, ao lápis e ao livro, hoje o debate também passa pelas telas. Grande parte das informações que crianças, adolescentes e jovens recebem circula por celulares, redes sociais, plataformas de vídeo, aplicativos de mensagens e mecanismos de pesquisa.

Ter acesso a esses equipamentos, entretanto, não significa necessariamente estar incluído digitalmente. A inclusão digital envolve condições de acesso, mas também conhecimentos para utilizar as tecnologias com autonomia, segurança e responsabilidade.

Isso significa aprender a pesquisar, comparar fontes, reconhecer conteúdos enganosos, proteger informações pessoais, compreender direitos de imagem e autoria e perceber que nem tudo aquilo que aparece em uma tela é verdadeiro. As Diretrizes Operacionais Nacionais para educação digital e midiática reforçam justamente a importância da cidadania digital, da compreensão crítica das plataformas e da proteção de direitos individuais e coletivos nos ambientes digitais.

Saber pesquisar também é saber ler

A quantidade de informações disponíveis atualmente produz um novo desafio para a alfabetização. Uma pesquisa na internet pode apresentar milhares de resultados em poucos segundos, e diante deles crianças e jovens precisam desenvolver capacidades para questionar aquilo que encontram.

  • Quem produziu esta informação?
  • Qual é a fonte?
  • Quando esse conteúdo foi publicado?
  • Existem outras fontes confirmando a mesma informação?
  • É uma notícia, uma opinião ou uma publicidade?
  • A imagem apresentada corresponde realmente ao acontecimento descrito?
  • Posso compartilhar esse conteúdo?
  • Existe alguma informação pessoal que não deveria publicar?

Essas perguntas fazem parte da formação de leitores no mundo contemporâneo. A alfabetização digital e midiática, portanto, não deve se limitar ao domínio técnico de equipamentos ou aplicativos. Ela envolve compreender como as informações são produzidas, distribuídas e consumidas.

Crianças com Direitos: leitura também é proteção e participação

Dentro dessa perspectiva, o Crianças com Direitos pode aproximar alfabetização, leitura, expressão e proteção integral. Livros, contação de histórias, desenhos, brincadeiras educativas e pequenas produções textuais podem apresentar direitos em uma linguagem adequada às diferentes idades.

Ao mesmo tempo, essas atividades criam oportunidades para que as próprias crianças falem sobre seus territórios, suas experiências, seus desejos e suas percepções. Uma oficina pode começar com uma história e terminar com desenhos sobre o bairro. Outra pode utilizar um livro para conversar sobre respeito, convivência ou diversidade. Também é possível trabalhar pequenas produções nas quais as crianças contem aquilo que gostariam de transformar no lugar onde vivem.

Nesse processo, alfabetizar também significa construir espaços nos quais crianças possam ler, falar, perguntar, criar e ser ouvidas.

Juventudes.ComCausa: da alfabetização digital ao protagonismo

Com adolescentes e jovens, a proposta pode avançar para a comunicação e a cidadania digital. As redes sociais ocupam uma parte significativa do cotidiano das juventudes e funcionam simultaneamente como espaços de relacionamento, informação, cultura, entretenimento e mobilização.

Por isso, a alfabetização digital precisa superar a ideia de ensinar apenas como utilizar uma ferramenta. No âmbito das Juventudes.ComCausa, jovens podem ser estimulados a produzir textos, fotografias, vídeos, podcasts, entrevistas, campanhas e conteúdos para redes sociais.

A experiência transforma a relação com a comunicação. O jovem deixa de ocupar somente a posição de alguém que recebe informações e passa também a refletir sobre aquilo que produz e compartilha: quem é o público, de onde vieram os dados, se a informação foi confirmada, se existe autorização para utilização de determinada imagem, se o conteúdo respeita os direitos das pessoas retratadas e qual mensagem se pretende transmitir.

Essas perguntas transformam comunicação em exercício de cidadania.

Oficina de leitura pode unir papel, território e tecnologia

A efeméride também pode ser trabalhada por meio de uma oficina de leitura que una diferentes formas de alfabetização. A atividade pode começar com a leitura coletiva de um pequeno texto, notícia, conto ou reportagem. Depois, os participantes podem conversar sobre aquilo que compreenderam, identificar as principais informações e levantar dúvidas.

Em uma segunda etapa, podem utilizar a internet para pesquisar o mesmo assunto, comparar diferentes resultados, observar quem produziu cada conteúdo e identificar quais fontes apresentam informações mais completas e confiáveis. Ao final, crianças ou jovens podem produzir um pequeno texto, cartaz, vídeo ou publicação digital sobre aquilo que aprenderam.

O livro leva à conversa, a conversa desperta perguntas, as perguntas levam à pesquisa e a pesquisa produz conhecimento. Esse conhecimento, por sua vez, pode retornar para a comunidade por meio da comunicação.

60 anos do Dia Internacional da Alfabetização

Em 2026, os 60 anos da proclamação do Dia Internacional da Alfabetização reforçam a permanência de um desafio que mudou de características, mas continua diretamente relacionado às desigualdades sociais.

A celebração internacional promovida pela UNESCO neste ano tem como tema “Alfabetização para as pessoas, o planeta e a prosperidade”, destacando a contribuição da alfabetização para inclusão, desenvolvimento sustentável e ampliação de oportunidades. A programação global foi realizada nos dias 8 e 9 de setembro, em Chiapas, no México, reunindo representantes da educação, especialistas, educadores e estudantes.

Ao mesmo tempo, a própria transformação tecnológica das últimas décadas demonstra que o significado de estar alfabetizado continua se ampliando.

Alfabetizar para participar

Garantir alfabetização continua significando assegurar que todas as pessoas tenham condições de aprender a ler e escrever, mas o desafio contemporâneo vai além. É necessário formar leitores capazes de compreender textos, interpretar imagens, analisar informações, utilizar tecnologias, reconhecer direitos e expressar suas próprias ideias.

Para crianças, isso significa oferecer ambientes seguros e estimulantes onde possam descobrir o prazer de ler, escrever, perguntar e criar. Para adolescentes e jovens, também significa oferecer instrumentos para que utilizem a comunicação e as tecnologias com autonomia e consciência crítica.

Ao aproximar alfabetização, educação popular e inclusão digital, o Dia Internacional da Alfabetização reforça que aprender não significa apenas dominar palavras. Significa ampliar possibilidades, compreender melhor o território onde se vive, acessar direitos e informações e construir condições para que cada pessoa possa ler as palavras, interpretar o mundo e participar ativamente de sua transformação.

imagem de capa ilustrativa

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