27 de setembro: doação de órgãos transforma solidariedade em oportunidade de vida

Todo terceiro sabádo de setembro comemora-se o Dia Mundial do Doador de Medula Óssea, uma importante data para lembrar que a chance de se identificar

Dia Nacional da Doação de Órgãos reforça a importância de conversar com a família, combater informações equivocadas e ampliar o conhecimento sobre transplantes; ComCausa Oficial e CAIS destacam conscientização e acesso à informação como instrumentos de defesa da vida

Celebrado em 27 de setembro, o Dia Nacional da Doação de Órgãos chama atenção para uma decisão capaz de transformar a vida de pessoas que aguardam por um transplante em diferentes regiões do país. Mais do que uma data no calendário da saúde, o dia estimula o diálogo entre familiares, a circulação de informações confiáveis e a compreensão sobre como funciona o processo de doação no Brasil.

A data foi instituída pela Lei nº 11.584/2007, que também prevê a realização de campanhas de estímulo à doação nas duas semanas anteriores ao dia 27 de setembro. O próprio calendário oficial do Ministério da Saúde reconhece a data como o Dia Nacional da Doação de Órgãos.

Dentro dessa mobilização, a ComCausa Oficial e o CAIS reforçam a importância da informação como parte da defesa e da valorização da vida. A proposta envolve conscientização, entrevista e conteúdo de utilidade pública para ajudar a esclarecer dúvidas e aproximar a população de informações seguras sobre doação, transplantes e acesso ao Sistema Único de Saúde.

Milhares de pessoas aguardam por um transplante

Para pacientes com doenças graves ou irreversíveis, o transplante pode representar a principal alternativa terapêutica ou uma possibilidade de retomada da qualidade de vida.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde na publicação referente ao Dia Nacional da Doação de Órgãos de 2026 apontam que 49.489 brasileiros aguardavam por transplante, com predominância de pacientes que necessitam de um rim. A lista inclui ainda pessoas à espera de fígado, coração, pulmão, pâncreas e transplantes multiviscerais, além da demanda por córneas.

O Brasil possui uma ampla estrutura pública para realização desses procedimentos. Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 95% dos transplantes realizados no país são financiados pelo SUS, que oferece assistência aos pacientes desde os exames e procedimentos necessários até o acompanhamento posterior ao transplante.

Em 2025, foram realizados 9.938 transplantes de órgãos sólidos no país. No mesmo período, a taxa de doadores efetivos chegou a 20,2 por milhão de habitantes, de acordo com o Relatório de Gestão Integrado do Ministério da Saúde.

Os números revelam a dimensão da política pública de transplantes, mas também evidenciam a necessidade permanente de ampliar a informação sobre a doação.

Quem pode ser doador?

Existem diferentes modalidades de doação.

O doador vivo é uma pessoa juridicamente capaz e em condições adequadas de saúde que pode realizar uma doação sem comprometer sua própria integridade. Dependendo da avaliação médica e dos requisitos legais, podem ser doados em vida um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão ou medula óssea.

No caso de parentes até o quarto grau e cônjuges, a legislação permite a doação conforme os critérios médicos e legais. Para doações entre pessoas vivas que não possuem esse vínculo, é necessária autorização judicial.

Já o doador falecido pode possibilitar a doação de diferentes órgãos e tecidos, dependendo das circunstâncias do falecimento, das condições clínicas e da avaliação realizada pelas equipes especializadas.

Entre os órgãos que podem ser destinados a transplantes estão rins, coração, pulmões, fígado, pâncreas e intestino. Também podem ser doados tecidos como córneas, pele, ossos, cartilagens, tendões, válvulas cardíacas, veias e artérias, entre outros.

Um único doador pode beneficiar diferentes receptores, o que amplia significativamente o impacto de uma autorização para doação. A publicação do Ministério da Saúde referente à campanha de 2026 informa que um doador pode beneficiar até dez pessoas.

A conversa com a família continua fundamental

Uma das informações mais importantes para quem deseja ser doador é simples: converse com sua família.

O Ministério da Saúde orienta que familiares e pessoas próximas sejam informados sobre essa vontade. Na sistemática adotada pelo Sistema Nacional de Transplantes, a entrevista familiar é uma etapa fundamental do processo após a confirmação da morte encefálica de um potencial doador.Esse diálogo anterior pode fazer diferença em um momento naturalmente marcado pelo sofrimento e por decisões difíceis.

Por isso, a orientação de comunicar o desejo de doar não deve ficar restrita ao mês de setembro. Falar sobre o assunto durante a vida permite que familiares conheçam a posição daquela pessoa e tenham mais elementos para lidar com a situação caso sejam chamados a participar de uma entrevista relacionada à doação.

Também é possível registrar a vontade eletronicamente

Desde 2024, o Brasil conta ainda com a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, Tecidos e Partes do Corpo Humano (AEDO), iniciativa desenvolvida pelo Colégio Notarial do Brasil em parceria com o Conselho Nacional de Justiça e a Coordenação-Geral do Sistema Nacional de Transplantes.

A ferramenta permite registrar digitalmente a manifestação de vontade de ser doador. O procedimento é gratuito e pode ser iniciado pela plataforma AEDO ou pelo sistema e-Notariado. Depois do preenchimento das informações, um cartório realiza a identificação do interessado por videoconferência e a autorização é assinada digitalmente.

A existência dessa ferramenta, entretanto, não diminui a importância de conversar diretamente com familiares. A própria orientação divulgada pelo Ministério da Saúde na campanha de 2026 continua destacando o diálogo familiar como elemento central no processo de doação.

Como os órgãos chegam até quem precisa?

A distribuição não é realizada por escolha direta da família do doador.

Os pacientes que necessitam de transplante são inscritos em uma lista de espera organizada e monitorada pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT). A definição dos possíveis receptores leva em consideração critérios técnicos, como compatibilidade, características clínicas, tempo de espera e situações de urgência previstas pelas normas do sistema.

As Centrais Estaduais de Transplantes utilizam o sistema para identificar receptores compatíveis. Quando não existe um receptor adequado no estado, ou quando determinado procedimento não é realizado naquela unidade da federação, o órgão pode ser oferecido para distribuição nacional pela Central Nacional de Transplantes.

Todo esse processo exige integração entre hospitais, equipes médicas, centrais estaduais, laboratórios, serviços de transporte e o Sistema Nacional de Transplantes.

O tempo também é decisivo. Depois da retirada, cada órgão possui um período específico durante o qual precisa ser preservado e transportado para que o transplante possa ser realizado com segurança. Por isso, a logística começa assim que todas as condições clínicas e legais para a doação estão estabelecidas.

Morte encefálica não é coma

Outro aspecto importante das campanhas de conscientização é enfrentar informações equivocadas.

A morte encefálica corresponde à perda completa e irreversível das funções do cérebro, incluindo estruturas responsáveis pela manutenção de funções vitais. Ela não deve ser confundida com coma.

O diagnóstico segue critérios médicos e protocolos específicos antes que qualquer processo de doação de órgãos seja considerado.

Somente depois da confirmação da morte encefálica e das etapas previstas no processo é que uma eventual doação pode prosseguir. Quando há autorização, a retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico por equipes especializadas e autorizadas, e posteriormente o corpo é devidamente reconstituído e liberado à família.

Informação também salva vidas

Informação incorreta, medo e desconhecimento podem dificultar decisões relacionadas à doação. Por esse motivo, campanhas públicas precisam ir além do incentivo: também devem explicar como funciona o sistema, quais são os direitos das famílias e quais procedimentos garantem segurança e transparência.

O Sistema Nacional de Transplantes é responsável por coordenar, regulamentar e monitorar a doação e os transplantes de órgãos, tecidos e células no país, incluindo a administração das listas de espera e o acompanhamento dos procedimentos realizados.

Nesse contexto, o Dia Nacional da Doação de Órgãos dialoga diretamente com uma ideia fundamental para a ComCausa e o CAIS: defender a vida também significa ampliar o acesso da população a informações confiáveis, políticas públicas e serviços de saúde.

Conhecer o funcionamento da rede, conversar sobre o tema e enfrentar mitos são passos importantes para que uma decisão tão significativa seja tomada de maneira consciente.

O que fazer se você deseja ser doador?

A principal recomendação é comunicar claramente essa decisão às pessoas próximas.

Também é possível formalizar a manifestação de vontade por meio da AEDO. Quem quiser obter informações sobre transplantes, listas de espera e funcionamento do sistema pode consultar os canais oficiais do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde.

Mais do que incentivar uma decisão individual, o 27 de setembro é uma oportunidade para colocar o assunto dentro das casas, das escolas, dos espaços de trabalho, das organizações sociais e das comunidades. A doação começa muito antes de um transplante. Começa com informação, diálogo e respeito à vontade de cada pessoa.

Para quem espera por um órgão, essa conversa pode representar algo ainda maior: a possibilidade de continuar vivendo.

Imagem de capa ilustrativa

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