25 de outubro: segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro coloca em disputa projetos distintos para o Brasil

Confira as respostas das acusações feitas por Bolsonaro sobre as eleições

Lula e Flávio Bolsonaro apresentam propostas distintas para economia, segurança, políticas sociais, papel do Estado e relações internacionais.

O Brasil volta às urnas neste 25 de outubro de 2026 para o segundo turno da eleição presidencial, colocando frente a frente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em uma disputa marcada por diferenças importantes sobre economia, trabalho, segurança pública, educação, saúde, políticas sociais, papel do Estado e inserção internacional do país.

O segundo turno das Eleições Gerais de 2026 está previsto oficialmente pela Justiça Eleitoral para este domingo, com votação das 8h às 17h, no horário de Brasília. A disputa presidencial ocorre porque nenhuma candidatura alcançou, no primeiro turno, a maioria absoluta dos votos válidos necessária para encerrar a eleição naquela etapa.

Mais do que uma disputa entre nomes e partidos, a eleição apresenta ao eleitorado programas com escolhas distintas sobre a direção das políticas públicas brasileiras. Os planos apresentados pelas candidaturas estão disponíveis para consulta pública no Tribunal Superior Eleitoral, que reúne os documentos entregues oficialmente pelas campanhas.

O que Lula apresenta em seu programa

O programa de Lula combina continuidade de políticas implantadas ou retomadas durante seu atual mandato com novas propostas para os próximos quatro anos. Entre os principais compromissos registrados no TSE estão:

  • Trabalho: fim da escala 6×1 e redução da jornada semanal para 40 horas, além da manutenção da política de valorização do salário mínimo.
  • Economia e desenvolvimento: continuidade do Novo PAC, expansão da Nova Indústria Brasil, crédito para micro, pequenas e médias empresas e investimentos ligados à transformação ecológica.
  • Saúde: redução das filas para consultas e procedimentos especializados, fortalecimento do Farmácia Popular, Mais Médicos, CAPS, Brasil Sorridente e ampliação da estrutura pública de saúde.
  • Educação: expansão de creches, Pé-de-Meia, ensino técnico, Institutos Federais, ProUni, Fies, educação em tempo integral e valorização dos profissionais da educação.
  • Segurança pública: criação de um Ministério da Segurança Pública, fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública e da inteligência, combate financeiro ao crime organizado e maior atuação nas fronteiras.
  • Relações internacionais: fortalecimento do Mercosul, da integração sul-americana e dos BRICS, defesa do multilateralismo e manutenção de relações com diferentes regiões do mundo sem subordinação estratégica a uma única potência.

O programa também apresenta compromissos relacionados à agricultura familiar, transição energética, redução do desmatamento, direitos das mulheres, combate ao racismo, políticas para pessoas com deficiência, povos indígenas e quilombolas, população LGBTQIAP+ e fortalecimento de políticas culturais.

O que Flávio Bolsonaro propõe

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro concentra parte de suas propostas no endurecimento da política de segurança pública, redução do tamanho da administração federal, privatizações, desregulamentação econômica e mudanças nas relações de trabalho.

Na segurança pública, o documento propõe redução da maioridade penal, classificação mais dura de organizações criminosas, construção e ampliação de presídios, reconhecimento facial, restrições à progressão de pena para crimes hediondos e castração química para condenados por determinados crimes sexuais.

Na área econômica e administrativa, aparecem propostas de redução de impostos, revisão das regras fiscais e da reforma tributária, diminuição do custo do trabalho, ampliação do princípio do negociado sobre o legislado, reforma administrativa, redução de ministérios, retomada de um Programa Nacional de Desestatização e um chamado “revogaço regulatório”.

Na educação, Flávio propõe método fônico de alfabetização, ampliação do ensino técnico, escolas cívico-militares, gestão escolar por resultados, vouchers em situações de falta de vagas, ampliação da escola em tempo integral e aumento da conectividade. Na saúde, o documento menciona digitalização do SUS, inteligência artificial para agendamentos, prontuário eletrônico, telessaúde, saúde da família, imunização e maior utilização de horários ociosos da rede privada.

Parte das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro já possui políticas equivalentes em funcionamento

A leitura comparada do programa de Flávio Bolsonaro com políticas públicas federais existentes exige uma distinção importante: várias medidas apresentadas como propostas não partem do zero. Em alguns casos, elas representam expansão, modificação ou mudança de nome de estruturas que já funcionam no Brasil.

Um exemplo é a proposta de criar um “banco nacional de vagas de emprego”. O país já possui o Sistema Nacional de Emprego (Sine) e o Portal Emprega Brasil, por meio dos quais trabalhadores podem cadastrar currículos, consultar vagas compatíveis com seu perfil e participar de processos de intermediação de mão de obra em uma base de alcance nacional.

Situação semelhante ocorre na área da saúde. O programa de Flávio apresenta como propostas a digitalização do SUS, prontuário eletrônico e telessaúde. Atualmente, entretanto, o Programa SUS Digital, o Meu SUS Digital e a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) já desenvolvem integração de informações, acesso a registros de saúde, ferramentas destinadas a profissionais e gestores e serviços de telessaúde. Isso não impede que uma futura gestão proponha mudanças ou ampliação dessas estruturas, mas significa que a política não seria criada do zero.

Na educação ocorre outra sobreposição. O programa de Flávio menciona a expansão da escola em tempo integral, mas o Programa Escola em Tempo Integral existe no âmbito federal desde a Lei nº 14.640, de 2023, com transferências de recursos da União para estados e municípios destinadas à criação de novas matrículas de jornada integral.

A candidatura também apresenta a conectividade das escolas como proposta. O governo federal já mantém a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec), instituída em 2023 para articular ações destinadas à universalização da conectividade de qualidade nas escolas públicas de educação básica e ainda em execução em 2026.

Isso não significa que todas as propostas de Flávio Bolsonaro já existam nem que sejam idênticas às políticas atuais. Significa que uma parte de seu programa apresenta como objetivos futuros ações para as quais o Estado brasileiro já possui programas, sistemas ou estruturas em funcionamento.

A continuidade também aparece no programa de Lula: Novo PAC, Farmácia Popular, Mais Médicos, Pé-de-Meia e Nova Indústria Brasil, por exemplo, são explicitamente apresentados como políticas que seriam mantidas ou ampliadas. A diferença, portanto, deve ser observada tanto no conteúdo quanto na forma como cada candidatura propõe continuar, alterar ou substituir políticas existentes.

Estados Unidos, Trump e o debate sobre soberania

Uma das diferenças mais evidentes entre os projetos aparece na política externa.

O programa de Lula defende multilateralismo, fortalecimento do Mercosul, integração sul-americana, aprofundamento das relações com os BRICS e ampliação das relações com África, Ásia, Oriente Médio e demais países do Sul Global. O documento enfatiza a soberania e a capacidade do Brasil de estabelecer relações internacionais sem subordinação estratégica a outro país.

O programa oficial de Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe maior abertura comercial, retomada do processo de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), maior inserção em cadeias globais de valor e ampliação de acordos internacionais. O próprio documento também utiliza o conceito de soberania entre suas diretrizes.

Fora do texto formal registrado no TSE, porém, declarações públicas de Flávio Bolsonaro mostram uma orientação de aproximação muito mais estreita com os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump.

Em março, durante evento nos Estados Unidos, Flávio defendeu a formação de uma forte aliança conservadora entre os dois países. Em julho, sugeriu um acordo de livre comércio entre Brasil e Estados Unidos e também indicou que poderia reavaliar a permanência brasileira nos BRICS. O candidato declarou ainda interesse em ampliar a participação norte-americana na exploração de minerais críticos brasileiros, justificando a iniciativa como forma de diminuir a dependência dos Estados Unidos em relação à China.

Em outro documento encaminhado ao governo norte-americano, Flávio defendeu maior liberdade brasileira em relação às regras do Mercosul para negociar acordos comerciais e propôs limites à integração internacional do Pix em sistemas fora da chamada esfera ocidental, segundo levantamento publicado pela Deutsche Welle e pelo UOL.

Essas posições alimentam entre adversários políticos a crítica de “entreguismo” ou subordinação aos Estados Unidos. A caracterização é política e não deve ser confundida com um fato objetivo. O que pode ser documentado é que Flávio defende uma relação significativamente mais próxima com o governo Trump e já apresentou propostas envolvendo comércio, minerais estratégicos, BRICS, Mercosul e sistemas financeiros que aproximariam o Brasil da estratégia geopolítica norte-americana.

O próprio Flávio rejeita a ideia de subordinação. Seu programa apresenta essa orientação como uma política externa baseada em pragmatismo, abertura comercial e defesa dos interesses nacionais, além de afirmar que o Brasil deve evitar dependência excessiva em áreas estratégicas.

Já o programa de Lula critica o que chama de alinhamentos automáticos e defende oposição à subordinação do Brasil a interesses estrangeiros. Na prática, seu projeto prioriza diversificação de parceiros, integração regional, BRICS e atuação simultânea em diferentes fóruns multilaterais.

Dois projetos também diferem sobre o papel do Estado

As divergências não ficam restritas à política externa.

O plano de Lula aposta em políticas industriais, investimentos públicos, bancos públicos, programas sociais, ampliação de serviços públicos e participação estatal na indução do desenvolvimento econômico. O documento também propõe ampliar políticas de trabalho, educação, saúde e proteção social atualmente existentes.

Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda de maior abertura econômica, desregulamentação, privatizações, redução da estrutura ministerial e reforma administrativa, ao mesmo tempo em que afirma que pretende preservar programas sociais, promover crédito e ampliar determinadas políticas de saúde, educação e segurança.

São escolhas que podem produzir efeitos diferentes sobre serviços públicos, relações trabalhistas, investimentos, atuação das empresas estatais e presença do poder público na economia. A análise desses impactos deve considerar não apenas os títulos das propostas, mas sua regulamentação, financiamento e eventual aprovação pelo Congresso Nacional.

Informação, debate e respeito às urnas

O segundo turno intensifica naturalmente o debate político, mas divergências eleitorais não autorizam ameaças, agressões, discriminação, perseguições ou outras formas de violência.

A escolha cabe ao eleitorado, que deve ter acesso a informações verificáveis sobre as candidaturas, seus programas, seus históricos e as consequências possíveis das políticas apresentadas.

Também é importante diferenciar propostas efetivamente registradas, declarações feitas durante a campanha, políticas que já estão em funcionamento e promessas que dependem de mudanças legislativas ou aprovação do Congresso.

A ComCausa Oficial e a RedeDH acompanharão o segundo turno com cobertura cidadã, informação de serviço, acompanhamento das propostas e dos fatos da campanha, enfrentamento à desinformação e atenção especial a situações de discurso de ódio e violência política.

Independentemente da candidatura escolhida por cada pessoa, o resultado oficial das urnas deve ser acompanhado pelos canais da Justiça Eleitoral. Questionamentos e recursos eventualmente apresentados pelas candidaturas devem seguir as vias institucionais previstas pela legislação.

Segundo turno será em 25 de outubro

Segundo o calendário eleitoral, a votação do segundo turno ocorre em 25 de outubro de 2026, das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. A partir das 17h, a Justiça Eleitoral inicia os procedimentos de encerramento das seções e emissão dos boletins de urna.

A orientação ao eleitorado é verificar previamente zona, seção e local de votação nos canais oficiais da Justiça Eleitoral e evitar compartilhar mensagens sobre eleições cuja origem não possa ser confirmada.

A democracia não exige que as pessoas concordem entre si. Exige que possam fazer escolhas livres, tenham acesso à informação, respeitem direitos fundamentais e reconheçam que a definição sobre quem governará o país pertence ao eleitorado por meio do voto.

imagem de capa ilustrativa

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