Em entrevista à jornalista francesa Sarah Cozzolino, as integrantes Cris Marques e Maju compartilharam reflexões sobre as eleições de 2026, os desafios dos direitos humanos, as contradições do antifeminismo e as experiências de quem precisou enfrentar a violência doméstica. A conversa, inicialmente voltada à atuação da organização e à participação feminina na política, ganhou uma dimensão ainda mais humana com um depoimento espontâneo sobre violência, acolhimento e a importância de não enfrentar sozinha momentos de vulnerabilidade.
Uma conversa sobre eleições, direitos humanos e violência contra as mulheres acabou se transformando também em um encontro de escuta, memórias e experiências pessoais. Foi assim a entrevista concedida pela ComCausa à Rádio França Internacional (RFI), nesta quinta-feira, 8 de outubro, na sede da organização, na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro.
A jornalista francesa Sarah Cozzolino, correspondente da RFI no Brasil, esteve na ComCausa para uma reportagem sobre o voto feminino no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Seu objetivo era compreender as preocupações das mulheres brasileiras diante da disputa eleitoral, particularmente em relação à violência de gênero, à preservação de direitos e às expectativas para o futuro das políticas públicas.
A instituiçaõ participou da reportagem por meio de duas de suas integrantes, Cris Marques e Maju, que contribuíram com depoimentos diferentes, mas relacionados por questões que atravessam a realidade de muitas mulheres: o direito de participar das decisões políticas, a liberdade de expressar opiniões, a necessidade de proteção contra a violência e a importância de encontrar apoio quando direitos são violados.
Cris, que atua em projetos do CAIS ComCausa e participa das atividades do Juventude Solidária, foi inicialmente convidada para apresentar o trabalho da organização e discutir a conjuntura política. Maju, que trabalhava na sede da ComCausa durante a entrevista, acabou participando espontaneamente, depois que uma pergunta sobre acolhimento às mulheres vítimas de violência trouxe à conversa sua própria experiência.
O resultado foi um diálogo que transitou entre questões nacionais e acontecimentos da vida cotidiana, mostrando como os grandes debates sobre direitos humanos também se expressam nas histórias pessoais, nas relações familiares e na maneira como uma mulher é recebida quando procura ajuda.
Uma entrevista que começou com perguntas sobre direitos humanos
O primeiro contato aconteceu na terça-feira, 6 de outubro. Em mensagem encaminhada à ComCausa, Sarah Cozzolino apresentou-se como jornalista francesa, correspondente da Rádio França Internacional no Brasil, e explicou que estava preparando uma reportagem sobre o voto feminino.
A proposta incluía conhecer o trabalho da organização e ouvir uma mulher que desejasse falar, de forma voluntária e segura, sobre suas preocupações como eleitora diante do segundo turno das eleições presidenciais. A pauta tinha como uma de suas questões centrais a violência contra as mulheres e a maneira como esse problema influencia as percepções sobre candidaturas, políticas públicas e o futuro do país. A ComCausa acolheu o pedido e disponibilizou sua sede para a realização da entrevista.
A conversa começou de maneira institucional. Sarah queria compreender como a organização atuava, quais públicos acompanhava e de que maneira seu trabalho se relacionava com a proteção dos direitos humanos. Segundo Cris, a jornalista acreditava inicialmente que as atividades da entidade estavam concentradas na Baixada Fluminense e não sabia que a ComCausa também mantinha uma sede no Centro do Rio de Janeiro.
A entrevistada explicou a presença da organização em diferentes municípios da Região Metropolitana e na capital, apresentando ações de acolhimento, prevenção às violências, juventudes, cultura, comunicação comunitária e articulação com políticas públicas. A conversa foi também uma oportunidade para mostrar que a defesa dos direitos humanos não se limita ao atendimento de uma situação isolada. Frequentemente, envolve acompanhar trajetórias marcadas por dificuldades de acesso a serviços, discriminação, conflitos familiares, vulnerabilidade social e ausência de redes de apoio.
Em um gesto de aproximação, Cris colocou o espaço da organização à disposição de Sarah para eventuais atividades profissionais futuras. Mas, à medida que a entrevista avançava, as perguntas passaram da apresentação institucional para temas que tocavam diretamente as convicções e experiências da entrevistada.
Entre o achismo e a realidade: as preocupações com o futuro político
Quando a conversa chegou às eleições presidenciais, Sarah procurou saber como Cris avaliava o cenário político e quais seriam suas preocupações com possíveis mudanças nos direitos humanos e nas políticas públicas. A integrante da ComCausa, que se posiciona pessoalmente contra o bolsonarismo, falou sobre os receios que possui em relação a uma possível ampliação da influência desse campo político na condução do país, especialmente em assuntos relacionados aos direitos das mulheres e à proteção das populações socialmente vulnerabilizadas.
O voto feminino e as mulheres que se identificam com o conservadorismo
Outro momento da conversa foi dedicado às escolhas políticas das mulheres brasileiras. Sarah Cozzolino buscava compreender como eleitoras interpretam a disputa presidencial e por que diferentes segmentos do público feminino apoiam candidaturas com propostas distintas para temas relacionados à igualdade de gênero e às políticas sociais. Cris comentou a capacidade dos discursos associados ao bolsonarismo de mobilizar parte da população, incluindo mulheres.
Em sua avaliação, essas narrativas apresentam promessas e valores capazes de despertar identificação, mesmo entre eleitoras que podem ter posições diferentes sobre direitos sociais e políticas de gênero. O debate também evidenciou que as mulheres não formam um grupo eleitoral homogêneo. Suas escolhas são atravessadas por diferentes trajetórias, crenças, condições socioeconômicas, experiências familiares e visões de mundo. A discussão se aprofundou quando surgiu o tema do antifeminismo. Cris mencionou o exemplo de uma deputada eleita em São Paulo que se declara antifeminista. A jornalista, então, perguntou como ela compreendia esse posicionamento. A resposta de Cris foi marcada por uma dúvida: o que exatamente essas mulheres rejeitam quando afirmam ser contrárias ao feminismo?
Como compreender o antifeminismo entre mulheres que ocupam espaços de poder?
A pergunta provocou uma das reflexões mais significativas de Cris durante a entrevista. Para ela, existe uma contradição que merece ser discutida quando mulheres que ocupam cargos políticos e exercem direitos historicamente negados à população feminina se apresentam como opositoras do feminismo.
A entrevistada lembrou que direitos como votar, estudar, trabalhar, ocupar espaços de decisão e reivindicar igualdade de oportunidades não estiveram sempre disponíveis às mulheres nas mesmas condições oferecidas aos homens. Essas conquistas resultaram de processos históricos, transformações sociais e mobilizações que contaram com a participação de movimentos feministas e de outras organizações de mulheres.
No Brasil, o reconhecimento nacional do direito feminino ao voto ocorreu em 1932. A ampliação da participação política, do acesso à educação e dos direitos trabalhistas também envolveu diferentes períodos de mobilização.
Cris questionou como compreender a posição de uma mulher que exerce um mandato parlamentar e, ao mesmo tempo, rejeita movimentos que contribuíram para abrir esses espaços à participação feminina. Sua dúvida não foi apresentada como uma resposta definitiva sobre o que significa ser antifeminista. Pelo contrário: Cris reconheceu que não sabia explicar satisfatoriamente todos os significados atribuídos a esse posicionamento.
A própria discussão evidencia a necessidade de diferenciar mulheres que rejeitam determinadas correntes feministas daquelas que defendem posições contrárias à igualdade de direitos. Ainda assim, a contradição percebida por Cris permaneceu como um dos assuntos que mais a fizeram pensar depois da entrevista. A questão, para ela, não se restringe à identificação política de uma parlamentar. Envolve a relação entre memória histórica, direitos conquistados e a maneira como esses direitos são interpretados no presente.
Quando a conversa sobre violência deixou de ser apenas uma discussão de políticas públicas
A entrevista seguiu para outro assunto que Sarah Cozzolino desejava compreender: a violência contra as mulheres. A jornalista perguntou sobre as situações enfrentadas pelas vítimas e como a organização contribuía para o acolhimento e o acesso à proteção. Para Cris, esse foi um momento particularmente delicado.
Ao recordar a conversa, ela explicou que nem sempre se sente confortável para falar sobre violência doméstica em primeira pessoa, justamente porque não vivenciou diretamente uma experiência semelhante. Isso não significa que o problema esteja distante de sua vida.
Durante a entrevista, Cris mencionou situações de violência doméstica vividas por sua mãe e sua irmã. São experiências de pessoas próximas que contribuíram para sua percepção sobre a gravidade do problema e sobre o sofrimento que pode atingir não apenas a vítima, mas também suas relações familiares. A entrevistada reconheceu a importância de respeitar o lugar de fala de quem vivenciou situações de violência, sem deixar de destacar a responsabilidade coletiva no enfrentamento desse problema.
Foi nesse momento que surgiu a referência a Maju. Ela estava no mesmo ambiente, trabalhando no computador, e autorizou que Cris mencionasse sua experiência. O que inicialmente parecia ser apenas uma referência durante a conversa acabou abrindo espaço para outro depoimento.
Maju não pretendia participar da entrevista, mas sua história encontrou espaço
Maju estava no escritório quando a entrevista começou. Sua intenção era deixar Cris à vontade para conversar com a jornalista. Ela entendia que aquele momento seria dedicado principalmente à apresentação da ComCausa e às reflexões de Cris sobre a situação política. Entretanto, quando a entrevista passou a abordar a maneira como mulheres vítimas de violência são acolhidas, Cris mencionou sua experiência. Maju começou a contribuir com a conversa de onde estava sentada.
Sarah Cozzolino percebeu que havia ali uma história que poderia ajudar a compreender, de maneira mais concreta, as dificuldades enfrentadas por mulheres que procuram proteção. A jornalista perguntou se Maju poderia falar mais sobre seu caso e sobre o apoio que havia recebido. O convite foi feito de maneira respeitosa, sem imposição, e Maju decidiu participar. Ela deixou o computador, aproximou-se da conversa e passou a compartilhar uma experiência pessoal que não estava inicialmente prevista na reportagem.
A entrevista, que até então transitava principalmente entre reflexões políticas e informações sobre direitos humanos, passou a incluir a narrativa de uma mulher que havia enfrentado violência doméstica e precisado procurar ajuda.
O relato de Maju sobre violência doméstica e a busca por atendimento
Durante seu depoimento, Maju contou que sofreu violência doméstica praticada pelo pai de sua filha. Também relatou que, em uma ocasião anterior, havia precisado procurar uma delegacia em razão de uma agressão.
Ao relembrar o episódio, apresentou uma comparação entre aquela experiência de atendimento e a situação mais recente, em que, lamentavelmente, voltou a sofrer violência doméstica, desta vez envolvendo um namorado, e na qual contou com o apoio da ComCausa. O aspecto mais importante de seu depoimento foi a diferença que percebeu na maneira como foi recebida e acolhida. Maju não falou apenas sobre a existência de um serviço ou a realização de um procedimento. Seu relato envolveu a experiência de procurar ajuda em um momento de vulnerabilidade e a importância de encontrar pessoas dispostas a ouvir, orientar e acompanhar sua situação.
A integrante destacou que o apoio da ComCausa representou uma diferença significativa em sua busca por acolhimento. O contraste apresentado por ela também levanta uma questão que ultrapassa sua experiência individual: o que acontece quando uma mulher que sofreu violência decide procurar proteção? Essa decisão pode envolver medo, insegurança, preocupação com familiares, dificuldades para relatar o ocorrido e dúvidas sobre os procedimentos que precisam ser adotados. Em algumas situações, a mulher também precisa superar receios relacionados à forma como será atendida, especialmente quando já passou por experiências que considera negativas. Por isso, a qualidade do acolhimento pode desempenhar um papel importante no percurso de quem procura ajuda.
Maju encontrou na entrevista uma oportunidade de apresentar sua própria percepção sobre esse processo. Seu relato não teve a pretensão de avaliar todos os serviços de atendimento às vítimas de violência doméstica. Foi a apresentação de uma experiência pessoal e das diferenças que percebeu ao buscar apoio em momentos distintos. Ao falar sobre isso, contribuiu para aproximar a discussão sobre políticas públicas das condições concretas em que esses direitos precisam ser exercidos.
A importância de ser ouvida sem julgamentos
O depoimento de Maju também trouxe para a reportagem uma reflexão sobre a escuta. Quando uma mulher relata uma situação de violência, não está apenas descrevendo um acontecimento. Muitas vezes, precisa revisitar lembranças difíceis, explicar circunstâncias familiares e enfrentar perguntas sobre episódios que ainda produzem sofrimento. Por isso, a maneira como a conversa é conduzida importa.
Ser ouvida com respeito, ter sua autonomia reconhecida e encontrar um ambiente em que possa decidir quais aspectos de sua história deseja compartilhar são condições fundamentais para evitar novos constrangimentos. No caso de Maju, a postura de Sarah Cozzolino contribuiu para que a participação acontecesse naturalmente. A jornalista demonstrou interesse pelo relato e permitiu que a entrevistada apresentasse suas experiências com suas próprias palavras.
“Eu me senti muito à vontade para falar”, contou Maju ao recordar a entrevista. A frase resume uma dimensão importante daquele encontro. Maju não havia se preparado para conceder uma entrevista. Não estava esperando que sua história se tornasse parte de uma reportagem internacional. Mesmo assim, encontrou naquele momento uma oportunidade de falar sobre o que havia vivido e sobre a importância do apoio recebido.
O episódio também revela a necessidade de que o jornalismo, especialmente quando trata de violência, considere a liberdade e os limites de quem aceita compartilhar experiências pessoais. A escuta não se resume a fazer perguntas. Também envolve reconhecer que uma pessoa pode decidir o que deseja contar, como deseja ser identificada e quais aspectos de sua vida prefere preservar.
Maju também fala sobre anarquismo e voto tático
A participação de Maju não ficou restrita à violência doméstica. Depois de compartilhar sua experiência pessoal, ela também falou sobre suas convicções políticas e sua avaliação da disputa presidencial. Durante a conversa, identificou-se como anarquista. Ao mesmo tempo, explicou que considera a possibilidade do chamado voto tático, uma escolha eleitoral circunstancial motivada pela intenção de evitar um resultado político que considera prejudicial. Maju manifestou sua preocupação com uma possível vitória da direita e com o que avalia serem riscos de retrocessos, especialmente nas áreas dos direitos das mulheres e das políticas culturais.
Sua posição foi apresentada como uma avaliação individual, relacionada às próprias convicções e à maneira como interpreta o cenário político. O depoimento revelou uma questão interessante: a relação entre a identificação ideológica de uma pessoa e suas decisões práticas diante de uma eleição. Mesmo mantendo uma visão crítica das estruturas tradicionais de poder, Maju considera que a conjuntura pode levar à adoção de escolhas estratégicas. Para ela, o voto pode ser discutido também em função das possíveis consequências para direitos, programas e políticas públicas.
Essa avaliação não representa a posição de todas as pessoas que se identificam com o anarquismo, nem constitui orientação eleitoral institucional. É parte do depoimento de Maju e da maneira como ela interpreta o momento político brasileiro. A participação acrescentou outra perspectiva à reportagem, mostrando que as preocupações eleitorais das mulheres não seguem necessariamente divisões simples entre posições ideológicas. Elas podem envolver experiências pessoais, acesso a direitos, preocupações sociais e avaliações sobre os efeitos das decisões governamentais.
Duas mulheres, diferentes experiências e uma preocupação comum
Embora Cris e Maju tenham abordado temas diferentes, suas contribuições se encontraram em uma questão central: o significado dos direitos das mulheres na vida real. Cris concentrou parte de seu depoimento nas conquistas históricas, na participação política e nas preocupações com o futuro das políticas públicas. Maju apresentou uma experiência concreta de violência doméstica, mostrando que a existência de direitos e serviços não elimina as dificuldades que podem surgir quando uma mulher precisa de proteção. As duas perspectivas permitem compreender que o enfrentamento à violência e a promoção da igualdade não dependem exclusivamente de discursos políticos ou de mudanças legislativas.
Também envolvem a qualidade do atendimento oferecido às pessoas, a existência de redes de apoio, o acesso à informação e o respeito à autonomia feminina. O debate sobre o voto das mulheres, nesse contexto, não pode ser reduzido à escolha entre candidaturas. Ele também envolve a maneira como diferentes eleitoras interpretam suas condições de vida, os serviços públicos de que necessitam, as experiências de discriminação e violência e as expectativas para o futuro. As preocupações políticas de Cris e Maju são pessoais, mas os assuntos abordados estão presentes no debate público brasileiro e dizem respeito a questões mais amplas de cidadania.
A violência contra as mulheres não termina quando a agressão acaba
Uma das questões que podem ser extraídas do relato de Maju é que as consequências da violência doméstica não se restringem ao momento da agressão. A busca por proteção pode exigir que a mulher reorganize aspectos de sua vida, procure serviços especializados, tome decisões difíceis e lide com consequências familiares, emocionais e sociais. Nesse percurso, o atendimento recebido pelas instituições pode representar um elemento importante de segurança e confiança.
O Brasil conta, há 20 anos, com os mecanismos de proteção previstos na Lei Maria da Penha, incluindo medidas protetivas de urgência e uma rede de serviços voltada ao enfrentamento da violência doméstica e familiar. O ordenamento jurídico também passou a prever punições mais rigorosas contra agressores, especialmente com a legislação sobre feminicídio. A efetividade desses instrumentos, entretanto, também depende de sua implementação, da articulação entre os serviços e das condições oferecidas às mulheres para utilizá-los. A trajetória relatada por Maju chama atenção para a dimensão humana dessa questão. Antes de qualquer procedimento administrativo, jurídico ou policial, existe uma pessoa que precisa ser reconhecida em sua dignidade e ouvida sobre o que está acontecendo. A capacidade de acolher sem julgamentos, orientar com clareza e respeitar decisões individuais faz parte da construção de respostas mais adequadas à violência. Ao relatar à jornalista as diferenças percebidas entre os atendimentos que vivenciou, Maju contribuiu para colocar essa discussão no centro da reportagem.
A entrevista também trouxe dúvidas que permaneceram depois
Os depoimentos concedidos à Rádio França Internacional não terminaram necessariamente quando a jornalista encerrou suas perguntas. Ao comentar a experiência posteriormente, Cris reconheceu que não se lembrava de todos os detalhes da conversa, mas destacou os assuntos que continuaram provocando reflexões. Entre eles, a dificuldade de prever o futuro político, as contradições que identifica no antifeminismo e o cuidado necessário para falar sobre experiências de violência que não vivenciou diretamente. Maju também recordou a entrevista de maneira positiva. O que começou como uma participação inesperada acabou se tornando uma oportunidade de compartilhar sua história, explicar a importância do acolhimento recebido e apresentar suas posições políticas. Ela destacou que falou mais do que inicialmente imaginava, justamente porque se sentiu confortável durante a conversa.
As impressões das duas integrantes demonstram que uma entrevista jornalística pode produzir reflexões que ultrapassam a reportagem em si. Ao organizar uma experiência em palavras, uma pessoa também pode revisitar o significado daquilo que viveu, reconhecer dúvidas e perceber aspectos de sua trajetória que merecem ser discutidos.
No caso de Cris, a experiência foi marcada pela reflexão sobre os limites das avaliações políticas. No caso de Maju, pela possibilidade de falar sobre violência, acolhimento e escolhas eleitorais em um ambiente no qual se sentiu respeitada.
O voto feminino e a realidade dos direitos das mulheres
A reportagem preparada por Sarah Cozzolino parte de um assunto diretamente relacionado à democracia: a participação das mulheres nas eleições brasileiras. Mas os depoimentos colhidos durante a visita mostram que essa participação está relacionada a questões que ultrapassam o momento do voto. O acesso à justiça, a proteção contra a violência doméstica, a igualdade de oportunidades e a possibilidade de ocupar espaços de decisão são elementos que influenciam as condições de cidadania das mulheres. A própria história do voto feminino no Brasil demonstra que a participação política foi conquistada ao longo de processos de transformação social. Hoje, embora as mulheres exerçam o direito de votar e possam disputar cargos públicos, continuam existindo desafios relacionados à violência, à desigualdade de gênero e à representação política. Ao mesmo tempo, as eleitoras apresentam opiniões diferentes sobre como enfrentar esses problemas, quais políticas devem ser priorizadas e quais candidaturas melhor representam suas expectativas.
A conversa com Cris e Maju trouxe parte dessa complexidade. De um lado, as preocupações sobre possíveis mudanças nas políticas públicas. De outro, a experiência de quem já precisou recorrer a mecanismos de proteção e atribui importância ao apoio recebido. As duas dimensões ajudam a compreender por que o debate eleitoral também envolve experiências que não aparecem diretamente nas propostas de campanha.
Leia também:
Masculinidades positivas ajudam jovens a refletir sobre respeito diálogo e prevenção das violências
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________________
Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

______________________
Compartilhe: