Entre 22 e 27 de novembro de 1910, a Baía de Guanabara se transformou no centro de uma crise que até hoje não foi totalmente encerrada. Naqueles dias, quatro dos navios mais poderosos da Marinha brasileira – os encouraçados Minas Gerais e São Paulo, o cruzador Bahia e o contratorpedeiro Deodoro – foram tomados por seus próprios marinheiros, em sua maioria negros, mestiços e pobres, que hastearam bandeiras vermelhas de insurreição e apontaram cerca de 80 canhões para o Rio de Janeiro, então capital federal. Nascia a Revolta da Chibata, um levante que denunciava a permanência da lógica escravocrata em plena Primeira República e que, mais de um século depois, continua disputado na memória oficial: a mesma Marinha que se moderniza em tecnologia segue resistindo a reconhecer o líder da revolta, João Cândido Felisberto, como herói nacional.
A Revolta da Chibata só se explica no contexto da Primeira República (1889–1930), marcada pela concentração de poder nas oligarquias, baixa participação popular e manutenção de estruturas profundamente racistas e desiguais mesmo após a Abolição de 1888. Na virada do século XX, o Brasil investiu pesado na modernização da sua Esquadra: o Minas Gerais (1908) e o São Paulo (1909) eram navios de ponta, com uma bateria principal de canhões de 305 mm que colocava o país na chamada “corrida dos encouraçados” e despertava atenção internacional.
Mas, enquanto o casco reluzia em aço e poder de fogo, o cotidiano a bordo permanecia ancorado no passado escravocrata. A maioria dos marinheiros era composta por negros e pardos, filhos e netos de pessoas escravizadas, oriundos das camadas mais pobres, recrutados jovens, submetidos a soldos baixos, alimentação precária, condições insalubres nos porões e jornadas extenuantes. A disciplina era mantida com castigos físicos, sobretudo as chibatadas, aplicadas publicamente como espetáculo de humilhação e controle. Na prática, corpos negros e pobres continuavam sendo “corpos castigáveis”, mesmo sob a bandeira da República.
O estopim: 250 chibatadas em Marcelino e o “não” dos marujos
O que vinha fermentando em silêncio explodiu em novembro de 1910, quando o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes foi condenado a 250 chibatadas diante da tripulação, por uma suposta infração disciplinar. O castigo, executado até ele desmaiar e ficar coberto de sangue, simbolizou para os colegas que nada havia mudado desde o tempo dos navios negreiros: a pele de um servidor da Pátria ainda era cortada por açoites, e não por “armas do inimigo”.
Entre os marinheiros indignados, emergia a liderança de João Cândido Felisberto, que seria eternizado como Almirante Negro. Nascido no Rio Grande do Sul, filho de ex-escravizados, ele entrou ainda adolescente na Marinha, navegou o mundo, dominou técnicas de navegação e artilharia e era respeitado tanto por companheiros quanto por oficiais. Esse capital técnico e moral permitiu que organizasse uma revolta com objetivos nítidos e capacidade real de operar os navios mais sofisticados da Esquadra.
Na madrugada de 22 de novembro de 1910, o plano entrou em ação. Em poucos minutos, os marinheiros tomaram o controle do Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro, neutralizando a cadeia de comando e substituindo oficiais por praças habilitadas a operar as máquinas de guerra. Bandeiras vermelhas foram içadas nos mastros, e os canhões passaram a mirar o centro político da República: o Palácio do Catete, o Ministério da Marinha e áreas densamente povoadas do Rio de Janeiro.
Por rádio, uma mensagem histórica: os revoltosos não pediam o fim da disciplina, mas o fim da “escravidão a bordo”. Exigiam o fim imediato dos castigos físicos, melhores condições de trabalho e de vida, aumento salarial, afastamento de oficiais torturadores e anistia plena para todos os participantes do movimento.
Negociação, promessa de anistia e a repressão que veio depois
Durante cinco dias, entre 22 e 27 de novembro, o governo Hermes da Fonseca viveu uma crise sem precedentes: resistir à bala significaria arriscar uma tragédia com navios de altíssimo poder de fogo controlados pelos insurretos; ceder significava reconhecer a legitimidade de um levante liderado por marinheiros negros e pobres. Sob forte pressão, o Congresso aprovou a abolição oficial dos castigos corporais na Marinha e o governo anunciou o atendimento das principais reivindicações, incluindo a promessa de anistia.
Os marinheiros, confiando na palavra oficial, devolveram os navios ao comando regular. A impressão inicial era a de uma vitória histórica: a chibata, símbolo máximo da desumanização, estava oficialmente extinta, e o país inteiro havia sido forçado a reconhecer a violência estrutural a bordo.
Mas a “paz” durou pouco. Com os encouraçados novamente sob controle dos altos comandos, começou uma repressão silenciosa e sistemática. Em 1911, 1.216 marinheiros foram expulsos da Armada, e vários deles foram perseguidos, presos, enviados para regiões distantes ou submetidos a processos farsescos. Houve massacres, como o da Ilha das Cobras, e fuzilamentos no navio “Satélite”, ceifando a vida de dezenas de considerados “indesejáveis”, como registra o deputado federal e professor de História Chico Alencar em carta aberta recente ao Comandante da Marinha.
Chico Alencar
João Cândido sobreviveu a esse período, mas pagou caro: foi preso, torturado, internado em hospital psiquiátrico, expulso da Marinha e condenado à invisibilidade. Sem pensão e sem reconhecimento, passou a viver de trabalhos informais, terminando seus dias em condições humildes, vendendo peixe em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. A memória de sua luta, porém, seguiu viva nas periferias, nos movimentos negros, nas escolas de samba e, nos últimos anos, em iniciativas como as da ComCausa – Defesa da Vida, do Projeto Comunicando ComCausa e do Portal C3.
Anistia tardia, memória viva: do esquecimento ao debate sobre heróis da Pátria
Só em 2008 João Cândido e outros participantes da Revolta da Chibata foram oficialmente anistiados pelo Estado brasileiro, em decisão da Comissão de Anistia. Mesmo assim, a reparação foi incompleta: ele não recebeu compensação financeira ou pensão da União, apenas uma pensão concedida pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, como destaca o Ministério Público Federal (MPF).
Nos anos seguintes, o Almirante Negro ganhou estátua na Praça XV, no centro do Rio, tornou-se tema de sambas-enredo, obras acadêmicas, documentários e podcasts, e inspira projetos de memória e direitos humanos. Em 2021, o Senado aprovou a inclusão de seu nome no Livro de Heróis e Heroinas da Pátria (PL 340/2018), transferindo o debate à Câmara dos Deputados, onde tramita o PL 4046/2021, analisado pela Comissão de Cultura. É nesse ponto que a história de 1910 encontra a política de 2024: a disputa sobre se João Cândido deve ou não ser oficialmente reconhecido como herói da nação reacendeu a tensão entre setores da Marinha, o Parlamento, o Ministério Público Federal, a família do Almirante Negro e movimentos de direitos humanos.
A carta da Marinha: “página deplorável”, “abjetos marinheiros” e o medo da “subversão”
Em abril de 2024, a Marinha do Brasil enviou uma carta à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado Aliel Machado (PV-PR), manifestando-se contra a inclusão de João Cândido no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. Na carta, a instituição classifica a Revolta da Chibata como “subversão” e como uma “página deplorável na história nacional”, argumentando que, embora o fim das chibatadas fosse uma demanda justa, os marinheiros teriam buscado “vantagens corporativas e ilegítimas”, como aumento salarial, redução da jornada de trabalho e afastamento de oficiais. A Marinha também afirma que homenagear João Cândido poderia enviar uma “mensagem errada” à sociedade e aos militares, ao supostamente sugerir que é aceitável usar armas para reivindicar direitos.
Na mesma linha, o comandante da Força, almirante Marcos Sampaio Olsen, chegou a dizer, segundo a carta sintetizada por Chico Alencar, que a revolta teria sido obra de “abjetos marinheiros” que teriam “chantageado a nação”. O documento ignora, porém, a repressão posterior ao movimento – expulsões em massa, fuzilamentos, mortes em celas insalubres – e relativiza a gravidade dos castigos físicos, o que motivou reação imediata de instituições como o Ministério Público Federal. O procurador da República Júlio Araújo contestou publicamente a posição da Marinha, lembrando que relativizar chibatadas é um erro grave e que a Revolta da Chibata contribuiu diretamente para a melhoria das condições na corporação.
O filho que responde: “não quero que ele seja herói da Marinha, quero que seja herói do povo”
Poucos dias depois da manifestação oficial da Marinha, quem entrou no debate foi Adalberto Cândido, o seu Candinho, único filho vivo de João Cândido, morador de São João de Meriti. Em entrevista à Agência Brasil, repercutida por diferentes veículos, ele criticou com dureza a postura da Força e afirmou não se surpreender com a resistência ao nome do pai.
Candinho relata que a Marinha nunca procurou a família e que costuma se ausentar de homenagens oficiais ao Almirante Negro – como na cerimônia de instalação da estátua na Praça XV, no Rio. Segundo ele, a instituição “nutre um ódio” pela memória do pai e não reconhece a contribuição dos marinheiros de 1910 para a própria evolução da Marinha. Em suas palavras:
“Eles deviam agradecer aos marinheiros por terem feito a Marinha evoluir. Mas não quero que meu pai seja herói da Marinha, quero que seja um herói do povo. Meu pai é um herói popular. A verdade é que a Marinha não se atualizou como deveria.”
Candinho também lembra que a inclusão do nome de João Cândido no Livro de Heróis depende da aprovação do PL 4046/2021, hoje na Comissão de Cultura, justamente a destinatária da carta de contestação enviada pela Marinha. Ou seja, mais de um século depois, a disputa que começou com chibatadas e canhões na Baía de Guanabara segue viva no terreno simbólico e institucional.
MPF, reparação incompleta e a disputa pelo sentido da história
O debate não se limita à esfera simbólica. O Ministério Público Federal tem defendido que a reparação a João Cândido foi incompleta, já que, embora anistiado, ele não recebeu compensação ou pensão do Estado brasileiro, e segue sendo alvo de resistência institucional quando se fala em reconhecê-lo como herói da Pátria. O MPF já recomendou abertura de processo administrativo para o reconhecimento pleno de sua condição de anistiado político e para o avanço da inscrição no Livro de Heróis e Heroinas da Pátria, inclusive se contrapondo ao posicionamento da Marinha.
Esse conjunto de ações – carta da Marinha, reação do filho, carta aberta de Chico, posicionamento do MPF – mostra que a disputa em torno da memória de João Cândido não é apenas uma questão de biografia, mas um campo de batalha sobre como o Brasil lida com sua história de racismo, violência institucional e resistência popular.
Linha do tempo ilustrada – da chibata ao Livro de Heróis
1888 – Abolição da escravidão
1890 – Código Penal da República (O Código já condena castigos corporais, mas a prática da chibata permanece na Marinha, especialmente contra marinheiros negros e pobres).
1908–1909 – Minas Gerais e São Paulo | O Brasil lança dois encouraçados de última geração, tornando-se destaque na corrida naval internacional.
21/11/1910 – 250 chibatadas em Marcelino Rodrigues Menezes | Punição exemplar e brutal, aplicada à vista da tripulação, acende a revolta.
22–27/11/1910 – Revolta da Chibata | Marinheiros tomam quatro navios, içam bandeiras vermelhas e apontam 80 canhões para a capital, exigindo fim da chibata, melhores condições de trabalho e anistia.
1911 – Repressão, expulsões e massacres | Expulsão de 1.216 marinheiros da Armada, massacre na Ilha das Cobras, fuzilamentos no navio Satélite. A revanche do Estado contra os “marujos negros e analfabetos”
Décadas seguintes – Silenciamento e resistência | João Cândido vive na pobreza, vendendo peixe em São João de Meriti, enquanto sua memória resiste em relatos orais, no samba, na imprensa popular e, mais tarde, em pesquisas acadêmicas e documentários.
1959 – “A Revolta da Chibata”, de Edmar Morel | Livro seminal que recupera a história do levante e populariza a expressão “Revolta da Chibata”
2008 – Anistia oficial | Estado brasileiro reconhece tardiamente João Cândido como anistiado, mas sem reparação plena.
2010–2020 – Homenagens e monumentos | Estátua de João Cândido na Praça XV, enredos de escolas de samba, podcasts, filmes e reportagens ampliam seu lugar na memória coletiva.
2021 – Senado aprova inclusão no Livro de Heróis | PL 340/2018 aprovado, remetendo o tema à Câmara dos Deputados (PL 4046/2021).
24/04/2024 – Carta da Marinha à Comissão de Cultura | Comandante Marcos Sampaio Olsen classifica a Revolta como “página deplorável” e os marinheiros como “abjetos”, posicionando-se contra a inclusão de João Cândido no Livro de Heróis.
26–27/04/2024 – Filho responde: “meu pai é um herói popular”, Adalberto Cândido, o seu Candinho, critica a Marinha, diz que a instituição nutre ódio ao pai e afirma que João Cândido é herói do povo, não apenas da corporação.
Memória, disputa e direitos humanos
A trajetória da Revolta da Chibata – do açoite à anistia, do massacre ao debate sobre o Livro de Heróis – mostra que a história não é apenas uma sequência de datas, mas um campo de disputa viva. Ao se opor ao reconhecimento de João Cândido como herói da Pátria, a Marinha reabre feridas e revela o quanto ainda é difícil, para instituições marcadas pela hierarquia e pela tradição, reconhecer o papel transformador de movimentos de base, negros, populares e insubmissos.
Ao mesmo tempo, a voz de seu Candinho, a carta de Chico Alencar, as manifestações do MPF e a cobertura de veículos como o Portal C3, em parceria com a ComCausa – Defesa da Vida e o Projeto Comunicando ComCausa, reafirmam que a memória de João Cândido não pertence apenas aos quartéis: ela é patrimônio do povo brasileiro, em especial dos territórios periféricos e da Baixada Fluminense, onde o Almirante Negro viveu seus últimos anos.
Mais de um século depois, os ecos da Revolta da Chibata continuam a perguntar que tipo de país queremos ser: um que chama de “página deplorável” a luta contra a chibata, ou um que reconhece nesses marinheiros – e em João Cândido – a coragem de dizer não à tortura, à humilhação e ao racismo?
Saiba mais sobre em Comcausa.org.br/JoaoCandido e nas matérias do Portal C3.
https://www.youtube.com/watch?v=bVQAVJPMIQs
Leia também:
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
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