A lógica da matança: como a segurança virou ritual de extermínio no Rio de Janeiro

Operação mais letal do Rio de Janeiro

A operação policial deflagrada em 28 de outubro nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, entrou para a história — e não por um feito administrativo ou por uma vitória clara do Estado, mas por um número seco, brutal e de leitura ambígua: dezenas de mortos, dezenas de presos, dezenas de famílias dilaceradas. As contagens variaram conforme a fonte e o momento das apurações: em diferentes levantamentos apareceram números como 64 mortos e 81 detidos, 119 ou 121 mortos e, em relatórios de órgãos de defesa, mesmo cifras superiores a 120 mortes foram apontadas. Essa variabilidade já diz muito: numa tragédia desse porte, os fatos se atropelam, as versões se multiplicam e a verdade demora a emergir.

O governador do Estado apresentou a operação como direcionada ao Comando Vermelho e chegou a afirmar — em documentos aos quais a imprensa teve acesso — que “não há notícias de óbitos referentes a indivíduos não pertencentes à organização narcoterrorista”, tentativa clara de circunscrever a letalidade ao “inimigo” e legitimar a ação. Ainda assim, a declaração não apaga a cena: corpos nas ruas, relatos de moradores apavorados, escolas e serviços suspensos, e o luto de famílias que buscam nomes no Instituto Médico-Legal. É esse o balanço material onde se mede a eficácia e a (in)legitimidade de uma operação que, nos números oficiais e extraoficiais, já figura entre as mais letais da história do estado.

As imagens e relatos difundidos nos dias seguintes trouxeram sinais de horror que exigem investigação: foi noticiado, por fontes locais e por familiares, que um jovem identificado como Yago Ravel Rodrigues, de 19 anos, teve a cabeça decapitada — o corpo foi reconhecido por parentes e virou um dos símbolos mais cruéis da operação. Esses episódios alimentaram denúncias de tortura, abusos e execuções extrajudiciais, e levaram partidos e organizações a formalizarem pedidos de apuração por violação de direitos humanos junto ao Supremo. Não se trata apenas de indignação retórica: são sinais de que o uso da força pode ter extrapolado qualquer margem aceitável de proporcionalidade.

Ao mesmo tempo, a própria categoria policial pagou um preço: quatro agentes foram mortos durante a ação, entre eles o inspetor Rodrigo Velloso Cabral, de 34 anos — que, conforme reportagens, havia sido nomeado há pouco tempo (entre 40 e 63 dias de corporação, segundo fontes divergentes). A fatalidade do policial expõe outra ferida do modelo atual: profissionais com pouca experiência operacional sendo lançados em megaoperações cuja logística, inteligência e risco exigem preparo e especialização. A perda daqueles homens não pode servir de justificativa para que o Estado abdique do dever de investigação e responsabilização quando surgem indícios de abuso.

É preciso olhar para além das cenas chocantes e perguntar: por que, afinal, a guerra não acaba? Parte da resposta está no fluxo de armas, dinheiro e poder por trás do tráfico. O custo de um fuzil de assalto no mercado ilícito é frequentemente citado em reportagens e análises como muito alto — cifras como R$ 30–60 mil circulam em relatos de investigadores, sindicatos e jornalistas — o que reforça a hipótese de que o acesso a armamento sofisticado nas favelas não é produto da iniciativa individual de jovens, mas de cadeias logísticas complexas e financiadores com recursos. Armas apreendidas em uma operação podem, segundo análises do mercado paralelo, ser revendidas e reentrar no circuito criminoso. Esse ciclo alimenta a eternização da guerra: apreende-se hoje, vende-se amanhã, morre-se sempre.

Ao mapear as nuances desse conflito, não podemos esquecer outro ator: as milícias paramilitares que crescem na Zona Oeste e em outras áreas metropolitanas — estruturas que se consolidam oferecendo “serviços”, cobrando taxas e chantageando populações inteiras. São crimes com outra face: atuam como empresas extorsivas, estabelecem controle territorial e corrompem instituições. Combater apenas as bocas de fumo, sem desmontar redes de financiamento, sem enfrentar corrupção, sem redesenhar políticas sociais e de desenvolvimento local, significa emparedar soluções e produzir efeitos pirotécnicos: espetáculos de força que mudam ruas por alguns dias e não transformam as ordens subjacentes que sustentam o crime.

Primeira: investigar de forma independente e transparente. Todas as denúncias de execução sumária, tortura ou tratamento degradante precisam ser apuradas por instâncias autônomas — seja o Ministério Público, seja a Defensoria Pública, seja organismos internacionais de direitos humanos, quando necessário. Se o Estado não cumpre esse papel, perde legitimidade para falar em “combate ao crime”. (Várias organizações e partidos já protocolaram representações e pedidos de investigação.)

Segunda: revisitar a estratégia de segurança. Megaoperações com milhares de agentes e emprego maciço de força letal repetem um padrão que, historicamente, não erradica o crime; apenas o empurra, o fragmenta e muitas vezes aumenta a letalidade em periferias. Investimento em inteligência, operações cirúrgicas com respeito estrito aos direitos humanos, e políticas de redução de danos associadas a forte presença social — saúde, educação, ocupação do espaço público — são medidas cujo custo político e financeiro é grande, mas cujo retorno em estabilidade social é superior a confrontos periódicos com alta mortalidade.

Terceira: combater as causas estruturais e os financiadores. Não se trata apenas de prender ou matar executores — trata-se de investigar e interromper o fluxo de armas, dinheiro e proteção que permite a reprodução do crime. Isso exige articulação entre esferas federais e estaduais, controle sobre fronteiras e portos, e ações econômicas que reduzam a dependência de renda ilícita em comunidades vulneráveis. Sem atacar o financiamento e a cadeia logística, continuaremos a assistir ao mesmo ciclo.

Por fim, precisamos recuperar a noção de Estado de Direito como limite ético da ação pública. Justiça não é sinônimo de matança; segurança não pode ser confundida com necropolítica. A normalização de operações que produzem centenas de mortos — e que chegam a ser justificadas com categorias como “narcoterrorista” — abre precedentes perigosos para a erosão de garantias civis fundamentais. Se a resposta do Estado à criminalidade é ampliar a letalidade e neutralizar corpos, não teremos, ao final, um quadro mais seguro — teremos apenas uma dolorosa sucessão de tragédias que aprofundam desigualdades e alimentam ciclos de violência.

A operação de 28 de outubro escancarou algo que muitos já sabiam, mas poucos quiseram enfrentar de forma integrada: a violência estatal e a violência do crime organizado são faces de um mesmo processo que corrói o tecido social. Exigir apuração rigorosa, políticas sociais robustas e uma estratégia de segurança que prime por investigação, responsabilização e prevenção não é contrapor-se à polícia — é exigir que a polícia cumpra a lei e que o Estado recupere a sua função civilizatória. Só assim será possível romper o círculo vicioso da matança e construir uma segurança que proteja, em vez de exterminar, a cidadania.

Matéria por Giovanna Souza

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