A descoberta do acervo pessoal do coronel Cyro Etchegoyen, ex-integrante do Centro de Informações do Exército, abriu uma nova frente sobre os crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil. O conjunto reúne cerca de 3 mil páginas distribuídas em 23 pastas e contradiz a versão sustentada durante anos de que parte dos arquivos da repressão havia sido destruída.
Os documentos apontam a existência de registros mantidos fora do controle público e trazem informações sobre operações de inteligência, perseguição política, monitoramento de lideranças, violência sexual, tortura, assassinatos e apropriação de bens de opositores. O material também reforça a participação de agentes do Estado em centros clandestinos de repressão, como a Casa da Morte, em Petrópolis.
Entre as revelações mais graves está a cooperação de serviços britânicos na formação de militares brasileiros. Relatórios indicam que oficiais passaram por treinamentos no Reino Unido entre 1970 e 1971, período em que receberam orientações sobre interrogatórios e uso de locais isolados em ações de repressão.
O arquivo também cita o estupro de uma civil identificada como Marilene, em 1969, durante uma operação do CIE no Rio de Janeiro. O caso não aparecia nos registros da Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para investigar violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988.
A documentação amplia a cobrança por responsabilização de agentes públicos envolvidos em crimes de lesa-humanidade. Juristas e pesquisadores defendem que tortura, desaparecimento forçado e violência sexual não podem ser tratados como crimes comuns nem protegidos por interpretações amplas da Lei da Anistia.
O material ainda identifica 73 militares ligados à inteligência e à repressão direta, parte deles sem menção anterior em levantamentos públicos. A nova lista pode reabrir investigações, fortalecer ações de memória e pressionar o Estado brasileiro a reconhecer responsabilidades ainda não esclarecidas.
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