A força da ComCausa na agenda climática: do Prêmio Periferia Viva à campanha Cidades Sem Risco em Tinguá

Chuvas de Xerem - Arquivo ComCausa

A trajetória recente da ComCausa Defesa da Vida mostra como uma organização nascida da defesa dos direitos humanos pode se tornar uma voz importante também na agenda da justiça climática. Ao unir comunicação popular, memória social, atuação territorial e articulação institucional, a ComCausa vem ampliando sua presença em debates nacionais sobre periferias, prevenção de desastres e proteção de comunidades vulneráveis.

Essa força aparece em diferentes momentos: no reconhecimento recebido com o Prêmio Periferia Viva, na participação na campanha nacional Cidades Sem Risco, na ação realizada em Tinguá, na interlocução com instituições públicas e na defesa de uma ideia simples, mas profundamente política: nenhuma tragédia climática deve ser naturalizada quando poderia ter sido evitada.

A ComCausa tem sua atuação marcada pela defesa da vida. Essa expressão não é apenas parte de sua identidade institucional; é uma orientação prática. Defender a vida significa agir diante da violência, da exclusão, do abandono público, do racismo, da intolerância, da desigualdade urbana e também dos desastres climáticos que atingem com mais força as populações periféricas.

Nos últimos anos, a emergência climática tornou ainda mais evidente que a pauta ambiental não pode ser separada da pauta social. Quando uma chuva extrema cai sobre uma cidade desigual, ela revela aquilo que já estava presente: falta de saneamento, moradia insegura, rios sem manutenção, encostas vulneráveis, ausência de drenagem, sistemas de alerta insuficientes e comunidades sem proteção adequada.

A ComCausa entendeu essa relação e passou a tratar a justiça climática como parte da luta por direitos humanos.

Prêmio Periferia Viva: reconhecimento de uma trajetória

Prêmio Periferia Viva, concedido no âmbito do Ministério das Cidades, reconhece iniciativas que atuam nas periferias brasileiras e contribuem para fortalecer direitos, cidadania, participação social, cultura e transformação territorial. Para a ComCausa, receber esse reconhecimento significou afirmar publicamente a importância de uma atuação construída com base na comunicação, na mobilização e na defesa da vida.

Esse prêmio fortaleceu a legitimidade da organização diante de agendas públicas relacionadas às periferias. Também aproximou a ComCausa de espaços nacionais de diálogo sobre políticas urbanas, participação social e valorização dos territórios populares.

A partir desse reconhecimento, a organização passou a se apresentar não apenas como uma entidade de atuação local, mas como uma experiência que pode dialogar com políticas públicas nacionais. A ComCausa mostra que uma organização da Baixada Fluminense pode produzir metodologia, comunicação, memória, mobilização e incidência capazes de contribuir para debates mais amplos do país.

Essa é uma das dimensões da força da ComCausa: transformar experiência territorial em referência política.

Cidades Sem Risco: a entrada organizada na pauta climática

Em 2026, a ComCausa participou da campanha nacional #AprenderParaPrevenir: Cidades Sem Risco, iniciativa relacionada ao Ministério das Cidades e ao Cemaden Educação. A campanha nacional tem como objetivo mobilizar escolas, comunidades, organizações sociais, educadores e agentes públicos para fortalecer a cultura de prevenção de desastres.

A ação desenvolvida pela ComCausa recebeu o nome “A Chuva Não Mata Sozinha: Memória e Justiça Climática no Rio de Janeiro”. A escolha do título já demonstrava o posicionamento da organização: os desastres não são explicados apenas pela chuva, mas pelas condições sociais e urbanas que tornam determinadas populações mais expostas.

A proposta da ComCausa trabalhou a memória das tragédias climáticas no Rio de Janeiro, incluindo enchentes, alagamentos, inundações, deslizamentos e episódios de grande impacto social. O material da campanha destacou uma linha histórica que passa por tragédias desde a década de 1980, chegando a eventos recentes em Nova Iguaçu e Tinguá.

Essa abordagem é importante porque a memória é uma ferramenta de prevenção. Lembrar não é apenas homenagear vítimas. Lembrar é perguntar por que aconteceu, quem foi atingido, o que poderia ter sido feito, quais políticas falharam e o que precisa mudar para que não se repita.

Para a ComCausa, memória é também denúncia. É dizer que os mortos das enchentes, dos deslizamentos e dos soterramentos não podem ser tratados como números esquecidos após o fim da cobertura jornalística. São pessoas, famílias, histórias, comunidades e territórios marcados por perdas muitas vezes evitáveis.

Tinguá: território, escuta e prevenção

A campanha ganhou materialidade em Tinguá, distrito de Nova Iguaçu. A escolha do território reforçou o compromisso da ComCausa com a Baixada Fluminense e com áreas que vivem os efeitos da crise climática de forma direta.

Tinguá possui importância ambiental e comunitária. É um território associado à natureza, à água, à memória local e à presença de comunidades que precisam ser ouvidas nas políticas públicas. Ao mesmo tempo, está inserido em uma região marcada por desafios urbanos e ambientais, como chuvas intensas, alagamentos, dificuldades de infraestrutura e vulnerabilidades sociais.

A ComCausa propôs uma ação que não fosse apenas informativa, mas participativa. O Mapa Falado dos Riscos de Tinguá foi pensado como metodologia de escuta comunitária. A proposta era ouvir moradores sobre os pontos críticos do território: onde alaga primeiro, onde a água sobe mais rápido, quais ruas ficam bloqueadas, onde há risco de barreira, quais famílias precisam de apoio, quais locais poderiam servir de referência em caso de emergência.

Essa metodologia revela uma compreensão sofisticada da prevenção. O conhecimento técnico é fundamental, mas o conhecimento dos moradores também é. Quem vive no território conhece sinais, rotinas, perigos e caminhos que muitas vezes não aparecem nos mapas oficiais. Ao valorizar essa escuta, a ComCausa fortalece uma prevenção mais democrática, participativa e conectada à realidade local.

A campanha também previu materiais de comunicação, como cartilha eletrônica, cards, vídeos, matérias jornalísticas, publicações em redes sociais e mensagens para circulação comunitária. Essa escolha demonstra outro ponto forte da organização: a capacidade de traduzir temas complexos em comunicação acessível.

Interlocução com Cemaden e instituições públicas

Após a campanha realizada em 2026, a ComCausa passou a fortalecer uma interlocução com a agenda do Cemaden, do Cemaden Educação, do Ministério das Cidades e da Secretaria Nacional de Periferias. Essa aproximação é estratégica porque permite conectar a experiência territorial da organização com políticas públicas, dados técnicos, metodologias de prevenção e programas nacionais.

O diálogo com o Cemaden é especialmente importante. O centro representa a ciência, o monitoramento e o alerta. A ComCausa representa a comunicação comunitária, a escuta territorial, a memória e a mobilização social. A união desses campos pode produzir ações mais eficazes, porque um alerta só se transforma em proteção quando a população entende, confia e sabe como agir.

A interlocução buscada pela ComCausa pode contribuir para formações, campanhas educativas, materiais populares, ações em escolas, rodas de conversa, construção de mapas comunitários de risco e fortalecimento de redes locais de prevenção.

A ComCausa também pode contribuir com uma perspectiva essencial: a de que a prevenção de desastres precisa estar associada aos direitos humanos. Não se trata apenas de prever chuva. Trata-se de garantir que as pessoas tenham direito à informação, à moradia segura, à infraestrutura, à assistência, à memória, à participação e à não repetição.

A Secretaria Nacional de Periferias e a agenda comum

A atuação da ComCausa encontra convergência com a Secretaria Nacional de Periferias, do Ministério das Cidades. A estratégia Periferia Sem Risco reconhece que as periferias brasileiras enfrentam riscos relacionados a deslizamentos e inundações e que esses riscos precisam ser enfrentados com infraestrutura, planejamento, comunicação e participação social.

Essa combinação é fundamental. Uma política de prevenção não pode ser construída apenas com obras, nem apenas com campanhas. Ela precisa integrar contenção de encostas, drenagem, saneamento, habitação, mapeamento, planos municipais, planos comunitários, educação, comunicação, participação popular e fiscalização.

A ComCausa atua justamente na dimensão da participação e da comunicação. Sua força está em ajudar a transformar políticas públicas em linguagem territorial e demandas comunitárias em incidência pública. A organização pode ser ponte entre o poder público e os territórios, entre o dado técnico e a vivência popular, entre a memória da tragédia e a construção de novas políticas.

A força da ComCausa

Falar da força da ComCausa é falar de uma organização que não espera a tragédia para se posicionar. É falar de uma entidade que reconhece a dor das comunidades, mas também sua potência. É falar de uma experiência que transforma memória em ação, comunicação em mobilização e direitos humanos em presença concreta nos territórios.

A ComCausa carrega a força de quem atua na Baixada Fluminense, um território muitas vezes invisibilizado pelas grandes políticas e lembrado apenas em momentos de crise. Ao colocar Tinguá na campanha Cidades Sem Risco, a organização afirma que a Baixada tem voz, memória, história e propostas.

A força da ComCausa também está em sua capacidade de dialogar com instituições sem perder o vínculo comunitário. Ao buscar interlocução com o Cemaden e com o Ministério das Cidades, a organização amplia sua incidência, mas mantém sua base: a defesa da vida nos territórios.

Essa força é política, social, comunicacional e humana. Política porque cobra responsabilidade pública. Social porque nasce da relação com comunidades. Comunicacional porque transforma temas difíceis em linguagem acessível. Humana porque coloca as vítimas, as famílias e os moradores no centro do debate.

Em tempos de crise climática, essa força é indispensável.

A ComCausa demonstra que justiça climática não se faz apenas com dados, nem apenas com discursos. Faz-se com memória, escuta, território, ciência, participação e coragem de afirmar que nenhuma vida periférica pode ser tratada como perda inevitável.

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