Na manhã desta segunda-feira (21), Dom Tarcísio Nascentes dos Santos, Bispo da Diocese de Duque de Caxias, recebeu em sua sede membros da ComCausa para discutir a possibilidade de uma parceria estratégica no âmbito do Projeto ComuniSaúde.
O diálogo entre a ComCausa e a Diocese teve como objetivo principal estabelecer uma colaboração técnica para ampliar a abrangência e a eficiência do ComuniSaúde, uma iniciativa que integra o Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro. O foco do projeto é promover o acesso à saúde em comunidades vulneráveis, com a participação de importantes instituições acadêmicas e de pesquisa, como a Fiocruz, o Instituto Fernandes Figueira (IFF), a UFRJ, a UERJ e a PUC-RJ.
Entre as ações centrais do projeto estão o mapeamento da rede de saúde em seis municípios da Baixada Fluminense — Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis e Mesquita — e o desenvolvimento de uma plataforma digital acessível (ComuniSaude.org.br). Essa plataforma oferecerá informações detalhadas sobre unidades de saúde, serviços disponíveis e canais de orientação digital e telefônica, administrados pela equipe do ComuniSaúde da ComCausa, com o objetivo de facilitar o acesso das comunidades aos serviços de saúde.
Durante a reunião, Dom Tarcísio foi apresentado à importância de uma participação ativa da Diocese para ampliar o alcance do projeto. Com o apoio da Igreja, a ComCausa pretende articular ações em parceria com comunidades e lideranças religiosas, criando uma ponte de informação e suporte para populações em situação de maior vulnerabilidade.
Dom Tarcísio demonstrou receptividade à iniciativa e informou que analisará a proposta formal de parceria entre a ComCausa e a Diocese de Duque de Caxias.
O desafio da tuberculose na Baixada Fluminense
Outro ponto abordado durante o encontro foi a alta incidência de tuberculose na Baixada Fluminense, uma das regiões mais afetadas do estado do Rio de Janeiro. Segundo dados do Ministério da Saúde, municípios como Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo apresentam algumas das maiores taxas de incidência do país, com aproximadamente 60 casos por 100 mil habitantes.
Dados de 2021 da Secretaria Estadual de Saúde (SES) registraram 16.099 casos e 867 óbitos por tuberculose no estado do Rio de Janeiro, sendo que 86% dos casos estavam concentrados em 16 municípios, dos quais 10 pertencem à Baixada Fluminense: Belford Roxo, Duque de Caxias, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti. Em 2023, o estado apresentou a terceira maior incidência de tuberculose no Brasil, com 70,7 casos por 100 mil habitantes, e a segunda maior taxa de mortalidade, com 4,7 óbitos por 100 mil habitantes. Nesse mesmo ano, a Região Metropolitana I, que inclui a Baixada Fluminense, concentrou 75,7% dos casos de tuberculose registrados no estado, abrangendo 60,6% da população fluminense.
“A vulnerabilidade socioeconômica, aliada à dificuldade de acesso ao sistema de saúde e à precariedade da infraestrutura em muitas comunidades, agrava a situação”, destacou Adriano Dias, representante da ComCausa. Ele também mencionou que o medo e o preconceito levam muitas pessoas a evitarem o diagnóstico, tornando-se vetores da doença.
Articulação em rede para enfrentar tuberculose e HIV/aids
Ao reafirmar que a Baixada Fluminense e as favelas do Rio de Janeiro são territórios prioritários para prevenção, diagnóstico oportuno e continuidade do cuidado, a ComCausa – Defesa da Vida tem tratado tuberculose (TB) e HIV/aids como frentes que caminham juntas porque, no território, esses agravos se concentram exatamente onde se acumulam barreiras de acesso, estigma, desinformação, pobreza, instabilidade de renda e vulnerabilidades sociais. No caso do HIV/aids, o Boletim Epidemiológico estadual registra que a taxa de detecção de aids no Estado do Rio de Janeiro voltou ao patamar de 24,3 casos por 100 mil habitantes em 2023, após queda em 2020 e recuperação nos anos seguintes. Mais do que o número, o território chama atenção pela concentração metropolitana: o mesmo boletim aponta que a Região de Saúde Metropolitana I ainda responde por parcela majoritária dos casos e apresenta taxas superiores às do próprio estado em todos os anos analisados, o que ajuda a explicar por que ações comunitárias precisam ser desenhadas com recorte territorial e com “pontes” de confiança.
Na tuberculose, a urgência é igualmente concreta: o Ministério da Saúde indica que o Rio de Janeiro está entre os estados com maiores coeficientes de incidência, com 75,3 casos por 100 mil habitantes (dado preliminar mais recente apresentado no boletim) e aparece também entre os estados com maiores coeficientes de mortalidade por TB, com 4,6 óbitos por 100 mil habitantes em 2023. Quando o olhar recai sobre situações de vulnerabilidade extrema, o alerta fica ainda mais evidente: a SES-RJ registrou 1.939 casos de TB em pessoas em situação de rua entre 2016 e 2019, destacando que os maiores números se concentraram na Região Metropolitana I — exatamente onde estão municípios estratégicos da Baixada (Belford Roxo, Duque de Caxias, Japeri, Nova Iguaçu, São João de Meriti, entre outros). E, ao incluir hepatites virais no mesmo eixo de resposta territorial, o recorte regional também se sustenta: em 2023, a taxa de detecção de hepatite C no Brasil foi de 7,6/100 mil, enquanto o Sudeste registrou 9,3/100 mil; além disso, a maior proporção de casos por marcadores e de casos com anti-HCV e HCV-RNA reagentes se concentrou no Sudeste (51,7% e 56,6%, respectivamente).
É diante desse cenário — de alta carga, concentração metropolitana e barreiras atravessadas por estigma — que a ComCausa – Defesa da Vida, em diálogo com Dom Gilson Andrade da Silva no CENFOR (Moquetá), apresentou a necessidade de ampliar uma rede de capilaridade e confiança para reduzir estigma, orientar rotas de acesso e sustentar adesão. A ComCausa informou ao bispo que está buscando fortalecer apoio direto das pastorais com presença cotidiana no território — em especial a Pastoral da Juventude, pela capacidade de mobilização de adolescentes e jovens (onde informação qualificada e linguagem antiestigma mudam o tempo do diagnóstico); e a Pastoral Carcerária, pela conexão com pessoas privadas de liberdade, famílias e redes de cuidado (onde a descontinuidade tende a ser maior e as rotas de acesso precisam ser ainda mais bem orientadas). A aposta é transformar essas redes em pontes práticas para circulação de materiais de utilidade pública, formação de multiplicadores e devolutivas comunitárias — conectando território, SUS, assistência social e direito à saúde com salvaguardas rigorosas de sigilo e não exposição.
Apoio da Cruz Vermelha
O encontro também ressaltou a colaboração com a Cruz Vermelha de Nova Iguaçu, que disponibilizará espaço para encontros mensais denominados “Café no Pronto ComuniSaúde Cruz Vermelha”. Esses encontros reunirão movimentos sociais e gestores para debater avanços e desafios do projeto. Além disso, a Cruz Vermelha fornecerá suporte logístico para ações como o ComuniSaúde na Rua, que levará serviços de saúde diretamente às comunidades.
Ao final do encontro, ficou acordado que a Diocese analisará a proposta formal de parceria e alinhará os detalhes necessários para sua implementação. A expectativa é que essa colaboração represente um importante avanço na garantia do acesso à saúde para as comunidades mais vulneráveis da Baixada Fluminense.
ComuniSaúde e o impacto nas favelas
O ComuniSaúde visa melhorar o acesso ao atendimento básico, promover saúde mental e fortalecer as redes comunitárias nas favelas da Baixada Fluminense. O projeto será implementado nas principais favelas de Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis e Mesquita, em colaboração com secretarias municipais de saúde e instituições locais. O envolvimento dos moradores será crucial para mapear as necessidades e garantir que a campanha atinja todos de forma inclusiva.
O lançamento da plataforma digital ComuniSaude.org.br também será parte importante do projeto, fornecendo informações detalhadas sobre os serviços de saúde disponíveis. A ComCausa também disponibilizará um número de telefone com aplicativos de mensagens para fornecer suporte durante a campanha, garantindo que a população tenha fácil acesso a orientações sobre os serviços de saúde.
Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro
Desde 2021, mais de R$ 22 milhões foram investidos em projetos de saúde nas favelas cariocas, com apoio da Lei Nº 8.972/20 e do Fundo Especial da ALERJ. Instituições renomadas como a Fiocruz , IFF, UENF, UFRJ, UERJ, PUCRJ, SBPC, Alerj e Abrasco fazem parte do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, com o objetivo de garantir que os serviços de saúde alcancem as áreas mais necessitadas.

Veja também:
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________

Compartilhe: