O episódio em que a deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL-SP) apareceu na Alesp com o rosto pintado em uma prática identificada como blackface, durante um ataque político a Erika Hilton, não pode ser tratado como mera “provocação”, “exagero” ou “encenação”. Segundo a cobertura jornalística, o ato ocorreu em 18 de março de 2026, na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo, e gerou reação de parlamentares da oposição, além da expectativa de análise no Conselho de Ética.
Para compreender a gravidade do caso, é preciso ir além do fato imediato e situá-lo historicamente. O blackface tem origem nos minstrel shows do século XIX, forma de entretenimento popular nos Estados Unidos e no Reino Unido em que artistas brancos pintavam o rosto de preto para caricaturar pessoas negras, associando-as à ignorância, à comicidade e à inferioridade. A Encyclopaedia Britannica descreve essa tradição como um espetáculo em que rostos pintados e performances estereotipadas ridicularizavam pessoas escravizadas; já o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana dos EUA destaca que essa prática ajudou a transformar a paródia racial em diversão familiar e em linguagem cultural de massa.
Do ponto de vista histórico, o blackface não foi um simples recurso cênico: ele funcionou como uma tecnologia cultural do racismo. Ao representar pessoas negras como grotescas, hipersexualizadas, infantis ou incapazes, o blackface ajudou a naturalizar a ideia de que negros ocupavam um lugar social inferior. Em outras palavras, ele serviu para justificar desigualdades e violências que já existiam no mundo escravista e pós-escravista. É por isso que, ainda hoje, sua repetição pública carrega um peso político que não desaparece com a alegação de ironia ou desconhecimento.
Destacamos que raça não é uma verdade biológica fixa, mas uma construção histórica e social usada para classificar, hierarquizar e distribuir poder. O blackface opera exatamente nesse nível: ele transforma traços raciais em fantasia, máscara e caricatura. Não se trata apenas de “pintar o rosto”, mas de reencenar um gesto historicamente ligado à desumanização. Quando uma pessoa branca ou socialmente situada fora da experiência negra assume essa máscara, ela não “vira negra”; ela reproduz uma imagem fabricada sobre a negritude, quase sempre marcada por estereótipos e desprezo. A violência está justamente em substituir sujeitos reais por uma figura racista inventada para entretenimento, humilhação ou ataque político.
Esse tipo de episódio mostra que o racismo não é apenas um preconceito individual, mas uma prática enraizada em estruturas sociais e institucionais. O blackface é uma forma de violência simbólica: ele agride sem necessariamente tocar o corpo, mas atinge a dignidade, a memória histórica e o lugar social de uma população inteira. Ao reaparecer dentro de um parlamento, essa prática se torna ainda mais grave, porque sai do campo do insulto privado e ganha a legitimidade do espaço público. Quando a caricatura racial entra na tribuna de uma casa legislativa, ela comunica que certos corpos ainda podem ser tratados como objetos de deboche, simulação e desrespeito.
O caso também precisa ser lido à luz da realidade brasileira. O Brasil é um país profundamente marcado pela escravidão e por suas continuidades sociais. A permanência do racismo não aparece apenas em discursos ou ofensas, mas nos indicadores de renda, representação, escolaridade e, sobretudo, violência. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mantém o diagnóstico de desigualdades raciais persistentes na violência letal no país, mostrando que a cor da pele continua sendo um fator central na distribuição do risco de morrer. Isso significa que o racismo brasileiro não é apenas memória histórica: ele organiza o presente.
Assim 0 blackface da deputada não é uma excentricidade isolada, mas um sintoma. Ele revela uma sociedade em que ainda há quem considere aceitável mobilizar símbolos do racismo para atacar adversários políticos, especialmente quando o alvo é uma figura pública associada a pautas de direitos humanos, negritude e dissidência de gênero. No episódio da Alesp, a performance foi usada contra Erika Hilton, o que mostra como racismo e outras formas de discriminação podem se articular politicamente em um mesmo gesto de deslegitimação pública.
Também chama atenção o fato de o caso ter ocorrido justamente numa instituição que deveria representar a democracia e o pluralismo. O parlamento não é um palco qualquer: ele é um espaço de formulação de leis, proteção de direitos e mediação de conflitos sociais. Quando uma deputada recorre ao blackface dentro desse ambiente, ela não apenas ofende a população negra; ela degrada o próprio debate público, porque substitui argumento por humilhação racializada. A mensagem transmitida é que a diferença pode ser combatida não com ideias, mas com escárnio histórico.
Por isso, a resposta social a esse tipo de ato não pode se limitar à indignação momentânea. É preciso nomear com clareza: blackface é prática racista, porque nasce de uma tradição de ridicularização de pessoas negras e continua produzindo esse mesmo efeito simbólico e político no presente. O enfrentamento passa por responsabilização institucional, educação histórica, formação antirracista e recusa pública de toda tentativa de normalizar a caricatura racial como instrumento de disputa política.]
O caso da deputada de São Paulo importa não apenas pelo escândalo do dia, mas porque expõe uma verdade mais profunda: o racismo segue operando no Brasil não só pela exclusão econômica e pela violência material, mas também pela encenação pública da inferiorização. O blackface é grave justamente porque condensa história, poder e desprezo em um único gesto. Combatê-lo é afirmar que a democracia não pode conviver com a reciclagem de símbolos produzidos para negar humanidade a uma parte da população.
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________________
______________________
Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

______________________
Compartilhe:

