Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa reúne diferentes crenças e manifestações culturais em Copacabana

19ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa reforça diversidade em Copacabana.

Mobilização ocupou a Avenida Atlântica com mais de 40 caravanas, 26 grupos culturais, representantes de diferentes tradições religiosas, movimentos sociais e organizações de defesa dos direitos humanos

A orla de Copacabana recebeu, no domingo, 20 de setembro, a 19ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, uma das principais mobilizações públicas do país voltadas ao respeito à diversidade de crenças, ao enfrentamento da intolerância e do racismo religioso e à defesa dos direitos humanos.

A programação começou pela manhã e teve concentração no Posto 5 de Copacabana, na Avenida Atlântica. A caminhada seguiu pela orla em direção à região do Posto 2, reunindo participantes do Rio de Janeiro, de outros municípios e também caravanas vindas de outros estados. A mobilização reuniu mais de 40 caravanas e cerca de 26 grupos culturais, entre representações de axé, afoxés, Folias de Reis, blocos afros e outras manifestações culturais e religiosas.

Organizada pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), a caminhada surgiu em 2008, em um contexto de mobilização diante de casos de perseguição e violência contra praticantes de religiões de matriz africana.

O CEAP atua desde 1989 na promoção dos direitos humanos, da cultura negra e no enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa. A CCIR Brasil reúne representantes de diferentes tradições religiosas e instituições comprometidas com a defesa da liberdade religiosa.

Música, cultura e diferentes tradições tomam a orla

Ao longo da Avenida Atlântica, manifestações religiosas dividiram espaço com samba, afoxés, blocos afro e Folias de Reis. Entre as atrações identificadas na programação estiveram as baterias da Unidos de Padre Miguel e da Estação Primeira de Mangueira, além das apresentações dos sambistas Marquinhos de Oswaldo Cruz e Sandro Luiz.

A Unidos de Padre Miguel, tradicional escola de samba da Zona Oeste do Rio de Janeiro, mantém ações culturais e sociais junto à comunidade de Vila Vintém. Seu site institucional pode ser acessado em Unidos de Padre Miguel.

A Estação Primeira de Mangueira, uma das mais tradicionais agremiações do carnaval carioca, também participou da programação. A escola mantém o perfil oficial @mangueira_oficial no Instagram e canais institucionais nas redes sociais.

O cantor e compositor Marquinhos de Oswaldo Cruz, criador de iniciativas culturais como o Trem do Samba e a Feira das Yabás, esteve entre os artistas anunciados. Seu perfil é @marquinhosdeoswaldocruz.

A programação divulgada também anunciou o sambista Sandro Luiz, além de apresentações de Folias de Reis e grupos afro durante o percurso.

Monja de 88 anos veio do Japão para participar

Uma das presenças de destaque da 19ª edição foi a da Monja Oca, de 88 anos, que veio do Japão especialmente para participar da caminhada. Ela liderou uma comitiva formada por aproximadamente 40 integrantes do Budismo Primordial, representando a Catedral Budista de São Paulo e o Templo Budista de Itaguaí.

A presença da delegação budista ampliou ainda mais a diversidade religiosa da mobilização, que reuniu expressões de religiões de matriz africana, catolicismo popular, budismo e outras tradições. Terreiros, comunidades religiosas, grupos culturais, movimentos sociais e pessoas sem religião também integraram a ocupação da orla.

ComCausa participa da caminhada

A ComCausa participou institucionalmente da atividade por meio de integrantes de seus projetos Juventudes pela Liberdade Religiosa, Juventudes ComCausa e CAIS ComCausa. As equipes acompanharam a caminhada e desenvolveram ações relacionadas à participação social, acolhimento, comunicação, promoção de direitos e valorização das juventudes. A presença da organização integrou sua agenda de atuação em direitos humanos, diversidade, enfrentamento às discriminações e promoção da cultura de paz.

Liberdade religiosa é direito constitucional

A liberdade de consciência e de crença está entre os direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal de 1988. O artigo 5º garante o livre exercício dos cultos religiosos e estabelece a proteção dos locais de culto e de suas liturgias.

A garantia também compreende o direito de cada pessoa seguir determinada religião, mudar de crença ou não professar nenhuma religião. A legislação brasileira prevê ainda mecanismos de responsabilização diante de práticas discriminatórias.

A Lei nº 7.716/1989 trata dos crimes decorrentes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Já a Lei nº 11.635/2007 instituiu o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado anualmente em 21 de janeiro. Outras normas brasileiras podem ser consultadas diretamente no Portal da Legislação do Governo Federal.

Racismo religioso está no centro do debate

Um dos principais temas relacionados historicamente à caminhada é o enfrentamento ao racismo religioso, especialmente às violências e discriminações que atingem religiões de matriz africana e seus praticantes. O próprio surgimento da caminhada está relacionado à reação de organizações e lideranças diante de casos de perseguição e violência contra essas comunidades.

O debate ultrapassa a garantia individual de professar uma religião. Ele envolve também o direito das comunidades manterem seus espaços, símbolos, tradições, vestimentas, rituais e manifestações culturais sem sofrer violência ou discriminação. Ações de educação, convivência inter-religiosa e ocupação do espaço público ajudam a ampliar o debate e fortalecer uma cultura de respeito às diferenças.

Juventudes pela Liberdade Religiosa

Dentro da participação da ComCausa, a caminhada teve relação direta com o Juventudes pela Liberdade Religiosa, iniciativa voltada à participação dos jovens no enfrentamento à intolerância e na promoção do respeito à diversidade de crenças. O projeto integra as atividades do Juventudes ComCausa, que reúne ações nas áreas de direitos humanos, cultura, comunicação, participação social e cidadania.

A presença das juventudes em mobilizações como a caminhada contribui para aproximar o debate sobre liberdade religiosa de escolas, territórios, comunidades e outros espaços de convivência. Também reafirma que o direito à liberdade religiosa inclui não apenas o direito de professar uma fé, mas também de mudar de religião ou não seguir qualquer religião.

CAIS ComCausa participa da mobilização

O CAIS ComCausa também integrou a participação institucional. O projeto é desenvolvido pela ComCausa em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos — SENAD, com atividades relacionadas a acolhimento, redução de danos, orientação, acesso a direitos e articulação de redes.

A participação na caminhada esteve inserida nas ações de acolhimento, comunicação, direitos humanos e aproximação com movimentos, grupos e organizações sociais.

Uma caminhada construída há quase duas décadas

Realizada desde 2008, a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa se consolidou como espaço de encontro de diferentes crenças e tradições na cidade do Rio de Janeiro. Na edição deste ano, a Avenida Atlântica voltou a reunir terreiros, comunidades religiosas, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, grupos culturais e pessoas de diferentes crenças — ou sem religião — em torno da defesa do direito de cada pessoa viver sua fé e sua identidade com liberdade e respeito.

Com música, samba, ancestralidade, manifestações religiosas e dezenas de caravanas, a 19ª edição transformou novamente Copacabana em espaço público de defesa da diversidade e de enfrentamento à intolerância religiosa.

Matéria por: Julha Almeida

Imagem registrada no local do evento.

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