O documentário Cheiro de Diesel, das diretoras Gizele Martins e Natasha Neri, foi um dos grandes destaques do Festival do Rio 2025, conquistando dois importantes reconhecimentos: o Prêmio Especial do Júri e o de Melhor Longa Documentário – Voto Popular na mostra Première Brasil.
A produção, de linguagem direta e contundente, se debruça sobre os impactos da militarização das favelas cariocas e as feridas abertas por décadas de violência institucional, especialmente durante as operações e intervenções que marcaram a cidade em períodos de megaeventos esportivos.
A voz da favela na tela grande
Moradora do conjunto de favelas da Maré, a comunicadora e jornalista Gizele Martins — vencedora do Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos (2024) — une sua trajetória de militância à experiência de Natasha Neri, documentarista e pesquisadora conhecida por trabalhos como Auto de Resistência. Em Cheiro de Diesel, as diretoras constroem um retrato sensível e combativo das comunidades submetidas ao cotidiano de tanques, helicópteros e sirenes.
O título é uma metáfora poderosa: o cheiro do diesel é o vestígio físico da presença militar, que impregna o ar, as casas e as lembranças — um sinal de que, mesmo após as tropas partirem, o trauma permanece. O filme utiliza depoimentos de moradores, registros de coletivos de comunicação comunitária e arquivos de imprensa para narrar uma história contada de dentro para fora, pela perspectiva de quem vive o cotidiano da ocupação.
Estrutura e narrativa
Com uma estética crua e poética, a câmera se aproxima dos corpos e gestos da vida comum: mães que perderam filhos, crianças que aprendem a conviver com o medo, trabalhadores que adaptam trajetos para escapar de confrontos. A trilha sonora é marcada pelos ruídos reais da guerra urbana — motores, rádios, tiros e helicópteros — compondo uma atmosfera sonora de tensão contínua.
O roteiro evita a espetacularização da violência e aposta em uma narrativa de resistência e memória. O documentário evidencia a ausência de responsabilização estatal por mortes e abusos, mostrando que a militarização não é um episódio isolado, mas parte de uma política contínua que associa pobreza e perigo.
Um mosaico de resistência
Além da denúncia, Cheiro de Diesel valoriza o trabalho de organizações de base, pastorais, coletivos de mães e movimentos de direitos humanos que constroem redes de cuidado e documentação popular. A câmera acompanha a luta por justiça e a criação de alternativas locais de acolhimento e reparação, revelando o poder da solidariedade diante da negligência institucional.
O filme também relaciona a intervenção militar recente com o histórico das UPPs e da “guerra às drogas”, demonstrando como a militarização atravessa gerações de favelados — e como o Estado insiste em tratar o território popular como campo de guerra.
Reconhecimento e impacto
No Festival do Rio 2025, Cheiro de Diesel foi recebido com aplausos de pé e intensos debates sobre segurança pública, racismo estrutural e o papel da comunicação comunitária na defesa de direitos. O público reconheceu a força simbólica e estética da obra, garantindo o prêmio de voto popular, enquanto o júri técnico destacou sua relevância histórica e cinematográfica.
O sucesso no festival marca o início de uma nova trajetória do filme, que deve circular em mostras universitárias, cineclubes e festivais internacionais, consolidando-se como uma das principais produções brasileiras de direitos humanos do período pós-pandemia.
Por que “Cheiro de Diesel”
O título funciona como metáfora sensorial da ocupação permanente: o odor de combustível que fica após operações e patrulhamentos, marcando ruas, casas e afetos. É a lembrança física de armas, blindados e helicópteros, e do medo que atravessa a rotina de quem vive nas áreas ocupadas.
Ficha técnica resumida
- Título: Cheiro de Diesel
- Direção: Gizele Martins e Natasha Neri
- Roteiro: Coletivo de pesquisa e comunicação comunitária
- Produção: Independente, com apoio de redes de direitos humanos
- Exibição: Première Brasil – Festival do Rio 2025
- Prêmios: Prêmio Especial do Júri / Melhor Longa Documentário – Voto Popular
Por que o filme importa
Mais do que registrar um momento histórico, Cheiro de Diesel propõe uma reflexão profunda sobre o papel da memória como ferramenta de justiça social. Em um país onde as estatísticas de violência policial e letalidade estatal permanecem alarmantes, o filme reafirma que as favelas têm voz, têm história e têm direito de narrar a si mesmas. A força da obra está em sua capacidade de emocionar e mobilizar — transformando o sofrimento em resistência, e o cinema em espaço de escuta e denúncia.
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