Memória: chuvas em Xerém de 2013

No início de janeiro de 2013, Xerém — distrito de Duque de Caxias, em uma faixa de transição entre planícies da Baixada e áreas de serra — atravessou uma madrugada em que a água deixou de ser fenômeno meteorológico e passou a ser força de destruição. No fim da tarde do dia 03, as primeiras chuvas já avisavam que o tempo mudava. Mas foi durante a madrugada, com núcleos intensos repetidos em sequência, que a situação saiu do “forte temporal” e entrou no campo do desastre: ruas viraram corredeiras, o nível de rios e córregos subiu com rapidez, casas foram tomadas, pontes e passagens cederam e sub-bairros inteiros ficaram isolados.

A imprensa registrou, desde as primeiras horas, o transbordamento do Rio Capivari e o alagamento de diversas ruas, com moradores deixando as casas às pressas. Em paralelo, relatos de campo descreviam a cena típica de uma enxurrada: água grossa, detritos, lama, móveis empilhados e o “depois” chegando antes mesmo do amanhecer — porque, em enchente rápida, não há tempo para organizar a fuga; há apenas tempo para sobreviver.

ComCausa em campo: acompanhamento, escuta e registro

Naqueles dias, a ComCausa – Defesa da Vida atuou em Xerém em chave de missão: registrar o que havia acontecido, mapear danos, compreender a dimensão humana do desastre e acompanhar, com método, como o apoio estava chegando — e onde não estava. Conforme memória institucional da organização, a ComCausa – Defesa da Vida foi acionada pelo Governo Federal, por meio da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, para acompanhar o apoio no território, e integrava uma força-tarefa estruturada após as chuvas de 2011 na Região Serrana, criada justamente para acumular experiência, qualificar respostas e fortalecer a perspectiva de direitos em cenários de calamidade.

A ida ao território, no dia 05, não se resumiu a “visitar a tragédia”. A ComCausa priorizou tarefas objetivas e verificáveis: (1) registrar a extensão dos danos; (2) buscar informações sobre óbitos e desaparecidos além do que circulava publicamente; (3) mapear estruturas de apoio do poder público e da sociedade; (4) avaliar abrigos; (5) construir contato com instituições e pessoas-chave; (6) observar riscos de saúde pública; e (7) levantar caminhos de orientação sobre documentos e reparação. Era um trabalho de escuta e evidência — porque, em desastre, o que não é registrado tende a não existir na hora da reparação.

A operação pública: muita presença, acesso difícil e um território ainda fechado por risco

Nos primeiros dias, o aparato de resposta cresceu rapidamente. Reportagens apontaram mobilização de equipes, maquinário e serviços essenciais, ao mesmo tempo em que trechos e áreas mais atingidas permaneceram de acesso difícil, tanto por destruição de passagens quanto por risco e operação de limpeza e busca. O que se via era o padrão de calamidade: trânsito travado, deslocamentos lentos e, em alguns pontos, a sensação de que o território estava “fechado” não por decreto, mas pela própria realidade física do desastre.

Também pesava o contexto urbano e administrativo: quando a rotina de serviços já vinha fragilizada, a emergência se torna mais pesada e mais cara. E, em enxurrada, fatores como lixo acumulado e drenagem precária não são detalhe: eles viram obstáculo, represam água, desviam fluxo, ampliam transbordamentos — e aumentam o dano. Um especialista ouvido à época foi direto ao apontar a ocupação de margens de rios e a previsibilidade das áreas de inundação, descrevendo Xerém como uma “tragédia anunciada” na combinação entre geologia, inclinação e chuva intensa.

Números em atualização: mortos, desaparecidos e a escala real dos “afetados”

Em desastres, os números mudam porque a realidade se atualiza a cada busca, a cada cadastro, a cada corpo encontrado, a cada família acolhida em casa de parentes. No dia 03, uma reportagem registrou que a Defesa Civil confirmava uma morte e a prefeitura informava oito desaparecidos, com relatos de moradores indicando mais pessoas sumidas. Nos dias seguintes, balanços indicaram milhares de pessoas fora de casa no estado, com forte concentração de desabrigados e desalojados em Duque de Caxias; e, em Xerém, os números de abrigamento também cresceram conforme os cadastros avançavam.

Uma matéria apontou, por exemplo, aumento de desabrigados em Xerém e crescimento de registros de casas destruídas e danificadas em Duque de Caxias — dados típicos de um cenário em que a contagem real aparece depois do choque inicial.

O mapa do impacto: bairros, sub-bairros e a geografia do dano

Na leitura de campo construída pela ComCausa – Defesa da Vida, os pontos mais afetados se distribuíram por áreas como Café Torrado e arredores, Vila Verde (Av. Venâncio), Mantiqueira e áreas próximas à praça de Xerém e Pedreira, além de Igreja Velha, na entrada do distrito, com alagamentos e danos estruturais menores. O que emergiu desse mapeamento foi a geografia típica da enxurrada: onde o terreno baixa, onde o rio “reivindica” seu espaço e onde pontes e travessias viram gargalos, o impacto se multiplica.

E havia um componente emocional e material que os relatórios técnicos raramente capturam com a mesma força: gente voltando para dentro de casa interditada para salvar o que dava, tentando resgatar móveis, roupas e documentos — porque, para quem perdeu tudo, cada objeto salvo é um pedaço de futuro.

Abrigos e solidariedade: quando a rede comunitária sustentou o primeiro socorro

A cena de Xerém também confirmou um padrão recorrente nas tragédias climáticas: a primeira infraestrutura que funciona é a social. Casas foram abertas para vizinhos, instituições comunitárias viraram abrigo, doações circularam por redes informais e voluntários preencheram lacunas inevitáveis de um desastre súbito.

Na memória de campo da ComCausa – Defesa da Vida, sete abrigos foram organizados em Xerém, muitos em igrejas. Dois foram visitados: o da Igreja Metodista Wesleyana e o da Igreja Batista, próximo ao Café Queimado. As condições eram limitadas — como quase sempre são — mas, diante da urgência, eram o que havia: teto, acolhimento, alguma organização e a tentativa de garantir proteção mínima.

Saúde pública após a água: o “segundo desastre” que chega depois da enchente

Quando a água baixa, o risco não desaparece; ele muda de forma. Lama e esgoto elevam risco de leptospirose, hepatites e diarreias; a interrupção de abastecimento e energia empurra famílias para improvisos; e o medo, a perda e o deslocamento fragilizam ainda mais quem já estava no limite. Naquele contexto, medidas preventivas e assistência básica foram essenciais: vacinação, distribuição de insumos de higiene e protocolos de vigilância para impedir surtos. Era a resposta tentando correr contra o tempo, porque, em tragédia climática, a fase “pós” também mata — só que de modo silencioso.

A estrada das tragédias climáticas no Rio: Angra 2010, Região Serrana 2011, Xerém 2013 — e o aviso que não parou de crescer

Xerém não aconteceu no vazio. O estado do Rio já vinha de um ciclo duro de desastres. Em Angra dos Reis, no réveillon de 2010, deslizamentos deixaram 30 mortos, com parte das vítimas na Ilha Grande e outras no continente. Em janeiro de 2011, a Região Serrana viveu uma tragédia de escala nacional, com 918 mortes segundo dados oficiais lembrados dez anos depois pela Agência Brasil.

A sequência formou um corredor de calamidades que expôs, repetidas vezes, a mesma engrenagem: chuva extrema + relevo + ocupação vulnerável + drenagem insuficiente + ausência de prevenção contínua. Xerém foi parte desse desenho — e, por isso, foi também parte de uma memória coletiva que passou a exigir força-tarefa, protocolo e acompanhamento com perspectiva de direitos, como fez a ComCausa.

Mudanças climáticas: o pano de fundo que transformou “temporal” em risco permanente

Ao registrar Xerém em memória, era impossível ignorar o que o mundo já sinalizava e o que, nos anos seguintes, se tornaria ainda mais evidente: as mudanças climáticas intensificaram o ciclo da água, elevando a probabilidade de episódios de chuva extrema e enchentes em muitas regiões. O IPCC apontou de forma clara que o aquecimento global intensifica o ciclo hidrológico, trazendo chuvas mais intensas e risco associado de inundação. E, no detalhamento técnico, o próprio IPCC reforçou que eventos de precipitação intensa tendem a se tornar mais frequentes e mais intensos com o aumento do aquecimento.

No Brasil, materiais do Cemaden também relacionaram a escalada de extremos e desastres geo-hidrológicos a um quadro mais amplo de risco e vulnerabilidade, reforçando que o país passou a conviver com um cenário em que “chuvas rápidas e intensas” e seus impactos deixaram de ser exceção.

E o que veio depois confirmou o aviso: em Petrópolis, 2022, volumes excepcionais em poucas horas desencadearam deslizamentos e inundações em escala devastadora — uma tragédia amplamente documentada e analisada pela literatura técnica e pela imprensa.

Em memória: Xerém como aprendizado, luto e obrigação de futuro

Xerém, em janeiro de 2013, ficou como marca porque reuniu, em poucas horas, tudo o que uma tragédia climática revela: a vulnerabilidade exposta, a corrida do poder público para responder, a força da solidariedade comunitária e a necessidade de acompanhamento sério, com método, escuta e registro.

Na memória da ComCausa – Defesa da Vida, o que se buscou ali foi exatamente isso: acompanhar o apoio, construir evidência, fortalecer vínculos locais e tratar a emergência como tema de direitos — porque, quando a lama seca, começam outras disputas: quem será reconhecido como atingido, quem terá acesso a documentos, quem receberá apoio, quem conseguirá recomeçar.

E havia, por trás de tudo, a mensagem mais dura: o desastre não era apenas “daquela madrugada”. Ele era parte de um tempo histórico em que a crise climática ampliava extremos e pressionava territórios que já carregavam desigualdade, ocupação vulnerável e infraestrutura insuficiente. Xerém não foi só um episódio. Foi um aviso — e, como tantos avisos, cobrou da sociedade e do Estado aquilo que tragédias climáticas sempre cobram: prevenção contínua, adaptação real e resposta com dignidade.

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