Entregadores e motoristas de aplicativo denunciaram que criminosos passaram a impedir a circulação desses profissionais em comunidades da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Trabalhadores afirmam ter sido ameaçados, abordados por homens armados com fuzis e obrigados a deixar áreas como o Complexo de Senador Camará. A denúncia é que o tráfico estaria restringindo a entrada de carros e motos de aplicativo para favorecer mototáxis locais, o que amplia o medo, provoca prejuízo financeiro e afeta também moradores que dependem desse serviço.
Motoristas dizem que já circulam em grupos de redes sociais avisos para evitar corridas com destino a determinadas comunidades da Zona Oeste por causa do risco de abordagem armada. Um dos relatos exibidos na TV Globo descreve uma interceptação antes mesmo da chegada ao destino, na Rua Olga, em Senador Camará.
Segundo o motorista, homens armados perguntaram se ele trabalhava para plataformas como 99 ou Uber e ordenaram que voltasse. No depoimento ele afirma que os criminosos disseram não querer “ninguém de aplicativo dentro de Camará” e ameaçaram tomar a chave da moto de quem desobedecesse. O grupo, segundo o relato, permitiria apenas a circulação dos “mototáxis deles”.
A denúncia aponta, portanto, para uma forma de controle territorial que interfere diretamente no direito de ir e vir, no exercício do trabalho e no acesso da população a serviços de transporte e entrega.
Restrição afeta trabalhadores e moradores
A consequência prática é imediata. Muitos profissionais passaram a recusar corridas e entregas para essas áreas por medo de violência. Isso reduz a renda de quem trabalha com aplicativo e também dificulta a rotina de moradores, que relatam encontrar resistência de condutores para aceitar chamadas com destino a determinadas regiões.
Problemas semelhantes foram denunciados também em Santa Cruz e na Vila Aliança. Na Chatuba e na Vila Aliança, clientes afirmam enfrentar o mesmo obstáculo: motoristas e entregadores evitam aceitar as viagens por causa da proibição imposta por criminosos.
O resultado é um duplo impacto. De um lado, trabalhadores perdem corridas, entregas e renda. De outro, moradores de regiões já marcadas pela vulnerabilidade ficam ainda mais isolados, com menos acesso a deslocamento e serviços.
Controle armado e ausência de Estado
As denúncias expõem um problema que vai além da segurança pública imediata. Quando grupos armados passam a decidir quem pode entrar, trabalhar ou circular em um território, o que se instala é uma forma concreta de poder paralelo sobre a vida cotidiana.
Nesse cenário, a restrição à circulação de motoristas e entregadores não atinge só a categoria. Ela altera a dinâmica urbana, interfere na mobilidade, encarece o acesso a serviços e reforça a sensação de que o território está submetido a regras impostas pela violência.
Também chama atenção o possível interesse econômico por trás das ameaças. Segundo os relatos, criminosos estariam barrando aplicativos para garantir mercado exclusivo a mototáxis locais. Se confirmada, a prática indicaria não apenas domínio armado do território, mas exploração econômica sobre o transporte informal dentro das comunidades.
O que dizem as instituições
A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia, a Amobitec, informou ao g1 que acompanha com preocupação as restrições impostas a motoristas de aplicativo. A entidade destacou que as plataformas associadas oferecem botões de segurança que permitem o acionamento imediato do número 190 em situações de emergência.
Já a Polícia Militar afirmou, em nota reproduzida pela reportagem, que o policiamento na região ocorre de forma permanente. Segundo a corporação, o planejamento operacional se baseia na análise de dados e no monitoramento das dinâmicas criminais, com foco na prevenção e na garantia da livre circulação.
A PM também reforçou a importância da colaboração da população por meio do Disque Denúncia, no telefone (21) 2253-1177. Em casos de emergência, a orientação é acionar o 190 ou o aplicativo 190 RJ.
A denúncia toca em um ponto central da vida urbana no Rio: o avanço do controle territorial armado sobre serviços básicos e atividades de trabalho. Quando motoristas e entregadores deixam de entrar em determinadas áreas por medo, a cidade passa a funcionar com fronteiras informais impostas pela violência.
Isso tem efeito direto sobre direitos fundamentais. O trabalhador perde renda e segurança. O morador perde acesso. E o poder público é cobrado a responder não apenas com policiamento pontual, mas com presença efetiva do Estado, proteção social e garantia de circulação.
O caso também mostra como a insegurança deixa de ser um problema abstrato e se transforma em barreira concreta ao trabalho. Para quem depende de aplicativo para sobreviver, cada área interditada representa menos corridas, menos entregas e mais risco.
Leia também
Decisão sobre Moïse Kabagambe reacende indignação da comunidade migrante no Brasil
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________________
______________________
Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

______________________
Compartilhe:

