Há casos em que o tempo não cura — apenas alonga a angústia. Para Vânia Pena Vila, mãe de Fábio Pena Vila, o desaparecimento do filho não é um episódio encerrado no passado: é um presente permanente, que se repete em cada manhã sem notícia, em cada ligação que não chega, em cada fim de tarde em que a esperança precisa ser reconstruída do zero. Vânia descreve o desaparecimento como um tipo de suspensão: “Eu não vivo, eu vegeto”, diz, buscando uma imagem capaz de traduzir uma rotina atravessada por espera, medo e ausência.
O relato que ela apresenta é direto, denso e doloroso. Vânia afirma que procurou a polícia desde os primeiros momentos, registrou ocorrência na delegacia de desaparecidos e buscou apoio para que houvesse diligências e buscas na região onde o filho teria sido localizado pela última vez — especialmente a Serra de Petrópolis. Mas, segundo ela, o que encontrou foi um caminho lento, burocrático e, muitas vezes, desumanizado.
A seguir, a história é apresentada em formato de reportagem, com base na narrativa da mãe, reunindo os fatos, a cronologia, as falas e a dimensão humana do que significa atravessar três anos sem resposta.
Quem é Fábio na memória de Vânia: “Meu filho sempre foi muito bom comigo”
Antes de qualquer hipótese, de qualquer suposição ou etiqueta, Vânia volta sempre ao mesmo ponto: o filho — o homem que existia antes do desaparecimento, com hábitos, temperamento e história. Fábio tinha 47 anos quando sumiu. Era, segundo a mãe, um homem “super carinhoso”, dedicado à família, presente no cotidiano da casa, alguém que ajudava, que cuidava, que tinha um jeito próprio de se relacionar com o mundo.
Ela insiste em dizer que ele era filho único — e que isso torna a dor ainda mais concentrada, como se todo o afeto, toda a vida familiar e todos os planos estivessem depositados em uma única pessoa. Ao falar dele, Vânia procura afastar julgamentos automáticos que costumam recair sobre desaparecimentos: a ideia de fuga voluntária, de “vida dupla”, de vícios, de envolvimento com situações ilícitas.
A mãe repete, com firmeza, o que considera essencial:
“Meu filho sempre foi muito bom comigo, sempre me ajudou, meu filho único, nunca teve vício nenhum de cigarro, bebida, jogo.”
Ela reforça que Fábio era um homem com rotina de trabalho e projetos. Estava trabalhando na Claro. Em paralelo, cultivava um objetivo que, segundo ela, era antigo: fazer concursos na área policial. “Sempre fazia concurso para a polícia”, diz. Para Vânia, esse detalhe não aparece como vaidade ou fantasia: aparece como parte de um desenho de vida, de alguém que queria estabilidade, reconhecimento, um lugar “certo” no mundo.
Quando a violência muda a vida: “Depois dos assaltos ele ficou meio nervoso”
A mãe localiza um ponto de inflexão no período anterior ao desaparecimento: os assaltos sofridos pelo filho. Ela relata que ele teria passado por “vários assaltos” e que, depois disso, já não era exatamente o mesmo. O corpo seguia indo ao trabalho; a mente, porém, teria entrado em estado de alerta constante.
“Sempre foi tranquilão… depois dos assaltos, porque ele ficou meio nervoso.”
O que Vânia descreve é uma mudança gradual que, aos olhos de muitas famílias, se torna reconhecível: medo intenso, desconfiança, nervosismo, sensação de ameaça. No relato dela, isso chega a um ponto mais delicado, envolvendo sofrimento psíquico.
“Meu filho já tinha sofrido vários assaltos, trabalhava na UB, estava meio em depressão, em síndrome do pânico. Aí ele estava com mania de perseguição.”
A fala “mania de perseguição” aparece como tentativa de dar nome ao que ela percebeu: uma percepção alterada do ambiente, como se o mundo, de repente, estivesse cheio de sinais ameaçadores. Vânia não apresenta isso como diagnóstico médico — apresenta como vivência familiar, como testemunho de quem estava perto. E é a partir desse contexto que ela interpreta o desaparecimento: não como escolha fria, mas como possível resultado de desorientação.
O fim de semana do desaparecimento: a casa da tia e o almoço no Lins
Vânia reconstrói o início da sequência que terminou no sumiço do filho. Fábio havia ido para a casa de uma tia no sábado e dormido lá. No domingo, por volta de 13h30, ele saiu para almoçar com ela.
“Aí foi na casa da tia dele no sábado, dormiu lá quando foi no domingo, por volta de uma e meia. Saiu para almoçar no restaurante Labardoza, no Lins.”
O que acontece no restaurante, na versão trazida pela mãe, é um episódio de tensão que se encaixa no contexto emocional que ela vinha observando. Ela relata que o filho “sismou” com uma situação — acreditando que estava sendo fotografado — e que isso gerou conflito.
“Chegando lá, ele sismou que uma moça estava tirando foto dele e o esposo da moça arrumou problema com ele, perguntou se ele era polícia.”
A mãe relata também que a tia tentou minimizar o conflito, negando que ele fosse policial, mas que Fábio estava muito nervoso e acabou se recolhendo no carro.
“E a tia falou que sim. Que não. Aí ele estava muito nervoso, entrou dentro do carro da tia dele e ficou.”
A sequência final é curta e devastadora: em algum momento, Fábio sai com o carro da tia. A tia permanece almoçando. Quando ela termina, ele já não está mais lá.
“E dali ele saiu com o carro da tia, a tia ficou almoçando no restaurante. E quando ela saiu, ela não encontrou mais ele.”
Para Vânia, essa é uma das partes mais duras: o desaparecimento não ocorre em um cenário de crime evidente, nem com testemunhas claras, nem com uma cena “definida”. O desaparecimento ocorre na borda do cotidiano — em um almoço, em um estacionamento, em um instante em que as coisas parecem normais e, no minuto seguinte, deixam de ser.
A primeira corrida contra o tempo: “Eu consegui localizar pelo Google o celular dele”
Sem notícias e sem retorno rápido, Vânia e familiares buscam meios próprios de localizar Fábio. Ela descreve o uso do rastreamento pelo Google como uma tentativa desesperada de reduzir o invisível a um ponto no mapa: “Aí eu consegui localizar pelo Google o celular dele. O carro estava na Serra de Petrópolis.”
A informação desloca a narrativa do bairro do Lins para um cenário completamente diferente: estrada, serra, mata, um ambiente que, para qualquer família, acende alertas imediatos. Vânia diz que foi até o local com a tia, o sobrinho e outros parentes: “Aí eu fui lá com a tia dele, meu sobrinho…”
E então aparece a imagem que, para ela, resume o abandono: o carro e os objetos, mas não o filho.
“Chegando lá, só estava o carro, o celular… e os óculos dele. Ele mesmo eu não tive mais notícia.”
Vânia usa uma expressão que revela a desorientação daquele momento: os pertences estavam ali, mas como se o essencial — o corpo, a presença, a vida — tivesse sido retirado do mundo. E, a partir dali, o que era busca vira uma travessia longa.
Boletim de ocorrência e a espera por providências: “Eu fui na delegacia desde o dia do ocorrido”
Vânia afirma que, desde o início, procurou as autoridades. Ela relata que foi à delegacia desde o dia 12, registrou ocorrência e tem o boletim de ocorrência.
“Fui na delegacia desde o dia do ocorrido, dia 12, fui na delegacia de paradeiros, de desaparecidos, dei queixa, registrei e tem o boletim de ocorrência”
O que ela descreve, porém, é um desencontro entre o que o papel promete e o que a vida entrega. O boletim existe, mas a busca não se concretiza no ritmo que ela esperava — especialmente diante de um desaparecimento com possível risco, dado o contexto emocional e o local associado (serra): “…mas nada consegui… os policiais não deram muita importância.”, afimra a mãe. Vânia afirma que tentou mobilizar também o Corpo de Bombeiros para ir ao local, mas diz que não conseguiu.
No relato dela, a sensação é de que a gravidade do caso não foi reconhecida no tempo certo. E, em desaparecimentos, o tempo é elemento central: quanto mais demora, mais o rastro se apaga; quanto mais dias passam, mais difícil reconstruir o que houve.
Que “a polícia é muito devagar”: o que a mãe diz ter ouvido e o sentimento de descaso
Entre as falas mais duras, Vânia descreve uma frase atribuída a um investigador, que teria dito existir casos mais antigos e que “não era a vez” do caso do filho. “O investigador chegou a falar para mim que tinha casos muito mais passados, que não era nem a vez de investigar o caso do meu filho…”
Para ela, isso não é apenas uma frase infeliz. É um retrato de como o desaparecimento pode ser tratado como fila burocrática, e não como urgência humana. Vânia entende que essa postura contribuiu para o prolongamento do sumiço. “…a polícia deu muito pouca importância e nisso meu filho ficou perdido já faz três anos.”, afirma.
Ela reforça que, diante da lentidão, tomou para si o que conseguiu: buscou imprensa, fez reportagem, espalhou fotos, procurou redes de apoio.
“Aí fui na Recobre, reportagem, fiz uma reportagem, espalhei fotos dele… desde esse dia que eu não tenho mais notícia do meu filho, ninguém viu, ninguém sabe…”
A repetição — “ninguém viu, ninguém sabe” — funciona como martelo: a vida dela está presa nessa frase.
A hipótese da mãe: desorientação, perda de memória e um filho “vagando” sem endereço
Sem resposta oficial, Vânia tenta construir sentido com o que tem. E a hipótese que ela repete é a de que o filho tenha se perdido na serra, desorientado, sem conseguir pedir ajuda, talvez com a memória comprometida. “Eu acredito que ele tenha se perdido ali da serra, tenha largado o carro, e se perdeu e ficou sem noção, perdeu a memória…”
A sequência seguinte é uma das mais emblemáticas do relato: “…meu filho está perdido, vagando pelas ruas, sem saber de nada, sem saber o endereço.”
Essa frase revela, de um lado, esperança — a ideia de que ele está vivo em algum lugar — e, de outro, o terror: a ideia de que ele esteja vivo e sofrendo, invisível, sem conseguir voltar para casa. Vânia não fala em “morte” com naturalidade; ela fala em “perda”, em “desaparecimento”, em “paradeiro desconhecido”. E, acima de tudo, fala em fé. “Eu tenho fé em Deus que ele está perdido por aí”, diz.
O Natal como lâmina: “Meu coração está despedaçado”
Ao longo do relato, Vânia cita o Natal como um ponto de maior dor. Não apenas por ser data familiar, mas por representar o retorno anual do vazio — a confirmação de que o tempo passou e nada mudou. Para ela, o desaparecimento não é um evento que ficou para trás. Ele se renova em cada data, em cada lembrança, em cada tentativa de explicar o inexplicável.
“Meu filho sempre foi alegre, feliz, nunca teve problema. Aconteceu isso do nada com ele.”
O “do nada” é o jeito dela dizer que não houve aviso claro, nem despedida, nem explicação. Houve uma ruptura.
Uma mãe que pede: “Se alguém souber, me informe”
A reportagem não termina como um texto informativo comum: ela se transforma, inevitavelmente, em um apelo público. Para Vânia Pena Vila, cada leitura, cada compartilhamento e cada mensagem recebida pode significar a diferença entre permanecer no escuro e recuperar uma pista concreta. É por isso que ela faz questão de repetir, com clareza, que qualquer informação — mesmo a que pareça pequena, confusa ou “sem importância” — pode ser decisiva quando se trata de um desaparecimento prolongado.
Vânia afirma que mantém o mesmo endereço e o mesmo número de telefone justamente para não perder a chance de receber notícias. Ela se identifica, informa onde mora e abre um canal direto com a população, como quem tenta ampliar as buscas para além dos limites formais do boletim de ocorrência e da burocracia que, segundo ela, atrasou providências essenciais no início do caso.
O pedido, na fala da mãe, não tem filtros nem rodeios, porque não há como “amenizar” a urgência de três anos sem resposta. Ela pede que, se alguém souber de qualquer notícia, informe imediatamente — e reforça que o silêncio, para ela, é uma extensão da dor.
“Se alguém souber a notícia, me informe, por favor. Não deixe de me informar, pois é muito importante.”
Ao encerrar, Vânia traduz em uma frase o estado emocional que, segundo ela, se instalou desde o desaparecimento do filho: um cansaço que não é apenas físico, mas existencial, como se a vida tivesse perdido o eixo e se resumisse à espera: “É uma mãe desesperada que não vive, vegeta.”
Cronologia do relato, em ordem de acontecimentos
- Sábado (dezembro de 2022): Fábio dorme na casa da tia.
- Domingo, por volta de 13h30: sai para almoçar com a tia em um restaurante no bairro do Lins, no Rio de Janeiro.
- Ainda no restaurante: Fábio se mostra nervoso, acredita estar sendo fotografado, ocorre tensão com terceiros; ele entra no carro da tia.
- Após o almoço: Fábio sai com o carro da tia e não é mais visto.
- Em seguida: familiares rastreiam o celular “pelo Google”; a localização indica a Serra de Petrópolis.
- Busca familiar no local: Vânia e parentes vão à serra; encontram o carro e pertences (celular e óculos), mas não encontram Fábio.
- Dia 12: Vânia procura a delegacia de desaparecidos, registra ocorrência e afirma não obter buscas no ritmo esperado.
- Três anos depois: segue sem notícias, cobrando respostas e mantendo mobilização pública.
Direitos, buscas e visibilidade: por que casos assim não podem virar rotina
A história narrada por Vânia expõe uma realidade conhecida por famílias de desaparecidos: o risco de o caso se perder no próprio sistema que deveria localizá-lo. Quando uma família relata falta de diligências, falta de busca e falta de prioridade, o desaparecimento deixa de ser apenas ausência — passa a ser também um problema de política pública, de protocolos e de respostas institucionais.
Nesse cenário, a visibilidade deixa de ser detalhe e passa a ser ferramenta de proteção. Manter um caso circulando, insistir na memória pública, reforçar a busca comunitária e sustentar o pedido por diligências são formas concretas de resistência. Em desaparecimentos prolongados, cada compartilhamento pode representar a chance de alguém reconhecer um rosto, lembrar um encontro, relatar um avistamento, indicar um local, cruzar uma informação que estava dispersa.
É por isso que iniciativas de comunicação e mobilização ligadas à Defesa da Vida e à ComCausa se tornam parte da estratégia para manter o caso vivo na esfera pública, ampliando alcance, reforçando redes comunitárias e convocando solidariedade ativa. A visibilidade, nesse contexto, não é exposição: é tentativa de sobrevivência, é a recusa em aceitar que a ausência vire silêncio normalizado.
A partir desta publicação, a Acolher: Desaparecidos informa que vai acompanhar o caso, ampliando a rede de apoio à família, contribuindo com a circulação responsável de informações e reforçando o pedido público por buscas e respostas efetivas.
Serviço: como ajudar
Qualquer informação pode ser decisiva.
Contato da mãe: Vânia Pena Vila — (21) 9919-5832
Foto de capa rede sociais e tratada com IA.
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