Filme inspira debate sobre luto e reconstrução afetiva no XVI Festival de Cinema Francês

Marcia Noleto - Mães em nome - foto Selmy Yassuda

Na próxima quarta-feira, 10 de dezembro, o Rio de Janeiro recebe uma sessão especial que combina cinema, reflexão e escuta sensível. A psicóloga Márcia Noleto, fundadora da C-FEN e do Grupo Mães Sem Nome, participa da exibição do filme “Uma Jornada de Bicicleta” e, após a sessão, integra um debate com o professor de Filosofia Marco Casanova (UERJ). O encontro acontece às 19h, na Estação NET Rio, em Botafogo, dentro da programação do XVI Festival de Cinema Francês do Brasil.

A proposta é simples e ao mesmo tempo profundamente potente: assistir a uma obra que se constrói a partir da dor e, em seguida, abrir espaço para uma conversa pública sobre o que significa atravessar a perda, reorganizar a vida e encontrar algum tipo de continuidade quando o chão parece ter desaparecido. Em tempos em que o sofrimento muitas vezes é empurrado para a esfera do silêncio, a sessão oferece a chance de transformar emoção em linguagem, e linguagem em cuidado coletivo.

Uma travessia que nasce da ausência

O filme “Uma Jornada de Bicicleta” é dirigido e estrelado por Mathias Mlekuz, ao lado de Philippe Rebbot e Josef Mlekuz. O filme conta a história de dois amigos que atravessam a Europa de bicicleta, do Atlântico ao Mar Negro. Mas essa não é apenas uma aventura geográfica. É, sobretudo, uma travessia íntima.

Movido por uma perda que ele não consegue contornar, Mathias convida Philippe para refazer o caminho feito por seu filho Youri. A bicicleta, nesse contexto, deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a operar como gesto simbólico: um modo de retomar uma presença que já não está ali, sem fantasiar sua volta, mas insistindo na possibilidade de seguir respirando com a lembrança.

O roteiro cria um espaço delicado entre o riso e a saudade, entre a ternura e o que ainda dói. O filme não promete cura fácil, tampouco transforma o sofrimento em espetáculo. Ele se concentra em algo mais raro: o nascimento de pequenas forças afetivas que surgem quando a dor encontra companhia real.

Quando o cinema vira espaço de cuidado

A sessão ganha densidade especial com a presença de Márcia Noleto, cuja trajetória é ligada à escuta clínica e à atuação em rede com pessoas e famílias marcadas por perdas profundas. Sua participação oferece uma ponte direta entre o universo do filme e a realidade concreta de quem vive o luto não como evento isolado, mas como experiência que atravessa o cotidiano, o corpo, a memória e a forma de se relacionar com o mundo.

Nesse sentido, o encontro não se limita a comentar uma obra cinematográfica. Ele se propõe a discutir como narrativas artísticas podem ajudar a elaborar emoções que frequentemente não encontram lugar nas conversas públicas. Quando uma história toca a dor de alguém, o que se abre ali não é apenas identificação. É a chance de reconhecer a própria experiência com menos culpa, menos isolamento e mais possibilidade de amparo.

Filosofia e emoção: um diálogo necessário

Ao lado de Márcia Noleto, o professor Marco Casanova (UERJ) deve contribuir para a conversa explorando as camadas existenciais que o filme convoca: o sentido de seguir, a experiência do tempo após a perda, e o modo como a memória não é apenas lembrança, mas também uma forma de presença.

A junção entre psicologia e filosofia cria uma mesa especialmente rica. Em vez de um debate restrito à análise técnica do cinema, o público deve encontrar uma conversa voltada para a vida real: o que fazemos com o que nos quebra, e como aprendemos a conviver com uma falta que não se resolve, mas pode ser atravessada com dignidade.

O festival como encontro de histórias humanas

O XVI Festival de Cinema Francês do Brasil finaliza no dia 10 de dezembro, reúne produções contemporâneas, sessões especiais e encontros entre profissionais do setor. A presença de “Uma Jornada de Bicicleta” nessa reta final do evento reafirma a vocação do festival de dialogar com temas universais — aqueles que atravessam fronteiras culturais porque dizem respeito às emoções básicas da existência.

Em um panorama de programação múltipla, o filme se destaca por sua capacidade de abordar o luto com humanidade, sem cair na rigidez do discurso didático nem na sedução do sentimentalismo fácil. Ele aposta no detalhe, na amizade, no corpo em movimento, no ritmo do pedal como metáfora do que persiste mesmo quando a vida parece suspensa.

Uma noite para quem quer sentir, pensar e elaborar

A sessão do dia 10 de dezembro se apresenta como uma oportunidade rara de experimentar o cinema em sua dimensão mais completa: não apenas entretenimento, mas também ritual contemporâneo de partilha, espaço de encontro e ferramenta de ressignificação.

Para quem está vivendo um processo de luto, para quem já viveu e ainda carrega marcas silenciosas, ou para quem deseja compreender melhor as formas humanas de atravessar a dor, a noite pode ser uma espécie de abraço coletivo. Um lembrete de que a perda é pessoal, mas não precisa ser solitária.

  • Serviço
    Exibição do filme “Uma Jornada de Bicicleta” + debate
    Data: Quarta-feira, 10/12
    Horário: 19h
    Local: Estação NET Rio
    Endereço: Rua Voluntários da Pátria, 35 – Botafogo
    Debate com: Márcia Noleto (C-FEN / Grupo Mães Sem Nome) e Marco Casanova (UERJ).
    Evento: XVI Festival de Cinema Francês do Brasil

Matéria atualizada em 08 de dezembro de 2025.

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