O Rio de Janeiro receberá, nos dias 20 e 21 de março de 2026, uma ampla mobilização em defesa da igualdade racial, da memória afro-brasileira, da valorização dos territórios negros e do enfrentamento direto às múltiplas formas de discriminação que ainda estruturam a vida social no país. Trata-se do Fórum “Combatendo o Racismo de Verdade”, encontro que será realizado no MUHCAB – Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, localizado na Rua Pedro Ernesto, nº 80, na Gamboa, reunindo especialistas, pesquisadores, lideranças religiosas, educadores, artistas, representantes de movimentos sociais e agentes culturais em uma programação extensa, diversa e profundamente conectada com a urgência do debate racial no Brasil contemporâneo.
Apresentado pelo CEDIWE-PIR, o fórum surge como uma iniciativa que busca transformar o combate ao racismo em ação concreta, articulando reflexão crítica, produção de conhecimento, valorização da ancestralidade, intercâmbio de experiências e fortalecimento de redes comprometidas com a promoção da igualdade racial. Em vez de se limitar a uma agenda simbólica, o evento propõe uma imersão em temas centrais da realidade brasileira, como educação antirracista, desigualdades urbanas, favelas, racismo ambiental, intolerância religiosa, gênero, diáspora africana, capoeira, cultura popular e memória coletiva.
A escolha do título “Combatendo o Racismo de Verdade” não parece casual. Ela aponta para uma crítica explícita às respostas superficiais, pontuais ou meramente discursivas que muitas vezes cercam o tema da discriminação racial. Ao reunir vozes de diferentes campos do saber e da ação social, o fórum indica a necessidade de construir respostas mais profundas, estruturadas e permanentes para enfrentar o racismo em suas dimensões institucional, cultural, religiosa, territorial e simbólica. É, portanto, uma convocação à responsabilidade pública, ao compromisso político e à valorização das trajetórias negras que historicamente sustentam a produção de conhecimento, cultura e resistência no país.
Além da realização do CEDIWE-PIR, o material de divulgação destaca uma ampla rede de apoio institucional, envolvendo órgãos públicos e entidades ligadas à promoção da igualdade racial, cultura, direitos humanos e políticas públicas, bem como diversas organizações e coletivos apoiadores. Essa composição reforça o caráter articulado da iniciativa e sua capacidade de reunir diferentes setores em torno de uma pauta comum: enfrentar o racismo não apenas como problema moral, mas como uma questão central de democracia, cidadania, justiça social e reconhecimento histórico.
Primeiro dia será marcado por mesas temáticas e aprofundamento crítico
A programação do dia 20 de março de 2026 começa às 9h, com a abertura oficial e mesa de autoridades, momento que deve marcar o início formal dos trabalhos e situar politicamente o fórum dentro do calendário de luta contra o racismo. A abertura tende a cumprir um papel importante: reconhecer a gravidade do cenário atual, reafirmar o compromisso das instituições envolvidas e sinalizar a necessidade de respostas integradas entre poder público, organizações da sociedade civil, universidades, lideranças comunitárias e agentes culturais.
Na sequência, às 9h30, será realizado o painel “Rede de Educação Antirracista”, um dos eixos mais estratégicos da programação. Em um país em que a escola ainda reproduz silenciamentos históricos, desigualdades de acesso e invisibilização de matrizes africanas e afro-brasileiras, discutir educação antirracista significa disputar projeto de sociedade. O painel propõe refletir sobre o papel da educação na desconstrução do preconceito, na valorização da identidade negra e na implementação efetiva de práticas pedagógicas comprometidas com os direitos humanos.
Entre as palestrantes anunciadas estão Drª Luana Atanazio, assistente social com trajetória na Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro; Drª Luciana Ribeiro, pesquisadora com atuação nas áreas de educação, relações étnico-raciais e direitos humanos; e Profª Carmen M. B. Coelho, apresentada como professora de Sociologia da SEEDUC-RJ, antropóloga, psicóloga e advogada. A presença dessas mulheres em um mesmo painel aponta para a centralidade da produção intelectual e técnica comprometida com a transformação das instituições educacionais e com a construção de referências antirracistas no cotidiano escolar.
Às 11h, o debate avança para o painel “Favelismo”, trazendo para o centro da discussão as realidades das periferias e favelas, territórios historicamente marcados por estigmatização, ausência de políticas públicas adequadas e violências diversas, inclusive racializadas. Ao incluir esse tema na programação, o fórum reconhece que não há enfrentamento sério ao racismo sem considerar os impactos da segregação socioespacial, da criminalização da pobreza e da negação sistemática de direitos em territórios majoritariamente negros.
Neste painel, estão previstos nomes como Prof. Geraldo Coelho, assistente social com formação pela UFRJ e pela PUC-Rio e atuação no sistema público de ensino; Dr. Fábio L. H. Cardoso, historiador com trajetória acadêmica e institucional ligada à produção de memória e diversidade; e Cantora Carol Félix, artista, comunicadora e referência cultural oriunda da Cidade Alta, cuja experiência conecta arte, favela e afirmação identitária. A composição da mesa sugere um diálogo entre saber acadêmico, experiência institucional e vivência territorial, algo fundamental para que o debate sobre periferias não seja abstrato nem descolado da realidade concreta de seus moradores.
Às 13h, será realizado o painel “Meio Ambiente e Vidas”, deslocando o debate racial para outra dimensão decisiva: a relação entre racismo, desigualdade socioambiental e direito à vida. Ao unir meio ambiente e vidas no mesmo eixo temático, o fórum sinaliza que as populações negras e periféricas estão entre as mais atingidas por ausência de saneamento, poluição, descarte irregular, insegurança alimentar, precariedade urbana e destruição ambiental. Em outras palavras, discute-se também o que muitos especialistas identificam como racismo ambiental.
Participam desse momento Dr. Marco Rocha, apresentado como comunicador, biólogo, escritor e professor universitário, e Prof. Allan Alves de Lima Bombeiro, mestre em Ecoturismo e Conservação e profissional com atuação em sustentabilidade, gestão ambiental e educação ambiental. A presença desses nomes amplia a compreensão do racismo para além da esfera estritamente discursiva, mostrando como ele interfere no acesso desigual a condições dignas de existência, saúde e proteção ambiental.
Às 14h, o fórum promoverá um dos painéis mais densos da programação: “Racismo Estrutural, Religioso e de Gênero”. Trata-se de uma mesa que articula dimensões essenciais da desigualdade brasileira e revela como diferentes violências se cruzam quando o assunto é a vida da população negra, em especial de mulheres negras e de praticantes de religiões de matriz africana. Em um contexto marcado por intolerância religiosa, misoginia, silenciamento histórico e exclusão institucional, o debate ganha peso político e simbólico.
Entre as participantes anunciadas estão Yalorixá Mãe Márcia Marçal, liderança religiosa; Sanitarista Izalide R. dos Santos, com trajetória ligada à saúde da população negra e ao controle social das políticas públicas; e Empresária Karol Paixão, fundadora do Império Kush, cuja atuação também dialoga com literatura, curadoria e difusão de saberes africanos e afro-diaspóricos. O painel indica uma leitura abrangente do racismo estrutural, conectando espiritualidade, políticas de saúde, empreendedorismo, memória e protagonismo feminino negro.
Fechando o ciclo de debates do primeiro dia, às 16h, será realizado o painel “Áfricas e Diáspora”, com participação do Oba Prof. Hameed Adejoro Ajijola. A inclusão desse tema reposiciona o debate racial em perspectiva internacional, ressaltando os vínculos históricos, culturais, políticos e espirituais entre o Brasil, o continente africano e as diásporas negras. Em um evento centrado na luta contra o racismo, essa abordagem é especialmente relevante porque rompe com visões limitadas sobre a negritude e reafirma conexões transnacionais de identidade, resistência e produção civilizatória.
A programação do dia 20 não se encerra nos debates. A partir das 18h, o fórum se desdobra em celebração cultural com apresentações musicais que reforçam a dimensão estética e ancestral da resistência negra. Estão previstos show musical do Afoxé Omo Ifá, às 18h; show musical Afro Barraventú Dãn, às 19h; e show musical da Banda Malê Ayê, às 20h. A presença dessas atrações reforça uma compreensão central para o evento: combater o racismo também é afirmar cultura, memória, espiritualidade, festa, arte e presença negra nos espaços de produção simbólica.
Segundo dia será dedicado à capoeira, diplomação, homenagens e encerramento cultural
No dia 21 de março de 2026, a programação mantém o caráter político e comunitário do fórum, mas com ênfase maior em rituais públicos, reconhecimento de trajetórias, certificação e celebração da cultura afro-brasileira. Às 9h, está previsto o Ato Solene de Abertura com Capoeira pela FECARJ, reafirmando a capoeira como patrimônio cultural, prática de resistência, instrumento pedagógico e símbolo de luta do povo negro.
Às 10h, haverá a solenidade de formatura e entrega de certificados para árbitros de capoeira e homenagens, indicando que o fórum também assume um papel formativo e de valorização de mestres, praticantes e agentes que mantêm viva essa tradição. Em seguida, às 11h, em parceria com o IPN, ocorrerá a diplomação do curso sobre a importância da política estratégica da capoeira na construção nacional. O título da atividade evidencia o entendimento de que a capoeira não deve ser tratada apenas como manifestação cultural, mas como expressão histórica de organização, identidade, pedagogia, cidadania e pertencimento.
Ao meio-dia, a programação prevê almoço com feijoada, em um momento de confraternização que também possui forte carga simbólica dentro da cultura popular brasileira e afro-brasileira. Às 13h, será realizada a 1ª Roda de Capoeira FECARJ no MUHCAB, reforçando a ocupação do espaço cultural por práticas negras vivas, corporais, coletivas e intergeracionais.
A agenda segue às 14h com o Campeonato de Karaokê Pérolas Negras, atividade que amplia o tom de celebração e interação comunitária. Às 16h, está previsto show musical cover da cantora Elza Soares, homenagem mais do que coerente com o espírito do evento, já que Elza se tornou um dos maiores símbolos da força, da denúncia social, da arte negra e da resistência feminina no Brasil. Na sequência, às 17h, ocorre o Campeonato de Martelo e Roda de Capoeira com Samba de Roda, integrando música, corpo, tradição e coletividade.
O encerramento do fórum está marcado para as 18h, com a bateria do bloco das Mulheres do Ponto de Cultura Umbuntu – Mestre Bororó, numa conclusão que reafirma o protagonismo das mulheres negras, da cultura popular e dos territórios de criação coletiva como espaços de enfrentamento ao racismo.
Evento propõe articulação entre memória, denúncia e construção de saídas coletivas
Mais do que um encontro temático, o Fórum “Combatendo o Racismo de Verdade” se apresenta como um espaço de convergência entre denúncia, formulação e ação. Sua programação demonstra que o racismo não será enfrentado apenas por declarações públicas de repúdio, mas pela construção permanente de redes, saberes, políticas e práticas capazes de incidir sobre a educação, a cultura, a saúde, a religião, os territórios, o meio ambiente e os direitos fundamentais.
Ao reunir nomes da academia, da gestão pública, da cultura, das religiões de matriz africana e da sociedade civil, o evento também reafirma um princípio importante: o combate ao racismo precisa ser conduzido com protagonismo negro e com escuta real das experiências históricas e contemporâneas da população negra. Não se trata apenas de descrever desigualdades, mas de reconhecer trajetórias de resistência e fortalecer caminhos de transformação.
O fato de o evento ocorrer no MUHCAB, um espaço diretamente ligado à história e à cultura afro-brasileira, amplia ainda mais sua força simbólica. A Gamboa, território profundamente marcado pela presença negra e pela memória da diáspora africana, oferece o cenário ideal para um fórum que pretende confrontar apagamentos históricos e afirmar a centralidade da população negra na formação social, cultural e política do Brasil.
Em um momento em que o país ainda convive com desigualdades raciais profundas, intolerância religiosa, violência simbólica e exclusão estrutural, iniciativas como essa ajudam a reposicionar o debate público. O fórum aponta para a necessidade de tratar o racismo como questão central da democracia brasileira e de compreender que a promoção da igualdade racial exige continuidade, compromisso institucional e participação social efetiva.
Assim, ao combinar debate qualificado, formação política, celebração cultural e valorização da ancestralidade, o Fórum “Combatendo o Racismo de Verdade” se consolida como uma iniciativa relevante no calendário de mobilização antirracista do Rio de Janeiro. Mais do que um evento, ele se anuncia como um chamado coletivo para que o enfrentamento ao racismo deixe de ser retórico e se torne, de fato, compromisso cotidiano, prática institucional e horizonte permanente de justiça.
A ComCausa – Defesa da Vida, por meio do seu Ponto de Cultura e Ponto de Mídia Livre “Comunicando ComCausa”, integrado em rede com a iniciativa Periferia Viva, estará presente de forma colaborativa no fórum, contribuindo na promoção das atividades, na mobilização territorial e na produção de comunicação popular. A atuação conjunta reforça o compromisso com o fortalecimento das vozes periféricas, a difusão de conteúdos sobre igualdade racial e a construção de redes solidárias que ampliem o alcance e o impacto das ações de enfrentamento ao racismo.
Serviço
Evento: Fórum “Combatendo o Racismo de Verdade”
Data: 20 e 21 de março de 2026
Local: MUHCAB – Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira
Endereço: Rua Pedro Ernesto, 80 – Gamboa, Rio de Janeiro (RJ)
Programação:
20/03 – Debates e apresentações culturais (a partir das 9h)
21/03 – Atividades culturais, capoeira e encerramento (a partir das 9h)
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