Há encontros que não são “eventos”. São marcos. São sinais de que um território decidiu parar, respirar e olhar para si mesmo com coragem — não para se culpar, mas para se responsabilizar. O Fórum da Reparação Histórica do Povo Negro, marcado para 7 de fevereiro, às 14h, em São João de Meriti, nasce desse lugar: o lugar em que a cidade reconhece que a história não é uma peça de museu, e sim uma força viva que continua determinando quem tem acesso a direitos, quem é protegido, quem é lembrado, quem é apagado.
Realizado pela Prefeitura de São João de Meriti, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Igualdade Racial), o Fórum se propõe a ser mais do que uma roda de falas: é um chamado público para que a reparação deixe de ser palavra bonita e vire caminho, agenda, prioridade e prática. Porque reparação histórica não é um tema “do passado”. É um tema do presente que, quando ignorado, segue produzindo futuro desigual.
O encontro acontece na Rua das Acácias, s/n – Vila São José, e reúne lideranças, referências do movimento social, da educação e do campo jurídico para discutir o que muitas vezes se tenta empurrar para a margem: o Brasil foi construído sobre um sistema de violência histórica, e os efeitos disso não se dissolvem com o tempo. Se dissolvem com decisões, investimentos, reconhecimento, políticas e — principalmente — com verdade social.
Reparação não é vingança: é justiça, memória e garantia de dignidade
É importante dizer com todas as letras: reparação histórica não é revanchismo. Reparação é o nome que se dá a um processo de justiça quando uma sociedade decide reconhecer que houve — e ainda há — uma estrutura que gerou prejuízos acumulados, desigualdades profundas e cicatrizes que atravessam gerações.
Reparar, nesse sentido, é:
- reconhecer o dano histórico, sem relativizar;
- valorizar a memória negra, sem folclorizar;
- garantir direitos, sem condicionar a “merecimento”;
- corrigir desigualdades estruturais, com políticas públicas e medidas concretas;
- proteger vidas, porque racismo também é risco, também é adoecimento, também é morte evitável.
E é por isso que encontros como este importam. Eles são um gesto coletivo de maturidade social: a cidade dizendo “isso nos diz respeito”. Não como um favor, mas como dever. Não como espetáculo, mas como compromisso.
Um território que debate reparação também debate segurança, cuidado e oportunidades
Quando a reparação entra na conversa pública, ela puxa outras conversas — e todas são urgentes. Porque falar de reparação é falar de desigualdade territorial. É falar do acesso desigual à educação, à saúde, à cultura, ao transporte, ao emprego. É falar do racismo que opera no cotidiano: na forma como se trata um corpo negro em abordagens, em filas, em serviços, em oportunidades. É falar da diferença entre viver e sobreviver. E, em última instância, reparação também é Defesa da Vida: quando um município decide reconhecer o valor da memória negra, ele também está dizendo que não aceita que a vida negra seja considerada descartável.
É nesse campo que a ComCausa – Defesa da Vida, enquanto instituição de Cultura de Direitos, se alinha a agendas como essa: porque reparação é um eixo de direitos humanos, de justiça social, de dignidade e de garantia de futuro com menos violência e mais proteção.
Participações confirmadas: um encontro de vozes que cruzam luta, educação e justiça
O Fórum contará com a participação de convidados e convidadas que trazem diferentes experiências e campos de atuação, formando um painel que aponta para o caráter plural do debate:
- Sr. Adalberto Cândido (“Sr. Candinho”)
- Sr. Iedo (MNU)
- Sr. Jorge Florêncio
- Dra. Denise Coelho (OAB/RJ)
- Profª Letícia Silva
- Dra. Elisabete Nascimento
- Dr. Renato Ferreira
A presença de nomes do movimento negro, do campo jurídico e da educação é um recado importante: reparação não é um assunto isolado em uma área. Ela atravessa tudo. Ela precisa do saber comunitário e do saber técnico. Precisa do território e das instituições. Precisa da cultura e das políticas. Precisa de memória e de mecanismos de garantia.
Cultura como linguagem política: quando o samba vira documento histórico
O Fórum não se limita ao debate formal. Ele se ancora na cultura como força de pertencimento e de continuidade — e isso aparece com destaque no encontro com o Grupo Afro Agbara Dudu, no Museu Marinho João Cândido, com a chamada: “Cantando: Paulo da Portela – Carnaval 2026”.
Não é um detalhe. É um posicionamento.
Paulo da Portela não é só um nome do samba: é um símbolo de organização, de ética, de identidade e de afirmação cultural. Trazer esse canto para o centro do Fórum é lembrar que o samba sempre foi mais do que festa — foi refúgio, denúncia, escola, rede, proteção. Foi documento vivo quando tentavam negar a humanidade e a inteligência de um povo. Quando um território canta sua história, ele também está dizendo: “Nós sabemos de onde viemos. E não aceitaremos ser apagados.”
João Cândido: o nome que carrega coragem, enfrentamento e reparação moral
O cartaz do encontro também destaca o Museu Marinho João Cândido. E esse nome, por si só, merece uma pausa. João Cândido é um personagem histórico que simboliza algo muito profundo para o Brasil: o conflito entre autoridade e justiça, entre obediência e dignidade, entre ordem e humanidade. Evocar João Cândido é lembrar que o país tentou silenciar lideranças negras mesmo quando elas estavam do lado certo da história. E que reparar também é isso: reconhecer quem foi injustiçado e devolver honra pública onde houve punição social.
Quando um evento sobre reparação acontece sob esse nome, ele carrega uma mensagem: a cidade não quer memória decorativa. Quer memória como coragem.
Um fórum é um começo — e um começo precisa virar continuidade
Um Fórum bem feito não termina quando o microfone é desligado. Ele começa ali. A medida real de um encontro como este não está só nas falas. Está no que ele mobiliza depois: novas alianças, novas prioridades, novas ações, novos encaminhamentos. Reparação histórica precisa se transformar em:
- programas de valorização da cultura negra;
- educação com memória e verdade;
- preservação de patrimônios e referências negras;
- fortalecimento de coletivos e lideranças;
- políticas de igualdade racial com metas, orçamento e transparência;
- ações territoriais que reduzam vulnerabilidades e ampliem oportunidades.
E sobretudo: precisa virar um pacto social simples e poderoso — nenhuma vida deve ser tratada como menos digna.
Serviço
O quê: Fórum da Reparação Histórica do Povo Negro
Quando: 7 de fevereiro, às 14h
Onde: Rua das Acácias, s/n – Vila São José – São João de Meriti
Realização: Prefeitura de São João de Meriti – Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Igualdade Racial)
Informações: Frei Tatá – (21) 98138-2200
Destaque cultural: Grupo Afro Agbara Dudu, no Museu Marinho João Cândido — “Cantando: Paulo da Portela – Carnaval 2026”
Apoio: rede de parceiros e iniciativas, incluindo a ComCausa – Defesa da Vida.
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