O ano era 1996 quando o Rio de Janeiro revelou um dos capítulos mais tristes da história da humanidade. Em 8 de janeiro daquele ano, durante obras para construir a garagem de sua casa, no bairro da Gamboa, o casal Merced e Petrúcio Guimarães se deparou com ossos humanos soterrados. Ali estava o Cemitério dos Pretos Novos, espaço destinado ao sepultamento de africanos recém-chegados que não resistiram à travessia atlântica nem aos primeiros dias de violência no Brasil.
A descoberta expôs de forma brutal a engrenagem do sistema escravista ligado ao Cais do Valongo e a todo o complexo de comércio de pessoas escravizadas. Estima-se que cerca de 40 mil africanos tenham sido enterrados naquele solo entre 1769 e 1830, em valas comuns, muitas vezes com corpos queimados e fragmentados, tratados como resíduos de um mercado desumano.
Diante da dimensão histórica e simbólica do achado, Merced e Petrúcio Guimarães tomaram uma decisão que mudaria o destino daquele território. O casal doou seu patrimônio para que o espaço fosse preservado e transformado em ação concreta de reparação histórica. Ali germinava a semente da Pequena África que hoje se reconhece como território fundamental da memória negra no Brasil.
Em 2005, essa luta se institucionalizou com a criação do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN). Desde então, o Instituto atua de forma contínua na salvaguarda da memória dos ancestrais que não sobreviveram à travessia, promovendo pesquisas arqueológicas, educação patrimonial, ações culturais e produção de conhecimento crítico sobre a escravidão e seus impactos no presente.
Três décadas após a descoberta do cemitério, o IPN se consolida como referência nacional e internacional na defesa da memória da diáspora africana. O Instituto transformou ossos silenciados em denúncia histórica, enfrentando o apagamento, o racismo estrutural e a negação da violência escravista.
Celebrar os 30 anos do IPN, neste 8 de janeiro, é saudar a ancestralidade que construiu o Rio de Janeiro e o Brasil. É reconhecer que essa ancestralidade vive no território, nos corpos, nas pesquisas e nas ações do Instituto, clamando por memória, verdade e reparação.
A missão que se renova é a de construir uma cidade que respeite essa história, preserve seus territórios de memória e promova os saberes de matriz africana como pilares de um futuro mais justo. O IPN segue como guardião dessa herança, lembrando que não há defesa da vida sem memória, nem democracia sem reparação histórica.
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