O local carrega uma memória dolorosa: foi para a Praça São Lucas que moradores levaram dezenas de corpos retirados da mata após a Operação Contenção, em outubro de 2025. Um ano depois, familiares ocuparam novamente aquele espaço, desta vez com homenagens e balões brancos, reafirmando que as mortes não podem ser esquecidas e que as famílias continuam esperando respostas.
Organização comunitária, memória e cuidado
À frente da mobilização, a Frente Penha articulou uma atividade que aproximou a denúncia da violência e o acolhimento às pessoas atingidas. O almoço comunitário, promovido pelo coletivo e parceiros do território, criou um momento de convivência entre familiares, moradores e representantes de organizações sociais.
A programação divulgada também contemplava caminhada, distribuição de cestas básicas, manifestações de coletivos de familiares, música, dança, poesia, capoeira e jongo. Foram anunciados espaços de cuidado, orientação e recreação infantil, compondo uma proposta de mobilização que reconhece as diferentes necessidades da comunidade.
A iniciativa deu visibilidade ao trabalho de quem permanece no território depois que as operações terminam e a repercussão diminui. São familiares, coletivos e organizações comunitárias que sustentam redes de solidariedade, preservam histórias e mantêm a cobrança por direitos.
Evelin Dias, assistente social e integrante da gestão da Frente Penha, defendeu que a comunidade receba atenção permanente, sobretudo para mulheres, crianças e jovens negros. “Nossa comunidade, que é tão violentada, precisa ser vista com olhos de cuidado”, afirmou à Agência Brasil ao apresentar as reivindicações da mobilização por saúde, educação e proteção.
Mães denunciam desigualdade no direito à vida
Uma das vozes do ato foi Tauã Brito, mãe de Wellington Brito, morto aos 20 anos. Em sua manifestação, ela questionou o tratamento dispensado aos moradores das favelas e defendeu que todas as pessoas tenham seus direitos respeitados, independentemente do endereço ou da condição econômica.
Tauã ressaltou que cobrar responsabilização por crimes é diferente de aceitar execuções. Também denunciou a naturalização das mortes e o uso político da operação. “Segurança de verdade é proteger a vida. E é isso que estamos pedindo hoje”, declarou.
A cobrança por esclarecimentos apareceu também no relato de Maria Edevalda Cândido de Souza, mãe de Cleiton Souza da Silva. Durante a mobilização, ela afirmou que a morte atingiu toda a família e reivindicou respostas sobre o que aconteceu com o filho. Familiares também relataram dificuldades para acessar informações sobre as investigações e os próprios depoimentos prestados após a operação.
Essas manifestações mostram que a luta das famílias envolve tanto a apuração das mortes quanto o reconhecimento das consequências que permanecem. O luto atravessa relações familiares, condições de vida e perspectivas de futuro, exigindo uma resposta pública que inclua cuidado continuado.
Investigação permanece sob cobrança
Realizada em 28 de outubro de 2025, a Operação Contenção mobilizou cerca de 2.500 policiais civis e militares em uma ação contra o Comando Vermelho. O balanço de 122 mortos, incluindo cinco policiais, tornou o episódio um marco da letalidade policial no país. As autoridades de segurança sustentaram que os civis mortos haviam participado de confrontos; familiares denunciaram possíveis execuções e abusos.
Em atualização divulgada nesta semana, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro informou ter oferecido 12 denúncias contra 28 policiais militares por crimes como furto, peculato, violação de domicílio, constrangimento ilegal, roubo e recusa de obediência, além de irregularidades relacionadas às câmeras corporais. A apuração das circunstâncias das mortes continua. Essas denúncias não equivalem a condenações nem esclarecem, por si, cada óbito.
Uma investigação publicada pela Human Rights Watch nesta quarta-feira apontou falhas sistemáticas no uso das câmeras corporais, inclusive manipulação dos equipamentos. Segundo a organização, nenhuma das mortes foi capturada nas 4.400 horas de gravações analisadas. O levantamento também identificou problemas na preservação de provas e evidências que sugerem uso excessivo da força e mortes intencionais, reforçando a necessidade de investigação rigorosa.
Segurança pública precisa ser medida pela proteção das pessoas
O aniversário do massacre exige uma avaliação crítica dos resultados da política de segurança. Uma intervenção com tamanha quantidade de mortos demanda esclarecimentos sobre decisões de comando, planejamento, socorro, uso da força e fiscalização. O combate às organizações criminosas precisa produzir segurança para os moradores. Isso inclui enfrentar o controle armado dos territórios, investigar suas estruturas financeiras e proteger a população durante a atuação policial. A morte de agentes públicos também exige apuração e avaliação das condições em que foram colocados para atuar.
A mobilização da Frente Penha reafirmou que as famílias e os moradores têm o direito de participar desse debate. Suas experiências precisam orientar políticas capazes de reduzir a violência e garantir acesso permanente à saúde, à educação, à cultura e à assistência social.
Ao reunir a comunidade em torno da memória, da solidariedade e da cobrança por justiça, o coletivo manteve no centro da atividade as pessoas que seguem convivendo com as consequências do massacre.
ComCausa acompanhou parte da mobilização e colocou o CAIS à disposição das famílias
A ComCausa acompanhou parte das atividades promovidas pela Frente Penha, participou do almoço com integrantes da mobilização e familiares das vítimas e colocou o CAIS ComCausa à disposição para contribuir com o acolhimento, a orientação e a articulação para o acesso a direitos.
Durante o encontro, a organização estabeleceu contato com lideranças e familiares e manifestou a intenção de articular uma reunião na próxima semana, em data ainda a combinar. A proposta é aprofundar a escuta e construir possibilidades de apoio a partir das necessidades apresentadas pelas famílias, respeitando o protagonismo da Frente Penha e das organizações do território.
Entre as possibilidades a serem analisadas está a articulação com instituições de defesa de direitos para avaliar os fundamentos de um eventual pedido de federalização do caso. Essa avaliação deverá considerar as demandas dos familiares, o andamento das investigações e os requisitos jurídicos aplicáveis.
O CAIS ComCausa – Autonomia e Inclusão, desenvolvido em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD), atua na promoção de direitos, no acolhimento, na redução de danos e na inclusão social e produtiva de pessoas em situação de vulnerabilidade. Suas ações articulam escuta, orientação, atividades comunitárias e encaminhamentos à rede de serviços públicos e de proteção social.
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