A tradicional Festa do Aipim, que acontece entre os dias 11 e 13 de julho, em Tinguá, será palco de uma importante mobilização por memória e justiça. Familiares e amigos de Gabriel Pereira dos Santos, jovem de 24 anos assassinado por um policial militar durante uma abordagem arbitrária em agosto de 2024, lançarão no evento uma campanha pública para denunciar a impunidade e manter viva a exigência de responsabilização do autor do crime.
A ação integra o calendário de mobilizações que antecedem o primeiro ano da morte de Gabriel, que era nascido e criado na região de Tinguá. O objetivo é ampliar a visibilidade do caso, combater a naturalização da violência policial e fortalecer o clamor por justiça.
Relembre o caso
Na manhã de 16 de agosto de 2024, Gabriel havia saído de casa, em Tinguá, para levar sua noiva ao trabalho em Vila de Cava, em Nova Iguaçu. No caminho de volta, trafegava de moto pela Estrada de Tinguá quando foi abordado por dois policiais militares. Um deles, o terceiro-sargento Allan Mendes Rocha, posicionou-se com arma em punho no meio da via. Gabriel, que usava fones de ouvido, aparentemente não ouviu a ordem de parada. Ao tentar desviar, foi atingido por um disparo nas costas. O tiro atravessou seu pescoço, e ele caiu cerca de 20 metros adiante, morrendo no local.
Relatos de testemunhas, imagens de câmeras de segurança e registros das câmeras corporais dos próprios agentes desmontam a versão inicial apresentada pela defesa do policial, que alegava legítima defesa e uma suposta investida por parte de Gabriel. Não houve qualquer confronto ou ameaça real. O que se verifica é um disparo letal e injustificado, realizado em plena luz do dia, em uma área pacificada e sem qualquer ocorrência de conflito armado.
A ComCausa criopou uma página para acompanhar o caso: ComCausa.org.br/justica-por-gabriel-pereira
PM é denunciado e se torna réu
O sargento Allan Mendes Rocha foi inicialmente preso em flagrante, com a prisão posteriormente convertida em preventiva. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro apresentou denúncia por homicídio doloso qualificado, e a Justiça do Rio de Janeiro acolheu o pedido, tornando o policial réu formal pelo assassinato de Gabriel.

Processo segue para o Tribunal do Júri
Atualmente, o processo tramita na 4ª Vara Criminal de Nova Iguaçu e encontra-se na fase de instrução do Tribunal do Júri. Essa etapa é destinada à produção de provas, oitiva de testemunhas e análise dos elementos do inquérito. Após a apresentação das alegações finais pelas partes, caberá ao juiz decidir se o caso será encaminhado para julgamento popular. Se condenado, o réu poderá enfrentar pena superior a 20 anos de reclusão.
Mobilizações em memória de Gabriel
A campanha durante a Festa do Aipim marca o início de uma série de ações previstas para o mês de agosto. A família de Gabriel, com o apoio de organizações como a ComCausa, está organizando um ato público para o dia 16 de agosto, data em que se completará um ano do crime. O objetivo é denunciar a impunidade, preservar a memória de Gabriel e reforçar o papel da sociedade na luta contra a violência de Estado.
Compromisso com a vida e os direitos humanos
Desde os primeiros momentos, a ComCausa tem prestado apoio à família de Gabriel por meio do programa ACOLHER, voltado à assistência de parentes de vítimas de violência institucional. Para Adriano Dias, fundador da entidade, “a luta por Gabriel não é apenas por um julgamento justo, mas por uma mudança estrutural. É preciso que o Estado pare de tratar nossos jovens como alvos.”
Memória como resistência
A presença dos familiares de Gabriel na Festa do Aipim carrega um profundo simbolismo: transformar um espaço de celebração popular em território de denúncia, memória e esperança. Enquanto houver impunidade, o nome de Gabriel seguirá ecoando pelas ruas, como símbolo da luta por uma segurança pública que respeite a dignidade e a vida de todos.
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