Giro da Folia emociona o Morro do Embaixador e reforça a importância do Museu João Cândido

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O Morro do Embaixador amanheceu diferente depois do que viveu no sábado, 03 de janeiro de 2026. Não foi “só” um evento. Foi um território inteiro lembrando, em voz alta, que cultura popular não é enfeite: é raiz, é fé cantada, é comunidade em movimento. E, acima de tudo, foi um dia em que a memória de Mestre Pedro voltou a caminhar pelas ladeiras — não como ausência, mas como presença que continua, inspirando quem segue carregando a bandeira da tradição.

O II Giro da Folia ocupou o Morro do Embaixador com o que a Folia de Reis tem de mais verdadeiro: encontro, acolhida, bandeira à frente, instrumentos puxando o passo, gente seguindo junto. A celebração do Nascimento de Jesus atravessou a tarde como atravessa a vida: pelas mãos do povo, pelo corpo do território, pelo canto que vai passando de casa em casa e de geração em geração.

Entre as presenças, a participação da Folia “Sete Estrelas de N. Sra. do Rosário”, vinda de Mesquita, ampliou o sentido regional do encontro — porque a Folia é ponte: junta municípios, irmana comunidades, costura a Baixada por dentro, onde os mapas oficiais nem sempre alcançam, mas onde a cultura sempre soube abrir caminho.

Mestre Pedro: quando um nome vira chão, bandeira e destino coletivo

Mas se havia um coração batendo mais forte nesse Giro, ele tinha nome e história: Mestre Pedro, líder da tradicional Folia de Reis “Estrela do Oriente, Deus é Nosso Guia”. Desde que ele partiu, em 03 de março de 2025, aos 89 anos, ficou um silêncio que não cabe em palavras — e, ao mesmo tempo, ficou uma obrigação bonita: não deixar a tradição se perder, não deixar o Mestre ser reduzido a uma lembrança distante, não permitir que a vida comunitária perca uma das suas referências mais fortes.

O Giro existe também por isso. Porque Mestre Pedro não era apenas um folião. Era guardião, referência, liderança comunitária. Era daqueles que carregam, sem alarde, uma parte do mundo nas costas: a parte que segura o sentido das coisas simples — o canto, o respeito, o compromisso, o “vamos fazer acontecer” quando ninguém mais faria.

Neste II Giro, a homenagem ganhou forma de presença: familiares, amigos, moradores e quem cresceu vendo o Mestre conduzir a Folia ajudaram a transformar saudade em caminho. A cada parada, a cada verso, parecia que o Morro repetia, do jeito que sabe: “a gente não esquece”.

O Museu no Morro: memória que não pede licença para existir

Há um símbolo que fortalece ainda mais esse cenário: o Museu Municipal Marinheiro João Cândido, instalado no Morro do Embaixador. O museu não é apenas um prédio; é uma afirmação pública de memória e identidade. É um marco que ajuda a dizer, todos os dias, que o território tem história, tem dignidade, tem herança — e que essa herança não pode ser apagada.

Quando a Folia gira nesse entorno, tradição e patrimônio se reconhecem. A cultura popular deixa de ser “passagem” e vira permanência. O que se canta na rua conversa com o que se preserva no museu. O que se aprende com os mais velhos encontra lugar para ficar registrado, protegido, valorizado. E o Morro, que muitas vezes é visto de fora com preconceito, se apresenta por dentro com verdade: como um lugar de memória viva.

Povo, movimentos sociais e território

O que deu a medida do II Giro foi ver a participação de quem faz a cultura existir de verdade: a população do morro, as famílias, as lideranças comunitárias, as redes e movimentos sociais que compreendem que cultura é direito, é pertencimento, é cuidado com o território. A Folia não se sustenta por palco: ela se sustenta por gente. E quando o povo chega, a tradição não “sobrevive” — ela floresce.

Nesse movimento, a ComCausa – Defesa da Vida esteve junto, acompanhando e buscando contribuir com tantas forças que atuam pela consolidação desse patrimônio — não apenas como referência de São João de Meriti, mas como símbolo de valor para toda a Baixada Fluminense, onde a cultura popular é, muitas vezes, o que segura a comunidade de pé quando tudo parece faltar.

Apoio institucional: quando a cidade reconhece, a tradição ganha fôlego

O II Giro contou com apoio da Superintendência de Política de Igualdade Racial e Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de São João de Meriti — um reconhecimento importante, porque cultura popular precisa ser tratada como política pública: patrimônio vivo, base de identidade, e parte de um projeto de cidade que honra sua história e suas comunidades.

Um recado que fica

O II Giro da Folia terminou, mas o Morro do Embaixador não voltou ao mesmo lugar de antes. Ficou no ar uma certeza coletiva: Mestre Pedro segue no giro. Segue quando a bandeira se ergue. Segue quando o canto encontra outra voz. Segue quando a comunidade decide, com firmeza e carinho, que tradição não é passado — é caminho.

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