Guto Golf parte deixando um legado histórico para o Rock da Baixada Fluminense

StudioB

Na manhã desta sexta, 21 de novembro de 2025, a cena rock da Baixada Fluminense acordou mais silenciosa. Foi neste dia que recebemos a notícia da morte de Carlos Augusto, o Guto Golf, idealizador e produtor do StudioB, em Nova Iguaçu. O sepultamento será no Cemitério Jardim da Saudade de Messquita, Capela 1, 11 horas da manhã do dia 22 de novembro.

Mais do que dono de um espaço, ele foi guardião de um território afetivo onde bandas, fãs e coletivos construíram, por quinze anos, um capítulo inteiro da cultura alternativa do Estado do Rio de Janeiro.

A partida se deu após problemas de saúde, mas o que fica, com força, é a certeza: enquanto houver memória, riff e amizade na Baixada, o nome de Guto seguirá aceso.

Do sonho de dois irmãos ao coração do rock na Baixada

O StudioB nasceu do sonho de dois irmãos apaixonados por rock, Paulo Roberto (Paulinho) e Carlos “Guto Golf” Augusto. Filhos da geração que, desde os anos 1980, lotava bailes, bares e casas de show na Baixada, eles transformaram décadas de vivência na plateia na vontade de erguer um espaço próprio.

Inaugurado em 2010, na Posse, em Nova Iguaçu, o estúdio rapidamente se tornou uma das mais importantes casas de show da região — ponto de encontro, refúgio alternativo e endereço certo da cena independente. Com o tempo, o StudioB se firmou como um dos principais redutos do rock e da cultura underground da Baixada Fluminense, presença constante em agendas, matérias e registros da cena.

Em mais de uma década e meia, o espaço passou por fases, ajustes e mudanças de endereço dentro do próprio bairro da Posse — da época em que constava na Av. Henrique Duque Estrada Meyer, 350, até a fase mais recente, na Rua Engenharia, 30, sempre com a mesma proposta: ser uma “casinha” onde o som alto, a amizade e a liberdade tivessem lugar garantido.

Rádio BFluminense e a parceria com a ComCausa

A trajetória de Guto também se cruza com a história da Rádio BFluminense, projeto que ajudou a renovar o imaginário da famosa “Maldita” para uma nova geração digital. Em 2009, a ComCausa atuou como instituição de retaguarda do projeto junto ao Ministério das Comunicações, garantindo a sustentação institucional necessária para que a rádio se estruturasse e alcançasse mais gente. No alto do prédio que hoje abriga o StudioB, funcionava essa rádio que misturava memória, rock e paixão clubística, e que se tornou mais um capítulo da militância cultural de Guto na Baixada.

O dia em que ele virou “o cara mais brilhante do quartel”

Quem conviveu com Guto tem memórias muito concretas dele “na lida”, mãos sujas de tinta, carregando caixa, ajustando cabo, resolvendo problema no meio da correria. Uma lembrança marcante da reforma para a inauguração do StudioB ajuda a resumir sua entrega: ele apareceu todo sujo de tinta com purpurina, depois de pintar o espaço. Entre a zoeira e o carinho, veio a piada: Guto era “o cara mais brilhante do quartel da Polícia Militar” em que servia à época.

Essa imagem diz muito sobre quem ele foi: um sujeito que, mesmo vindo de rotinas duras, encontrava no StudioB um lugar de brilho, de respiro e de sentido. O estúdio virou extensão do coração do Guto — ali ele não montou só equipamentos, montou sonhos, amizades e futuros possíveis.

Um celeiro de bandas, gerações e histórias

Em 15 anos de atividade, o StudioB recebeu muito mais de mil bandas, entre nomes autorais, tributos, covers e projetos híbridos. Passaram pelo palco grupos de grunge, punk, metal, hard rock, gótico, progressivo, alternativo e misturas de tudo isso. Registros em agendas e matérias mostram o StudioB como palco de noites históricas.

Para além dos títulos e dos cartazes, havia o que Guto sempre destacava nas conversas: ele viu gente crescer, começar a sair de casa para os primeiros shows, namorar, casar, ter filhos — tudo em torno daquele espaço. O StudioB virou marco geracional: lugar onde pessoas se encontravam, se reconheciam e se formavam na cultura alternativa.

Um ponto de cultura de fato – e a luta pelo reconhecimento

Nos últimos meses, a ComCausa – Defesa da Vida vinha em diálogo com Guto para buscar o reconhecimento oficial do StudioB como Ponto de Cultura. A intenção era clara: consolidar o espaço não apenas como empreendimento privado, mas como política pública de cultura, alinhada à economia criativa e às juventudes da Baixada.

A lógica era simples e incontestável: há anos o StudioB funciona como ponto de encontro, formação, memória e circulação artística. É lugar onde bandas nascem, amizades se constroem, histórias são registradas e a cultura alternativa encontra abrigo. Formalizar esse papel, conectando-o a programas de cultura viva, era apenas fazer justiça a uma prática que já acontecia na vida real.

Guto acompanhava essas conversas com atenção e esperança. Continuou montando agendas, articulando festivais, gravando vídeos de chamada, como um mantra: “a casinha tem que continuar”.

StudioB: território de afeto e resistência

A história do StudioB se confunde com a história de uma Baixada Fluminense que se recusa a ser reduzida ao estigma. Em um território frequentemente associado à violência e ao abandono, o estúdio bancado por Guto escolheu contar outras histórias: noites em que jovens periféricos subiam pela primeira vez a um palco; festivais que colocavam lado a lado bandas veteranas e grupos recém-formados, numa verdadeira “passagem de bastão” entre gerações; parcerias com iniciativas como Rock ComCausa, Portal C3, fazendo do StudioB um ator ativo em campanhas, coberturas e ações em rede.

Ao lado de tantos coletivos e movimentos, Guto mostrou, na prática, que a Baixada Fluminense tem produção, público e potência suficientes para sustentar seus próprios circuitos, sem depender exclusivamente dos centros tradicionais. Eu mesmo toquei algumas vezes no StudioB – como no show da banda Cólera, em janeiro de 2012, em memória de Redson, ao lado da Desordem S/A. São lembranças que guardo como tesouro e que ajudam a dimensionar o que aquele palco representava para quem viveu aquelas noites.

Memória, gratidão e compromisso

A morte de Guto Golf abre uma ferida profunda em familiares, amigos, bandas, frequentadores e em toda a cena rock da Baixada Fluminense.

O sepultamento será no Cemitério Jardim da Saudade de Mesquita ( Av. Baronesa de Mesquita, 520 – Cosmorama), a partir das 11 horas da manhã do dia 22 de novembro.

Por fim… nunca pensei que escreveria esta matéria.

NOTA DE PESAR – COMCAUSA

Na manhã de 21 de setembro de 2025, a ComCausa – Defesa da Vida recebeu, com profunda tristeza, a notícia do falecimento de Carlos Augusto, o nosso querido Guto Golf, idealizador e produtor do StudioB, em Nova Iguaçu. Guto foi, ao longo de décadas, uma das figuras centrais da cena rock e da cultura alternativa da Baixada Fluminense, articulando shows, festivais, encontros de moto clubes, ações solidárias e iniciativas que transformaram o StudioB em um verdadeiro ponto de cultura de fato, referência para artistas, coletivos e públicos de diversas gerações.

Em 2009, tivemos a honra de atuar como parceira institucional de Guto, oferecendo retaguarda à então Rádio BFluminense FM, que funcionava no mesmo prédio onde hoje está o StudioB. Juntos, ajudamos a fortalecer uma trajetória marcada pela paixão à música.

Nos últimos meses, a ComCausa vinha em diálogo com Guto para buscar o reconhecimento oficial do StudioB como Ponto de Cultura, conscientes de que o espaço, há 15 anos, exerce papel fundamental na difusão da cultura, na formação de públicos e na valorização das juventudes periféricas.

Em nome da ComCausa, manifestamos nossa solidariedade à família, aos amigos, às bandas e a toda a comunidade que construiu o StudioB junto com Guto. Reafirmamos, também, nosso compromisso em preservar sua memória, dar visibilidade à sua contribuição histórica e seguir lutando para que espaços como o StudioB sejam reconhecidos e apoiados como políticas de cultura e de defesa da vida na Baixada Fluminense.

Guto Golf, presente – hoje e sempre – em cada acorde que ecoar na casinha da Posse e em toda a cena rock da Baixada.

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