A ComCausa Defesa da Vida anunciou que a Jornada de Direitos Humanos 2026 terá como tema central a segurança pública, com ênfase em uma leitura crítica e aprofundada dos dados de violência que atingem as favelas do Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense. A partir de 15 de dezembro, a instituição realizará cinco dias de campanha eletrônica, por meio do Comunicando ComCausa — iniciativa recentemente reconhecida com o Prêmio Periferia Viva, do Ministério das Cidades — e atividades internas, articulando memória, informação qualificada e construção de propostas voltadas à defesa da vida nos territórios populares.
Como parte do processo de preparação para o ciclo de 2026, a ComCausa realizará, nos dias 18, 19 e 20 de dezembro, encontros e um seminário interno de planejamento, com atividades no Rio e na Baixada, voltadas à revisão de prioridades, metodologias e estratégias de incidência pública. A abertura está prevista para ocorrer em um “Café com Ponto” com o tema “Segurança é Defesa da Vida”, no Gato Negro Pub, em São João de Meriti, marcando um momento simbólico de alinhamento interno e reafirmação do compromisso institucional com os direitos humanos.
A proposta da jornada nasce do acúmulo histórico da ComCausa na Baixada Fluminense, reforçado pela atuação mais recente nas favelas do Rio, e da avaliação de que não é possível discutir direitos humanos sem enfrentar, de maneira direta, a realidade de chacinas, execuções, desaparecimentos, encarceramento em massa e a expansão de aparatos de controle que incidem, de forma desproporcional, sobre populações negras e periféricas. Em vez de tratar a segurança pública apenas como pauta emergencial, a instituição escolhe colocá-la como eixo estruturante de sua agenda para 2026.
Uma semana de jornada: dados, escuta e reposicionamento estratégico
A Jornada começa em 15 de dezembro com um primeiro momento dedicado à análise de dados e à sistematização de informações sobre violência letal, letalidade policial, desaparecimentos, perfil das vítimas e impactos sobre famílias e comunidades. A proposta é cruzar fontes distintas — estatísticas oficiais, pesquisas acadêmicas, relatórios de organizações de direitos humanos e narrativas produzidas nos próprios territórios — para construir uma leitura que não se limite a números, mas revele padrões, estruturas e responsabilidades do Estado.
Ao longo dos dias de campanha, a ComCausa pretende articular o levantamento de dados com a experiência concreta em territórios como a Baixada Fluminense e diferentes favelas do Rio — incluindo referências de atuação e escuta em áreas como Penha e Complexo do Alemão — incorporando ainda o acúmulo de articulações em rede, como a iniciativa “146 vezes favela”, coordenada pela Fiocruz, da qual a ComCausa faz parte. A jornada funcionará também como um processo de reposicionamento estratégico: a partir da análise da realidade, a instituição atualizará prioridades e linhas de ação para o ciclo de 2026, mantendo como horizonte a segurança pública como política de proteção, cuidado e garantia de direitos.
Segurança pública como pauta de defesa da vida, e não de guerra
Ao eleger a segurança pública como eixo da Jornada de Direitos Humanos 2026: Segurança e Defesa da Vida, a ComCausa reafirma uma compreensão construída por movimentos, pesquisadores e coletivos de favela: não há democracia possível onde a garantia de direitos é substituída por operações letais, onde a presença do Estado se resume à violência, e onde famílias e juventudes vivem entre o medo e o luto.
A jornada não pretende tratar a segurança pública como assunto restrito a especialistas ou gabinetes, mas como pauta atravessada pela vida cotidiana de quem mora nas periferias: sonhos interrompidos, rotinas alteradas por operações, escolas esvaziadas e projetos de vida pressionados por uma lógica permanente de risco. Ao mesmo tempo, a ComCausa pretende iniciar um diálogo mais estruturado com trabalhadores da área de segurança, reconhecendo que muitos também são moradores de periferias e igualmente enfrentam a violência, inclusive sob pressões institucionais que, muitas vezes, reforçam ciclos de morte.
Análise de dados como ferramenta política e pedagógica
Um dos diferenciais da Jornada será transformar dados em ferramenta política e pedagógica. Isso significa olhar para números de homicídios, chacinas, desaparecimentos, abordagens, prisões e outras violências — incluindo recortes que atingem mulheres, adolescentes e jovens — e contextualizar esses indicadores na realidade de territórios concretos.
A proposta é organizar painéis internos de leitura de dados para responder perguntas decisivas: quem morre, onde morre, como morre e quem decide as políticas que produzem esses cenários? A partir dessa leitura, a ComCausa pretende fortalecer sua capacidade de produzir conteúdos, relatórios e propostas de política pública que não apenas denunciem, mas indiquem caminhos de mudança: do fortalecimento de políticas sociais à revisão de protocolos de atuação, passando por atendimento às famílias e proteção de defensores de direitos humanos.
Roda de conversa interna com trabalhadores da segurança
Um dos momentos centrais será a roda de conversa interna prevista para a quarta-feira, em São João de Meriti, no Gato Negro Pub, reunindo trabalhadores e trabalhadoras da área de segurança. A proposta é criar um espaço protegido de escuta e diálogo com profissionais de diferentes frentes — policiais civis e militares, guardas municipais, agentes socioeducativos, trabalhadores do sistema prisional, vigilantes e profissionais de segurança privada — para ouvir experiências, limites, dilemas e críticas às estruturas em que atuam.
O encontro, mediado pela ComCausa, busca construir pontes e reforçar a tese de que mudanças reais na segurança pública exigem transformação institucional, revisão de práticas e uma cultura de cuidado tanto com a população quanto com quem está na linha de frente.
Entre Baixada e favelas do Rio: uma agenda metropolitana de defesa da vida
A Jornada de Direitos Humanos 2026 também afirma uma perspectiva metropolitana. A Baixada Fluminense permanece como território de origem e enraizamento da ComCausa, mas a ampliação da presença nas favelas do Rio e o diálogo em rede deixam claro que a violência não respeita fronteiras administrativas. As mesmas lógicas de extermínio, criminalização e abandono recaem sobre corpos e comunidades que circulam entre Baixada e capital.
Ao organizar campanha, análise de dados e encontros internos — incluindo a roda de conversa com trabalhadores da segurança — a ComCausa – Defesa da Vida sinaliza que 2026 será um ano de aprofundamento dessa agenda: disputar narrativas, incidir sobre políticas públicas, fortalecer redes de proteção, apoiar famílias atingidas pela violência e reafirmar, em cada ação, que segurança pública não pode ser sinônimo de morte, mas de direitos, justiça e dignidade para quem vive nas periferias e favelas do Rio e da Baixada Fluminense.
Imagem de capa ilustrativa
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