Marcha das Mulheres Negras reúne milhares em Brasília por reparação e bem viver

10ª Marcha das Mulheres Negras do RJ. Mulheres negras marcham contra o racismo e pelo bem viver, na praia de Copacabana. - Tânia RêgoAgência Brasil

Brasília recebe hoje a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que toma a Esplanada dos Ministérios nesta terça-feira (25) com a participação de milhares de mulheres negras de todas as regiões do país e de mais de 40 nações. A mobilização marca os dez anos da histórica marcha de 2015 e deve reunir mais de 100 mil participantes na luta contra o racismo, o sexismo e a violência de Estado.

A Primeira Marcha Nacional das Mulheres Negras levou cerca de 50 mil mulheres às ruas da capital federal. Uma década depois, caravanas chegam novamente para reafirmar a defesa por dignidade, democracia e justiça social. As organizações lembram que as mulheres negras formam o maior grupo populacional do país — mais de 60 milhões de brasileiras — e continuam enfrentando os piores indicadores de renda, saúde, violência e acesso a direitos.

A programação oficial começou às 9h, com sessão solene no Congresso Nacional. Às 10h, as manifestantes iniciaram a caminhada pela Esplanada. Para encerrar o dia, às 19h30, representantes da marcha serão recebidas pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, para apresentar demandas urgentes relacionadas à segurança pública — entre elas, respostas institucionais após a chacina na Penha, no Rio de Janeiro.

1. O QUE É A MARCHA DAS MULHERES NEGRAS

A Marcha das Mulheres Negras nasce da articulação de organizações, coletivos, comunidades quilombolas, religiosas de matriz africana, trabalhadoras domésticas, juventudes periféricas, mulheres indígenas e tantas outras sujeitas que carregam nas costas o país – e, ao mesmo tempo, são as que mais sofrem com o racismo estrutural, o sexismo, a LGBTfobia, o desemprego e a violência de Estado.

Ela se estrutura como um movimento nacional, com núcleos em vários estados, que organiza atos, jornadas de formação, campanhas de comunicação, incidência institucional e, em momentos emblemáticos, grandes marchas de rua – especialmente em 18 de novembro (data simbólica da Marcha Nacional em Brasília, em 2015) e em 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

2. A MARCHA NACIONAL DE 2015 – UM MARCO NA HISTÓRIA

Em 18 de novembro de 2015, cerca de 50 mil mulheres negras de todo o país ocuparam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, na 1ª Marcha das Mulheres Negras – Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver.

Caravanas saíram de capitais, periferias, quilombos e comunidades rurais. Nas faixas e cartazes, três eixos centrais orientavam as reivindicações:

Contra o racismo – denúncia do genocídio da juventude negra, da violência policial e da desigualdade no acesso à saúde, educação, moradia e trabalho decente.

Contra o sexismo e a violência machista – feminicídio, violência doméstica, assédio, exploração sexual e tentativas de retrocesso em direitos sexuais e reprodutivos foram pautas centrais.

Pelo bem viver – conceito inspirado em cosmovisões africanas e indígenas, defendendo um modelo de sociedade baseado no cuidado, na partilha, no respeito à natureza, na espiritualidade e na justiça social.

A Marcha também se tornou um marco internacional ao denunciar a situação das mulheres negras no Brasil, que respondem por grande parte das vítimas de homicídios e permanecem entre as mais pobres, precarizadas e sobrecarregadas pelo trabalho de cuidado não remunerado.

3. DO MARCO NACIONAL À FORÇA DOS TERRITÓRIOS

Após 2015, a Marcha das Mulheres Negras se ampliou pelos estados e municípios. Na prática, isso significou:

  • marchas anuais em capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Recife e outras;
  • criação de coletivos locais e estaduais da Marcha;
  • construção de agendas permanentes: seminários, rodas de conversa, formação política, campanhas nas redes e incidência em conselhos e conferências de políticas públicas.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a Marcha das Mulheres Negras do Estado chega à sua 10ª edição, levando milhares de mulheres à orla de Copacabana com palavras de ordem como:
“Não basta ser mulher, tem que ser de luta”,
“O lugar da mulher preta é onde ela quiser”
e “Mulheres negras unidas contra todas as formas de opressão”.

A presença das mulheres negras nas ruas – muitas vezes acompanhadas de filhos, netos, compas de terreiro, coletivos culturais e organizações de direitos humanos – reforça que não existe democracia sem enfrentar o racismo e o patriarcado.

4. PAUTAS CENTRAIS DA MARCHA

A Marcha das Mulheres Negras articula uma ampla plataforma política. Entre os eixos mais recorrentes:

1. Enfrentamento ao genocídio da população negra

  • Fim da guerra às drogas, que militariza favelas e periferias.
  • Mudança na política de segurança, com centralidade na vida e responsabilização do Estado por chacinas e execuções.

2. Combate à violência contra as mulheres

  • Feminicídio, estupro, violência doméstica e obstétrica.
  • Defesa e fortalecimento da Lei Maria da Penha, da Lei do Feminicídio e da rede de enfrentamento à violência.

3. Direito ao trabalho e à renda com dignidade

  • Valorização do trabalho doméstico e de cuidado, majoritariamente realizado por mulheres negras.
  • Políticas de emprego, economia solidária, empreendedorismo negro e economia criativa.

4. Saúde integral da população negra

  • Implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.
  • Atenção aos impactos do racismo na saúde mental das mulheres negras.

5. Educação antirracista e feminista

  • Implementação efetiva das Leis 10.639/03 e 11.645/08.
  • Combate ao racismo e ao sexismo na escola, no currículo e no cotidiano.

6. Liberdade religiosa e respeito às tradições de matriz africana

  • Enfrentamento da intolerância religiosa e da violência contra terreiros, lideranças e comunidades de fé.
  • Reconhecimento da centralidade das ialorixás e lideranças espirituais na proteção da vida comunitária.

7. Representação política e poder

  • Mais mulheres negras em espaços de decisão — parlamentos, conselhos, governo, universidades e meios de comunicação.
  • Fortalecimento da participação social e do controle democrático das políticas públicas.

Nesse conjunto de pautas, iniciativas de direitos humanos como a ComCausa – Defesa da Vida e outras organizações comunitárias dialogam diretamente com os princípios da Marcha, ao fortalecer memória, identidade, economia da cultura e protagonismo das mulheres negras nas periferias.

5. CORPO, ESPIRITUALIDADE E CULTURA COMO LINGUAGEM POLÍTICA

Uma marca fundamental da Marcha das Mulheres Negras é a forma como corpo, estética, arte e espiritualidade se tornam linguagem política:

  • turbantes, tranças, vestidos coloridos, estampas africanas, grafites e bandeiras;
  • rodas de capoeira, maracatu, jongo, funk, slam, rap e samba;
  • cantos de terreiro, rezas, rezadeiras, benzedeiras, ialorixás, mães e avós que conduzem rituais de abertura e encerramento.

Não se trata de “folclore”, mas de afirmar um projeto de bem viver, no qual cultura, afeto, ancestralidade e política caminham juntas. A marcha é, ao mesmo tempo, ato político, rito coletivo e espaço de formação.

6. IMPACTOS CONCRETOS E DISPUTA DE NARRATIVA

Desde sua consolidação, a Marcha das Mulheres Negras:

(O trecho final estava interrompido no original. Se quiser, posso completá-lo com base em fontes públicas e no histórico da Marcha.)

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