Há trajetórias que não cabem num currículo e nem se deixam reduzir a cargos. A história do Padre Geraldo João de Lima é desse tipo: ela se mede pelo que ficou de pé quando a vida apertou — ocupações de terra ao amanhecer, círculos de oração com “a linguagem do povo”, reuniões de Igreja em que ele insistia em levantar bandeiras sociais, e a coragem de dar testemunho público sobre a ditadura militar quando o país ainda disputava o próprio direito de lembrar.
Nascido em 16 de janeiro de 1937, em Bom Jardim (RJ), Padre Geraldo construiu parte decisiva da vida sacerdotal na Diocese de Nova Iguaçu e faleceu em 7 de julho de 2018. Dois dias depois, foi sepultado na crípta da Catedral de Santo Antônio, após missa de corpo presente celebrada às 8h, com presidência de Dom Luciano Bergamim e concelebração de bispos e diversos presbíteros.
Onde começou: seminário cedo, ministério longo, “um vigor juvenil”
A nota nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) registra que Geraldo entrou no Seminário Diocesano de Petrópolis em 22 de março de 1949 e foi ordenado em 1964, por Dom Cintra (há divergência de data em registros públicos: alguns citam 20/06, outros 29/06).
A CPT também relata que, em 2014, ao se aproximar dos 50 anos de vida sacerdotal, Padre Geraldo escreveu sobre a decisão de fazer um ano sabático, com o desejo explícito de voltar a comunidades por onde passou e celebrar com elas — incluindo referências a experiências na Prelazia de Altamira (PA), na Diocese de São Gabriel da Cachoeira e até em San Carlos, na Nicarágua.
No texto publicado pela Diocese de Petrópolis, aparece um retrato afetivo repetido por diferentes vozes: ele era visto como “defensor dos pobres e da terra” e, ao mesmo tempo, “amigo da juventude”, alguém que “se negou a envelhecer” por dentro e manteve “vigor juvenil” até os últimos anos.
Antes de Nova Iguaçu: Petrópolis, Bemposta, Catedral e Suruí
Antes de se fixar na Baixada Fluminense, Padre Geraldo atuou na Diocese de Petrópolis como diácono e sacerdote em diferentes frentes pastorais: Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Bemposta), Paróquia Nossa Senhora do Rosário (Petrópolis), Catedral São Pedro de Alcântara e Paróquia São Nicolau (Suruí).
Esse dado importa porque ajuda a entender uma marca do padre: ele não construiu “carreira”, construiu enraizamento. Onde chegava, parecia sempre se perguntar: “quem está ficando para trás quando a Igreja fecha as portas?” — e então ia para onde a dor estava.
A Baixada Fluminense como lugar de missão: Igreja popular, ecumenismo e redes
A lembrança pública de Padre Geraldo é inseparável de uma constelação de redes e movimentos. Um texto memorialista (que também reproduz depoimentos circulando na Diocese) lista as frentes às quais ele esteve ligado: movimentos inter-religiosos e ecumênicos, Associação de Presbíteros Diocesana e Nacional (como sócio fundador), Fraternidade dos Padres Charles de Foucauld, CPT, MST, e ainda iniciativas de economia solidária, bioenergética e rádios comunitárias, além de articulações como Movimento Candelária Nunca Mais e outras lutas na Baixada e no estado do Rio.
Esse ecossistema explica por que a morte de Padre Geraldo mobilizou tanta gente fora do circuito “estritamente eclesial”: havia ali uma figura ponte — capaz de transitar entre paróquia, ocupação, universidade, reunião de base, articulação ecumênica, formação de juventudes, rádio comunitária, e voltar para a celebração com a mesma coerência.
CPT e MST: “a luta pela terra é um direito sagrado”
A nota da CPT é definitiva em uma frase: Padre Geraldo proclamava que “a luta pela terra é um direito sagrado” e, mais do que proclamar, viveu isso como prática pastoral. Para entender o peso dessa vinculação, vale registrar o que a própria CPT afirma sobre si: ela nasceu em junho de 1975, em Goiânia, convocada pela CNBB, em plena ditadura, como resposta à situação de trabalhadores rurais, posseiros e peões — e com o tempo assumiu caráter também ecumênico, incorporando agentes de outras igrejas cristãs.
Já o MST, na nota de pesar, descreve Padre Geraldo como alguém que fortalecia ocupações com “mística matinal”, construindo orações “com a linguagem do povo sem-terra”, valorizando a simplicidade e a beleza da vida partilhada, inclusive em agradecimento à “mãe terra”. Quando se diz, portanto, que ele lutou por “Terra, Teto e Trabalho”, não é slogan: é método. É estar presente onde há fome de chão, medo de despejo, violência no campo, precarização urbana — e insistir, com fé e política, que dignidade é direito.
Ditadura, Igrejas e o direito de lembrar: o depoimento na CNV/CEV-RJ
Padre Geraldo não ficou apenas na memória comunitária. Ele também entrou na memória institucional da democracia brasileira quando prestou depoimento em audiência pública sobre o “Papel das Igrejas durante a Ditadura”, no auditório da CAARJ, no centro do Rio. Esse tipo de audiência se articulou ao trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada por lei e instituída em 16 de maio de 2012, com a finalidade de apurar graves violações de direitos humanos no período de 1946 a 1988.
No Rio de Janeiro, o estado também instituiu sua comissão: o Relatório Final da Comissão da Verdade do Rio (CEV-Rio) registra que ela foi criada pela Lei 6.335/2012 e iniciou seus trabalhos em 2013, com apoio e estrutura ligados à OAB/CAARJ em diversos momentos.
Na cobertura do depoimento, Padre Geraldo destacou a resistência da Diocese de Nova Iguaçu durante a ditadura e lembrou a atuação de Dom Adriano Hypólito, que abrigou perseguidos, organizou mobilizações e sofreu agressões. E aqui entra um dos episódios mais brutais da história recente da Igreja no Brasil: um dossiê do Repositório da UFRRJ (RIMA) registra que, em 22 de setembro de 1976, Dom Adriano foi sequestrado, espancado e abandonado despido, com o corpo pintado de vermelho, em Jacarepaguá — e que seu carro foi levado e destruído numa explosão nas proximidades da CNBB, na Glória.
Não é detalhe de passado: é uma lembrança concreta de como a violência de Estado atingiu também agentes religiosos quando a fé se colocava ao lado dos direitos humanos. Para quem quer acessar os registros diretos da audiência, há uma playlist pública com vídeos do GT Igrejas no Rio, incluindo o depoimento de Padre Geraldo em duas partes.
A despedida na Catedral: luto coletivo, liturgia e povo
O texto da Diocese de Petrópolis é minucioso sobre o rito final: além da missa de corpo presente e do sepultamento na crípta, registra o impacto comunitário — homenagens durante o domingo e a manhã seguinte, e o reconhecimento de que a Igreja “perdeu um grande sacerdote”.
Também ficou registrada uma memória simples, porém poderosa: uma canção de “bom dia” lembrada por um fiel como assinatura cotidiana do padre — quase uma forma de dizer que a esperança precisa ser repetida diariamente, como disciplina espiritual. E, em homenagens publicadas em redes sociais e posts memoriais, aparece o mantra associado a ele, frequentemente citado assim: “Deus é amor, arrisquemos viver por amor. Deus é amor, ele afasta o medo.”
O que Padre Geraldo deixa como legado “prático”
Há um risco comum quando se fala de figuras como Padre Geraldo: transformar tudo em santinho e perder o concreto, como se o que ele viveu fosse apenas uma memória bonita — e não um método de ação. O legado dele, no entanto, tem pontas muito objetivas, quase como um manual silencioso de compromisso público.
Primeiro, a ideia de Igreja como presença: não apenas celebrar e falar de amor em abstrato, mas estar onde o povo organiza a vida real, onde a luta acontece, onde a dor aparece sem maquiagem — ocupações, comunidades, reuniões de base, espaços de conflito — sem medo de se colocar ao lado de quem sofre. Em seguida, um ecumenismo de chão, que não se limita a cerimônias e fotos, mas entende o diálogo inter-religioso e ecumênico como prática cotidiana de rede, como construção de pontes no território para proteger pessoas, abrir caminhos, mediar tensões e somar forças quando a violência tenta isolar.
Soma-se a isso o eixo dos direitos humanos como compromisso pastoral: a coragem de depor sobre a ditadura e a perseguição a religiosos mostra que fé também pode ser arquivo, evidência e denúncia, uma forma de dizer publicamente “isso aconteceu” quando o poder prefere o silêncio. E, por fim, a dimensão mais prática do cotidiano: economia solidária e comunicação comunitária. Quando se fala de rádio comunitária, bioenergia e economia solidária, não é ornamento do discurso — são ferramentas de autonomia, renda, circulação de informação e dignidade, formas concretas de proteger a vida, fortalecer comunidades e sustentar esperança com trabalho coletivo.
Por que lembrar agora: memória como justiça, não como saudade
Padre Geraldo pertence a um capítulo da Baixada Fluminense que é, ao mesmo tempo, espiritual e político: o capítulo em que a Igreja (ou parte dela) ajudou a construir comunidade, direito, proteção, coragem e organização popular em tempos de violência — na ditadura e depois dela. A ComCausa – Defesa da Vida entende que preservar esse tipo de memória é uma forma de defesa concreta: porque um território que reconhece seus defensores também reconhece seus direitos.
Durante o depoimento ele recordou a resistência da Diocese de Nova Iguaçu durante a ditadura, lembrando Dom Adriano Hypólito que por defender os direitos humanos foi sequestrado, torturado e largado nu pintado de vermelho na praça, destacou também padre Agostinho Pretto que foi preso e torturado em favor dos trabalhadores e trabalhadoras, veio para o Rio de Janeiro e não foi acolhido por Dom Eugenio Salles por causa da ditadura militar, mas foi acolhido por Dom Adriano, e amigo do Pe. Geraldo.
O corpo do padre Geraldo foi velado na Catedral de Santo Antônio com a presença de fies e do clero não só da Diocese de Nova Iguaçu, mas de todo estado do Rio de Janeiro, nas exéquias presidida por Dom Luciano Bergamin ele lembrou que ele gostava de rezar e “tinha espirito de oração, não só com ´palavras” e recordou a música preferida do Padre Geraldo, um mantra que ele entoava “Deus é amor, arrisquemos viver por amor, Deus é amor, ele afasta o medo. ”