Lançamento de “Nosso Jeito de Celebrar” homenageia os Pretos Novos e entroniza São Benedito 

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Esta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, foi de emoção e densidade histórica na Zona Portuária do Rio. Na sede do Instituto de Memória e Pesquisa Pretos Novos (IPN), a celebração pelos 30 anos do Instituto ganhou forma em um encontro que misturou palavra, rito, memória e compromisso público: o lindo e emocionante lançamento da nova edição do livro “Nosso Jeito de Celebrar – Com uma Igreja em Saída”, assinado por Frei Athaylton Jorge Monteiro Belo (Frei Tatá) e Maria Adelaide de Deus, publicado pela Editora Nandyala, de Belo Horizonte.  

Mas a tarde não foi “apenas” literária. Ela foi também simbólica e ancestral. A programação reuniu homenagens aos Pretos Novos, africanos recém-chegados, vitimados pelo tráfico e pela violência colonial, muitos deles jovens, arrancados da vida antes mesmo de tocar a cidade como gente, tratados como “carga” até depois da morte e marcou a entronização da estátua de São Benedito, gesto que, no território da Pequena África, fala de devoção popular, pertencimento negro e resistência espiritual. 

Um território onde a história não é metáfora: é chão 

O IPN existe porque, em 1996, uma obra doméstica na Gamboa expôs aquilo que o Brasil tentou soterrar por décadas: o Cemitério dos Pretos Novos, com restos mortais de africanos escravizados recém-desembarcados, um capítulo brutal do sistema escravista que funcionava ao redor do Valongo. Pesquisas arqueológicas e acadêmicas passaram a atuar ali, justamente para romper o silêncio imposto pela especulação e pelo apagamento.  

Ao longo do tempo, o Instituto se consolidou como museu-memorial, referência educativa e espaço de denúncia: não só para lembrar, mas para afirmar que memória é direito e que sem memória não há justiça, nem cidade democrática. 

Quantos são os Pretos Novos? O número varia e isso também revela o apagamento 

Falar de Pretos Novos, no IPN, é encarar números que doem. Registros oficiais indicam 6.122 sepultamentos entre 1824 e 1830, mas estimativas de pesquisadores e instituições apontam que o local pode ter reunido de 20 a 30 mil pessoas (ou mais), revelando o tamanho do horror e, ao mesmo tempo, a profundidade do apagamento histórico.  

O dado que atravessou o encontro de que muitos eram jovens, na faixa de 13 a 20 anos, vitimados no desembarque ou ainda no navio, e que há estimativas mais amplas falando em dezenas de milhares de remanescentes, foi lembrado como parte dessa mesma ferida: quando a documentação falha e o Estado historicamente se omite, a memória do povo e a ciência ficam encarregadas de reconstruir o que a violência tentou tornar invisível. 

São Benedito entronizado: fé negra como linguagem de dignidade 

A entronização de São Benedito, santo popular de forte devoção entre comunidades negras, foi tratada como gesto de reconhecimento, não de ornamento. No IPN, ela dialoga com a tradição de irmandades, com a presença histórica de catolicismos negros e com a defesa da liberdade religiosa como parte da democracia, especialmente num país que ainda convive com intolerância e racismo religioso. 

No coração do circuito da herança africana do Rio, que inclui referências como o Cais do Valongo, a cidade é lembrada do que deve à população negra: não “homenagem”, mas reparação, educação e política pública.  

O livro: “Nosso Jeito de Celebrar” como partilha, cultura e Igreja em saída 

A nova edição de “Nosso Jeito de Celebrar” chegou como uma obra de resiliência e partilha. Ao propor uma espiritualidade e uma liturgia que reconhecem a experiência negra brasileira, o livro confronta padrões eurocêntricos e reivindica o óbvio que tantas vezes foi negado: a cultura negra não é “apêndice”, é fundamento do Brasil.  O lançamento, no IPN, reforçou esse ponto com força: celebrar, naquele território, não é esquecer a dor; é afirmar que a dignidade é maior do que a tentativa histórica de desumanização. 

Presenças que somam: Lia Vieira e Mônica Lima e Souza 

Entre as pessoas queridas destacadas pelos presentes estiveram a Professora Lia Vieira e a Professora Mônica Lima e Souza, diretora-geral do Arquivo Nacional e historiadora com trajetória dedicada a temas ligados à África, à diáspora e ao patrimônio documental. 

No encontro, também foi lembrado que Mônica teve participação importante em processos de salvaguarda e reconhecimento patrimonial vinculados ao território e às memórias negras, porque memória não se preserva “sozinha”: depende de decisão política, técnica, disputa pública e coragem institucional. 

Por que isso importa agora?

Num tempo em que o racismo tenta se disfarçar de “normalidade”, e em que a violência simbólica continua operando por apagamentos, o IPN lembra que o Brasil não pode negociar com a amnésia. E lembra, também, que políticas de memória não são “passado”: são um jeito de proteger o presente e o futuro, especialmente para juventudes negras, para comunidades periféricas e para quem ainda vive as consequências sociais da escravidão. 

Celebrar 30 anos, ali, é dizer que a cidade pode até mudar a paisagem, mas não tem o direito de apagar os mortos, nem de abandonar os vivos. 

Imagem de capa: Lançamento do livro “Nosso Jeito de Celebrar” no IPN.

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