Memorial em homenagem a Moïse Kabagambe é inaugurado na Barra

Moïse Kabagambe | Foto: Redes sociais | ComCausa

Foi inaugurado nesta segunda-feira (30), na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, um memorial em homenagem ao congolês Moïse Kabagambe Kabagambe, morto de forma brutal em 24 de janeiro de 2022. O busto foi instalado no quiosque Dumar, localizado a poucos metros de onde Moïse foi espancado até a morte após cobrar três dias de pagamento pelo trabalho prestado no quiosque Tropicália.

A cerimônia, marcada pela presença de familiares, autoridades, defensores públicos e representantes de movimentos sociais, integra o conjunto de medidas previstas na ação indenizatória movida pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) em nome da família da vítima. O ato simbólico ocorreu no dia 30 de junho, data que marca a independência da República Democrática do Congo, país de origem de Moïse — um gesto que confere ainda mais profundidade histórica e política ao momento. O memorial, além de um espaço de homenagem, é também um marco de denúncia: um lembrete permanente de que a vida de pessoas migrantes, negras e pobres ainda vale menos diante da estrutura excludente da sociedade brasileira.

Moïse: um nome que virou símbolo

Moïse Kabagambe tinha apenas 24 anos quando sua vida foi brutalmente interrompida. A violência, registrada por câmeras de segurança, comoveu o país e gerou repercussão internacional, colocando em evidência o racismo e a xenofobia estrutural que permeiam a realidade de milhares de imigrantes no Brasil — especialmente os vindos do Sul Global. O jovem congolês veio ao Brasil em busca de oportunidades e segurança, mas encontrou precarização, invisibilidade e, por fim, a morte.

Desde então, seu nome passou a representar mais do que uma tragédia pessoal: tornou-se símbolo de luta contra o ódio ao estrangeiro, contra a exploração do trabalho informal e contra o descaso institucional com vidas migrantes.

Xenofobia: o preconceito institucionalizado

A xenofobia no Brasil vai além da hostilidade explícita — ela está embutida em discursos, políticas públicas insuficientes e na ausência de garantias de cidadania plena. Trata-se de uma rejeição sistemática ao “outro”, ao diferente, que se agrava quando a figura do migrante está associada à pobreza, à negritude e à origem africana ou latino-americana.

É preciso compreender que a xenofobia não se limita a ofensas ou agressões. Ela se expressa também quando imigrantes têm seus diplomas ignorados, enfrentam obstáculos para regularização, são tratados como ameaças em discursos políticos ou têm negado o acesso a serviços públicos. Pessoas negras vindas do Haiti, do Senegal ou do Congo enfrentam, além do preconceito contra o estrangeiro, o racismo estrutural que persegue os corpos pretos no Brasil desde a escravidão.

O assassinato de Moïse foi a consequência mais cruel dessa lógica. E o memorial, neste contexto, é mais do que uma estátua: é um grito por justiça, um espaço de memória ativa, um farol contra a naturalização da barbárie.

Memória, justiça e resistência

A construção do memorial foi articulada em parceria com a Orla Rio e a Prefeitura do Rio de Janeiro, como parte de um processo de reparação simbólica, uma resposta à dor da família e um compromisso com a transformação institucional. Segundo a Defensoria Pública, essa é uma das várias medidas que buscam evitar a repetição de tragédias semelhantes. Além do busto, outras ações estão previstas, como suporte psicológico à família e projetos voltados à integração e valorização da população migrante.

Durante a inauguração, familiares de Moïse agradeceram o gesto e reafirmaram que o memorial deve ser um lugar de acolhimento, reflexão e denúncia. A ideia é que o espaço sirva também como ponto de referência para atividades educativas, rodas de conversa e ações culturais ligadas à memória africana, à migração e à luta antirracista.

Caso Moïse Mugenyi Kabagambe

Resistir é manter viva a memória

Neste fim de semana, representantes da ComCausa Defesa da Vida estiveram no Quiosque 1A Portão, em Madureira, ao lado da família de Moïse Mugenyi Kabagambe, reafirmando o compromisso com aqueles que transformam o luto em luta. O espaço, atualmente gerido por seus parentes, tornou-se um ponto de resistência da cultura africana e de enfrentamento às múltiplas formas de exclusão e violência que ainda marcam a sociedade brasileira.

“Estar com a família de Moïse é reafirmar que essa luta não é individual — ela é coletiva, é de toda a sociedade”, destacou Adriano Dias, fundador da ComCausa.

A trajetória de Moïse não pode ser silenciada. Em um país atravessado pela desigualdade racial, pela precarização do trabalho e pela negação sistemática de direitos a pessoas negras, migrantes e periféricas, preservar sua memória é um ato de resistência política. É recusar o esquecimento e enfrentar, com coragem, as estruturas que ainda alimentam a violência e a impunidade.

O busto inaugurado na Barra da Tijuca, como parte das medidas de reparação simbólica, não apaga a dor da perda, mas reafirma que o nome de Moïse permanecerá como símbolo de justiça, dignidade e mobilização. Enquanto houver racismo, xenofobia e silêncio institucional, sua memória continuará sendo um grito por transformação.

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