Em um cenário musical frequentemente associado a tradições rígidas e estéticas conservadoras, a artista baiana Midorii Kido surgiu como uma das iniciativas mais ousadas e originais do rock e do metal independente brasileiro.
Criada pelo cantor e performer Ygor Amaral, a personagem transformou-se, ao longo dos anos, em um projeto artístico que une música pesada, performance drag, ativismo cultural e representatividade LGBTQIA+, conquistando espaço dentro e fora da cena underground.
Mais do que uma banda ou uma persona artística, Midorii Kido tornou-se símbolo de uma geração de artistas que enxergam a arte como instrumento de transformação social e de questionamento dos limites impostos por preconceitos ainda presentes na sociedade brasileira.
O nascimento de Midorii Kido
A história de Midorii Kido começa em Salvador, Bahia. Apaixonado por rock e metal desde a adolescência, Ygor Amaral cresceu influenciado por diferentes vertentes da música pesada. Ao mesmo tempo, desenvolvia interesse pelo universo da performance drag, da teatralidade e da construção de identidades artísticas capazes de desafiar convenções sociais.
Foi a partir dessa combinação que nasceu Midorii Kido.
Em 2019, a personagem começou a ganhar forma dentro da cena alternativa soteropolitana. Frequentando eventos, festivais e shows, Ygor percebeu que havia espaço para uma proposta que unisse o peso do metal à liberdade estética e política da arte drag.
Naquele momento, a simples presença de uma drag queen em ambientes tradicionalmente ocupados por homens cisgênero já representava um desafio aos padrões estabelecidos. O que inicialmente poderia ser visto apenas como uma proposta visual rapidamente revelou uma ambição maior: criar música autoral e ocupar definitivamente o cenário do rock pesado.
A construção de um projeto musical
Durante o período da pandemia da Covid-19, quando o setor cultural enfrentava enormes dificuldades, Midorii Kido encontrou nas redes sociais uma forma de continuar ativa.
Lives realizadas com bandas de diversas regiões do Brasil ajudaram a ampliar contatos e fortalecer relações dentro do underground nacional. Essas conexões acabariam sendo fundamentais para o desenvolvimento do projeto.
Em 2020, Midorii lançou seu primeiro single autoral, marcando oficialmente sua entrada na produção musical independente. O lançamento chamou atenção pela combinação entre vocais agressivos, letras confessionais e uma identidade visual marcante.
Nos anos seguintes, novos trabalhos foram apresentados ao público, consolidando a presença da artista na cena baiana.
A formação da banda
Embora o projeto já existisse como carreira solo, a ideia de transformá-lo em banda começou a amadurecer naturalmente.
Em 2023, Midorii Kido passou a contar com uma formação estável composta por Eltons, na bateria; Paulo, no baixo; e Marciano, na guitarra.
A união dos músicos representou um salto importante para a artista. O trabalho coletivo permitiu o desenvolvimento de novas composições e a construção de uma sonoridade mais ampla, incorporando influências do metalcore, death metal, hardcore e metal alternativo.
A partir desse momento, a banda passou a se apresentar regularmente em casas de shows, festivais e eventos ligados à cena independente baiana.
“Metamorfose”: o trabalho que consolidou a banda
O principal marco dessa fase foi o lançamento do EP “Metamorfose”, considerado o primeiro trabalho oficial de Midorii Kido enquanto banda.
A obra apresenta cinco faixas que transitam entre diferentes influências do metal contemporâneo, sem abandonar a identidade construída desde os primeiros singles.
Segundo Ygor Amaral, as músicas nasceram de experiências pessoais e refletem momentos complexos de sua trajetória. Temas como relacionamentos, rejeição, autoconhecimento, excessos, amadurecimento e reconstrução emocional aparecem ao longo do trabalho.
Faixas como “Stonewall”, referência ao histórico levante que marcou a luta pelos direitos LGBTQIA+, demonstram também a preocupação da artista em conectar experiências individuais a questões sociais mais amplas.
A recepção do EP foi positiva entre seguidores da carreira solo e novos ouvintes, fortalecendo a presença da banda dentro do circuito independente.
Entre a música e a representatividade
A importância de Midorii Kido vai além da produção musical. Em um país que segue registrando altos índices de violência contra pessoas LGBTQIA+, onde mais se matam pessoas trans e onde discursos fascistas de ódio ganharam força nos últimos anos, a presença de uma artista drag liderando uma banda de metal possui um significado simbólico importante.
Historicamente, o rock e o metal sempre abrigaram manifestações de rebeldia e contestação. Porém, esses espaços também reproduziram, em diferentes momentos, comportamentos marcados por machismo, racismo, homofobia e exclusões diversas.
Ao ocupar esses ambientes, Midorii Kido contribui para ampliar a diversidade dentro da cena, demonstrando que o metal pode ser um espaço aberto para diferentes identidades, experiências e formas de expressão. Sua trajetória dialoga com uma geração de artistas que compreendem a música não apenas como entretenimento, mas também como ferramenta de construção cultural e social.
Reconhecimento na cena independente
Ao longo dos últimos anos, Midorii Kido passou a figurar em festivais, entrevistas, matérias especializadas e eventos ligados ao rock e ao metal nacional. A artista participou de apresentações ao lado de nomes relevantes da cena underground e conquistou crescente visibilidade nas plataformas digitais.
Além da música, Ygor também desenvolve atividades ligadas à moda alternativa e ao empreendedorismo, ampliando o alcance da marca Midorii Kido para além dos palcos. Essa atuação multifacetada ajudou a consolidar a artista como uma figura de referência para jovens músicos e performers que buscam construir trajetórias independentes.
Uma nova fase
Nesse ano, Midorii Kido anunciou sua transferência para o Rio de Janeiro e o encerramento da formação atual da banda.
A decisão marca o fim de um ciclo iniciado em Salvador, mas não representa o encerramento do projeto. Em comunicado divulgado nas redes sociais, Ygor Amaral agradeceu aos músicos, ao público e a todos que fizeram parte da caminhada construída na Bahia. Ao mesmo tempo, deixou claro que a história de Midorii Kido está longe de terminar.
A mudança para o Rio de Janeiro abre novas possibilidades de circulação, parcerias artísticas e expansão do projeto em âmbito nacional. O desafio é levar para novos públicos uma proposta artística que combina metal, performance, representatividade e identidade cultural.
Mais do que acompanhar tendências, Ygor Amaral construiu uma linguagem própria, capaz de dialogar simultaneamente com fãs de música pesada, comunidades LGBTQIA+ e públicos interessados em arte independente.
Em um momento de profundas transformações culturais e políticas no Brasil, a história de Midorii Kido demonstra como a música continua sendo um espaço de resistência, criação e reinvenção. E, como sugere o título de seu principal trabalho, a metamorfose continua.
Assista o clipe MIDORII KIDO – METAMORFOSE
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