Polícia divulga lista com 99 mortos identificados nos Complexos da Penha e do Alemão

A maior chacina da história do Rio um dia que não deveria ter existido

A Cúpula da Segurança Pública do Rio de Janeiro divulgou, na manhã desta sexta-feira (31), o balanço oficial da megaoperação conjunta das polícias Civil e Militar realizada na última terça-feira (28) nos Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital. A ação, considerada uma das maiores da história recente do estado, resultou em 121 mortes — sendo 117 suspeitos e quatro policiais — e na prisão de 113 pessoas, além da apreensão de mais de 90 fuzis e uma tonelada de drogas.

Segundo o secretário de Polícia Civil, já foram identificados 99 dos 117 suspeitos mortos. Desse total, 78 tinham histórico criminal, incluindo acusações de homicídio, tráfico e porte ilegal de armas. Quarenta e dois estavam foragidos da Justiça e 39 eram de outros estados: 13 do Pará, 7 do Amazonas, 6 da Bahia, 4 do Ceará, 4 de Goiás, 3 do Espírito Santo, 1 do Mato Grosso e 1 da Paraíba.

Curi afirmou que os Complexos da Penha e do Alemão se consolidaram como o quartel-general nacional do Comando Vermelho (CV).

Chefes da facção mortos na operação

Entre os mortos estão nove chefes do CV em outros estados:

  • Douglas Conceição de Souza (Chico Rato), de Manaus (AM)
  • Diogo Garcez Santos Silva (DG), da Bahia
  • Danilo Ferreira do Amor Divino (Mazola), de Feira de Santana (BA)
  • Francisco Myller Moreira da Cunha (Gringo / Suíça), de Manaus (AM)
  • Wesley Martins e Silva (PP), do Pará
  • Marcos Vinicius da Silva Lima (Rodinha / Brancão / MV), de Itaberaí (GO)
  • Fernando Henrique dos Santos, de Goiás
  • Nelson Soares dos Reis Campos (Cabeludo), do Espírito Santo
  • Ronaldo Julião da Silva (Russo), de Vitória (ES)
  • Principal alvo fugiu

O principal alvo da operação, Edgar Alves de Andrade, o “Doca”, conseguiu escapar. Considerado o maior chefe do CV em liberdade — abaixo apenas de Marcinho VP e Fernandinho Beira-Mar, ambos presos em penitenciárias federais —, Doca é procurado há mais de uma década.

Segundo o secretário de Segurança, o criminoso usou subordinados armados como barreira humana para escapar. O Disque Denúncia oferece R$ 100 mil por informações sobre seu paradeiro.

Doca nasceu em 1970, em Caiçara, mas há divergência se o município é do Rio Grande do Sul ou da Paraíba. Entrou para o tráfico há mais de 20 anos e foi preso em 2007 por tráfico e porte de arma.

Balanço da megaoperação:

  • Mortes: 121 (117 suspeitos e 4 policiais)
  • Presos: 113 (33 de outros estados)
  • Menores apreendidos: 10
  • Armas: 91 fuzis, 26 pistolas e 1 revólver
  • Drogas: cerca de 1 tonelada apreendida

As mortes ocorreram principalmente na Serra da Misericórdia, onde moradores relataram cenas de horror. Corpos foram levados até a Praça São Lucas, no Complexo da Penha, para facilitar o reconhecimento.

Lista completa dos mortos identificados:

  1. Adailton Bruno Schmitz da Silva, 35 anos
  2. Adan Pablo Alves de Oliveira, o Madruga, 28
  3. Aleilson da Cunha Luz Junior, o Madrugadão, 26
  4. Alessandro Alves de Souza, 32
  5. Alessandro Alves Silva, 19
  6. Alexsandro Bessa dos Santos, o Prejudicado, 51
  7. Alisom Lemos Rocha, o Russo / Gordinho do Valão, 27
  8. Anderson da Silva Severo, o Maestro / Uander, 38
  9. André Luiz Ferreira Mendes Junior, o Cabeludo, 22
  10. Arlen João de Almeida, o Terrorista / João, 31
  11. Brendon César da Silva Souza, 25
  12. Bruno Correa da Costa, 30
  13. Carlos Eduardo Santos Felício, 21
  14. Carlos Henrique Castro Soares da Silva, o Soldado, 27
  15. Cauãn Fernandes do Carmo Soares, 19
  16. Célio Guimarães Júnior, 29
  17. Claudinei Santos Fernandes, o CL, 17
  18. Cleideson Silva da Cunha, o Loirinho, 27
  19. Cleiton Cesar Dias Mello
  20. Cleiton da Silva, o Mãozinha, 33
  21. Cleiton Souza da Silva
  22. Cleys Bandeira da Silva, 26
  23. Danilo Ferreira do Amor Divino, o Mazola, 38
  24. Diego dos Santos Muniz, 29
  25. Diogo Garcez Santos Silva, o DG, 31
  26. Douglas Conceição de Souza, o Chico Rato, 32
  27. Eder Alves de Souza, 37
  28. Edione dos Santos Dias, 35
  29. Edson de Magalhães Pinto, o Mangote, 21
  30. Emerson Pereira Solidade, o Piter, 27
  31. Evandro da Silva Machado, 38
  32. Fabian Alves Martins
  33. Fabiano Martins Amancio, 28
  34. Fabio Francisco Santana Sales, 36
  35. Fabricio dos Santos da Silva
  36. Felipe da Silva, o Tíuba, 32
  37. Fernando Henrique dos Santos, 29
  38. Francisco Myller Moreira da Cunha, o Gringo / Suíça, 32
  39. Francisco Nataniel Alves Gonçalves, 48
  40. Francisco Teixeira Parente, o Mongol, 30
  41. Gabriel Lemos Vasconcelos, 23
  42. Gustavo Souza de Oliveira
  43. Hercules Salles de Lima, 24
  44. Hito José Pereira Bastos, o Dimas, 31
  45. Jean Alex Santos Campos
  46. Jeanderson Bismarque Soares de Almeida, o Bis, 33
  47. Jonas de Azeredo Vieira, 29
  48. Jônatas Ferreira Santos, o Joni Visão, 37
  49. Jonatha Daniel Barros da Silva, 18
  50. José Paulo Nascimento Fernandes
  51. Josigledson de Freitas Silva, o Gleissim / Traquino, 34
  52. Juan Marciel Pinho de Souza, 20
  53. Kauã de Souza Rodrigues da Silva
  54. Kauã Teixeira dos Santos, 18
  55. Kleber Izaias dos Santos
  56. Leonardo Fernandes da Rocha, 35
  57. Luan Carlos Dias Pastana, o Luan Castanhal, 35
  58. Luan Carlos Marcolino de Alcântara, o Tubarão, 24
  59. Lucas da Silva Lima, o LK / Pezão, 29
  60. Lucas Guedes Marques, 29
  61. Luciano Ramos Silva, 32
  62. Luiz Carlos de Jesus Andrade, o Zóio, 23
  63. Luiz Claudio da Silva Santos, 28
  64. Luiz Eduardo da Silva Mattos, 21
  65. Maicon Pyterson da Silva, o DJ, 28
  66. Maicon Thomaz Vilela da Silva, o MK, 31
  67. Marcio da Silva de Jesus, 22
  68. Marcos Adriano Azevedo de Almeida, o BC / Beiço / Mateus / Matheus, 32
  69. Marcos Antonio Silva Junior, 25
  70. Marcos Vinicius da Silva Lima, o Rodinha / Brancão / MV, 27
  71. Marllon de Melo Felisberto, o Branquinho / Balão, 28
  72. Maxwel Araújo Zacarias, o Dedão, 38
  73. Michael Douglas Rodrigues Fernandes, 28
  74. Michel Mendes Peçanha, o Diguerra, 14
  75. Nailson Miranda da Silva, o Moju / Mujuzinho, 27
  76. Nelson Soares dos Reis Campos, o Cabeludo, 27
  77. Rafael Correa da Costa
  78. Rafael de Moraes Silva, 31
  79. Ricardo Aquino dos Santos
  80. Richard Souza dos Santos, o Prejudicado, 20
  81. Rodolfo Pantoja da Silva, 28
  82. Ronald Oliveira Ricardo, 25
  83. Ronaldo Julião da Silva, 46
  84. Tiago Neves Reis, 26
  85. Vanderley Silva Borges, 28
  86. Victor Hugo Rangel de Oliveira, 32
  87. Vitor Ednilson Martins Maia, o Ipixuna do Pará, 25
  88. Wagner Nunes Santana
  89. Waldemar Ribeiro Saraiva, o Fantasma, 21
  90. Wallace Barata Pimentel, o Pizza, 27
  91. Wellington Brito dos Santos, 20
  92. Wellinson de Sena dos Santos, 20
  93. Wendel Francisco dos Santos, 24
  94. Wesley Martins e Silva, o PP, 27
  95. Willian Botelho de Freitas Borges, 23
  96. Yago Ravel Rodrigues Rosário, o Ravel do CV, 19
  97. Yan dos Santos Fernandes, 20
  98. Yure Carlos Mothé Sobral Palomo, 23
  99. Yuri dos Santos Barreto, 22

Contexto e repercussão

A operação — que mobilizou cerca de 2.500 agentes e tinha como objetivo cumprir 100 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão — buscava desarticular o comando nacional do Comando Vermelho (CV). Os corpos dos quatro agentes mortos na ação — dois policiais civis e dois militares — foram sepultados com honras de Estado.

A terça-feira que parou o Rio: uma tragédia sem precedentes

Na terça-feira, 28 de outubro de 2025, uma sequência de operações nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão resultou no que organizações, movimentos sociais e veículos de imprensa já classificam como a maior chacina por ação policial da história do Rio de Janeiro. Os balanços preliminares apontam mais de uma centena de mortos e centenas de famílias atingidas. A dimensão da violência e a forma como as ações foram conduzidas provocaram comoção, indignação e protestos em comunidades, redes de direitos humanos e instituições civis.

Relatos de pânico e falta de transparência

Moradores descrevem cenas de desespero: corpos sendo carregados por familiares e vizinhos até praças e unidades de saúde, escolas fechadas, serviços comunitários interrompidos e longas filas no Instituto Médico-Legal para o reconhecimento de vítimas. Organizações de direitos humanos e defensorias públicas denunciam discrepâncias entre os números oficiais e as contagens feitas nas comunidades, além de relatar remoções informais de corpos e falta de transparência sobre o real alcance das operações.

Política de segurança sob críticas

O protagonismo político da ofensiva recai sobre o governador Cláudio Castro, cuja gestão acumula operações com altos índices de letalidade.
A ação de 28 de outubro se soma a outros episódios recentes já marcados por violência extrema. Para uma parcela expressiva da sociedade civil, trata-se da consolidação de uma política de segurança que transforma territórios periféricos em zonas de guerra — onde a vida de moradores pobres vale menos.

Repressão e cálculo eleitoral

Às vésperas das eleições, a combinação entre operações de grande impacto e legislações que premiam a violência é interpretada por movimentos sociais e familiares das vítimas como parte de um cálculo político.
Em vez de políticas públicas voltadas à prevenção, à inclusão e à infraestrutura, o governo aposta na escalada da repressão — convertendo o medo e a dor das periferias em capital político.

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Manifestação na Baixada

Em reação, coletivos, pastorais, associações e redes de defesa dos direitos humanos convocam a população para atos públicos de repúdio, prestação de solidariedade às famílias e exigência de apuração independente dos fatos. A Associação Fórum Grita Baixada e a Rede de Educação Popular convocam a comunidade para o Ato contra a Chacina de Cláudio Castro, nesta sexta-feira (31), às 17h, na Praça dos Direitos Humanos — espaço para memória, denúncia e união em defesa da vida.

A pauta agora é dupla e urgente: responsabilização administrativa, civil e penal dos agentes e autoridades envolvidas; e a revogação ou bloqueio de medidas como a “gratificação faroeste” que, segundo vozes técnicas e jurídicas, podem institucionalizar a impunidade e estimular novos episódios de violência. Organizações de direitos humanos exigem investigação independente, proteção às famílias das vítimas e política de recomposição e cuidado às comunidades atingidas.

Enquanto as respostas institucionais demorarem ou forem insuficientes, moradores e moradoras seguem sob trauma, com direitos básicos suspensos e a sensação de que seu território foi transformado em alvo de uma guerra que não reconhece fronteiras entre civis e combatentes. A exigência — dos movimentos, da sociedade e de quem perde parentes e vizinhos — é clara: basta de chacinas; justiça e políticas que priorizem a vida.

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