Quase 24 mil crianças e adolescentes desapareceram no Brasil em 2025

Crianças desaparecidas

O Brasil registrou 23.919 desaparecimentos de crianças e adolescentes em 2025, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). O número representa uma média alarmante de 66 menores desaparecidos por dia e um aumento de 8% em relação a 2024.

O crescimento reforça a urgência de políticas públicas específicas para proteger a infância e enfrentar esse fenômeno de forma articulada entre estados e União.

Alerta nas estatísticas e na sociedade

Os dados integram o Painel de Pessoas Desaparecidas e Localizadas, alimentado por secretarias de segurança pública estaduais e pelo Distrito Federal. No total, o país contabilizou 84.802 desaparecimentos em todas as idades — o maior número desde o início da série histórica, em 2015.

As taxas mais altas de desaparecimentos entre menores de 18 anos foram registradas em Roraima (40 por 100 mil habitantes), Rio Grande do Sul (28) e Amapá (24), segundo levantamento oficial do Ministério da Justiça.

No Rio de Janeiro, foram registrados 6.331 desaparecimentos em 2025, número que inclui crianças e adolescentes, com taxa geral de 36,76 por 100 mil habitantes.

Casos que comovem o país

Um dos casos que mais mobilizam a opinião pública neste início de 2026 é o desaparecimento dos irmãos Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, em Bacabal (MA). As crianças sumiram em 4 de janeiro, e as buscas completaram quatro semanas nesta segunda-feira (26).

A força-tarefa conta com o apoio do protocolo Alerta Amber — sistema que emite alertas urgentes sobre desaparecimentos de crianças e adolescentes em situações de risco, utilizando plataformas como Facebook e Instagram para difusão em um raio de até 200 km.

Apesar da gravidade dos casos, o protocolo ainda é subutilizado em muitos estados, incluindo o Rio de Janeiro.

Falhas no sistema dificultam localização

Segundo Iara Buoro Sennes, coordenadora nacional de Políticas sobre Pessoas Desaparecidas, o Brasil enfrenta desafios estruturais na gestão desses casos. A baixa taxa de atualização sobre pessoas localizadas contribui para um retrato distorcido e possivelmente inflado do número de desaparecidos.

Além disso, muitas famílias enfrentam barreiras no momento de registrar ocorrências, especialmente quando se trata de crianças que saíram de casa por conflitos familiares ou negligência, mas não são imediatamente tratadas como desaparecidas pelas autoridades.

“Temos avançado com campanhas que estimulam o registro imediato, combatendo o mito de que é preciso esperar 24 horas”, afirma Iara.

Legislação ainda avança lentamente

A Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas foi criada pela Lei 13.812/2019, que define desaparecido como todo ser humano com paradeiro desconhecido, independentemente da causa. A norma também prevê um cadastro nacional e a atuação coordenada entre estados, União, Ministério Público e Judiciário.

Apesar disso, seis anos após sua criação, muitos estados ainda não implementaram plenamente o sistema previsto em lei, e o cruzamento de dados entre unidades da federação continua precário.

Caminhos possíveis

Especialistas e organizações como a ComCausa defendem que é urgente aprimorar o uso do Alerta Amber, garantir a capacitação de agentes públicos para lidar com famílias em sofrimento e investir em bancos de dados integrados e atualizados.

Além disso, campanhas educativas nas escolas e comunidades podem ajudar na prevenção e no reconhecimento precoce de situações de risco que envolvem crianças e adolescentes.

Programa Acolher da ComCausa

A ComCausa realiza, de forma sistemática, duas frentes estruturantes do seu trabalho: Acolher: Desaparecidos e Acolher: Memória e Justiça — com continuidade, calendário e presença territorial.

A ação é organizada a partir de encontros periódicos com familiares, em rodas de conversa e espaços de escuta qualificada, fortalecendo vínculos, oferecendo orientação e apoio, e construindo encaminhamentos práticos junto à rede de proteção e às instituições responsáveis.

As iniciativas integram a trajetória do Programa Acolher, que reúne acolhimento, suporte e articulação institucional, além de promover a memória coletiva e a busca por verdade e justiça para famílias atingidas pela violência e pelos desaparecimentos.

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