Em um contexto marcado por episódios recorrentes de intolerância e violência simbólica — e, não raramente, física — contra expressões religiosas de matriz africana, a cidade de São João de Meriti sediou, na última quinta-feira (8), uma importante plenária inter-religiosa em defesa da liberdade de crença e da convivência respeitosa entre as diferentes manifestações de fé. A atividade integrou a agenda preparatória da 1ª Caminhada Contra a Intolerância Religiosa, programada para o dia 25 de maio, e consolidou mais um passo na construção de uma resposta coletiva e comunitária a um dos problemas mais graves enfrentados hoje pela Baixada Fluminense: a perseguição religiosa.
O evento foi realizado na Casa de Cláudia, tradicional espaço cultural e de acolhimento, situado no coração de Meriti, e reuniu uma diversidade impressionante de vozes e espiritualidades: católicos, evangélicos, umbandistas, candomblecistas, muçulmanos, judeus, espiritualistas e pessoas sem filiação religiosa sentaram-se lado a lado para refletir, escutar e construir caminhos de paz. Em uma região frequentemente estigmatizada pela presença do fundamentalismo armado e pelo silenciamento de práticas religiosas não hegemônicas, a plenária assumiu contornos ainda mais potentes e necessários.
Com caráter nitidamente comunitário, e intencionalmente isenta da presença de autoridades públicas em posição de protagonismo, a atividade reafirmou o papel das lideranças locais, das entidades da sociedade civil e dos movimentos de base como principais articuladores da resistência à intolerância. A organização ficou por conta da Comissão de Direitos Humanos da OAB de São João de Meriti, com apoio de coletivos culturais e religiosos da região.
Entre os participantes, Representando a ComCausa, estava David Souza, jovem muçulmano e membro do Capítulo Demolay São João 253, vinculado à Loja Maçônica Fraternidade Universal 52, situada na própria cidade. David trouxe à plenária a perspectiva do diálogo intergeracional e da importância da juventude como protagonista na superação dos preconceitos enraizados:
“Sou um muçulmano-Sufi, membro da ordem Demolay e compactuo ativamente em movimentos sociais, em busca pelo respeito entre as crenças como um princípio humanista e essencial para a humanidade. Hoje mostramos que a fé, quando guiada pelo amor e pela ética, é uma força unificadora. Ainda mais em nossa região, onde tantos têm sua espiritualidade criminalizada constantemente por preconceitos popularizados”, destacou David Souza.
Proposta da Carta-Compromisso
Durante a plenária, foi apresentada a proposta de criação da Carta-Compromisso pela Liberdade Religiosa na Baixada Fluminense, iniciativa impulsionada pela ComCausa e que será construída de forma coletiva ao longo das atividades. O documento, que será finalizado com base nas contribuições dos participantes, deverá ser amplamente divulgado em escolas, centros culturais, templos e pelas redes sociais, servindo como instrumento de sensibilização, denúncia e mobilização social.
“Este manifesto precisa representar a todos – do padre ao pai de santo, do pastor ao não religioso. Só assim teremos força contra o ódio, contra os ataques aos terreiros, contra as agressões às nossas práticas ancestrais”, afirmou emocionada Maria das Dores, yalorixá da Casa de Cláudia e anfitriã do evento.
Apesar da pouca representação de figuras do poder público municipal e estadual, os organizadores interpretaram essa ausência como sinal de que o movimento deve manter sua autonomia, livre de amarras institucionais que muitas vezes restringem a ousadia das propostas: “Deus é amor e respeito e hoje provamos que isso vai além de diferenças religiosas ou políticas. Aqui, cada um foi ouvido e valorizado. Essa é a espiritualidade que transforma”, declarou o pastor Rogério Soares, participante ativo da construção da carta.
A plenária também estabeleceu desdobramentos concretos e compromissos de médio e longo prazo: a conclusão da carta, a criação de fóruns inter-religiosos permanentes em escolas e territórios da Baixada, e a realização de ações educativas voltadas especialmente à juventude e às comunidades mais vulnerabilizadas. A ideia é transformar cada templo, terreiro, igreja ou mesquita em espaço de acolhimento e escuta — e não de exclusão.
“Este é apenas o início. Seguiremos unidos, de mãos dadas, para fazer de Meriti — e da Baixada Fluminense como um todo — uma referência nacional no respeito à diversidade religiosa. Que a fé nos una, nunca nos separe”, concluiu Ana Paula Nunes, da Comissão de Direitos Humanos da OAB local.
O cenário atual exige vigilância constante: a Baixada tem sido palco de inúmeros ataques a terreiros, intimidações de líderes religiosos e disputas territoriais marcadas por imposições dogmáticas que restringem liberdades fundamentais. Frente a esse panorama, a plenária se mostrou não apenas um encontro simbólico, mas um ato de coragem e resistência. Uma convocação urgente para que todos, independentemente de fé, credo ou ausência de crença, se unam em torno de um princípio básico: o direito de crer, não crer e praticar a espiritualidade em liberdade.
Foto de capa ilustrativa.
Atualzado 12 de maio de 2025.
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