Três em cada dez mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Em 93% dos casos, havia ao menos uma testemunha no momento da agressão. Os dados são do relatório Visível e Invisível – A Vitimização de Mulheres no Brasil, publicado em 2023 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O levantamento reforça que a violência contra a mulher, além de frequente, é muitas vezes silenciosa — não apenas por parte da vítima, mas também de quem presencia. Isso acende um alerta sobre a responsabilidade coletiva no enfrentamento ao problema.
A orientação das autoridades é clara: quem testemunhar qualquer forma de agressão deve denunciar. O canal nacional é o Disque 180, que funciona 24 horas por dia, inclusive nos finais de semana e feriados.
Cultura de paz começa com educação para masculinidades
Especialistas apontam que trabalhar com homens e meninos é essencial para reduzir a violência de gênero. Um dos caminhos é a promoção das chamadas “masculinidades positivas”, que questionam padrões tóxicos e incentivam relações baseadas em respeito, empatia e responsabilidade.
Nesse contexto, a ComCausa — organização que atua na promoção de direitos humanos e da cultura de paz na Baixada Fluminense (RJ) — foi selecionada pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA-ONU) para desenvolver o Núcleo de Masculinidades Positivas.
O objetivo do projeto é promover ações educativas e culturais com homens de diferentes faixas etárias, incentivando reflexões sobre comportamentos violentos e formas de superá-los. O trabalho será desenvolvido em parceria com escolas, comunidades e instituições públicas.
“Trabalhar com homens não significa tirar o foco das vítimas, mas ampliar o enfrentamento. Precisamos mudar o comportamento de quem agride”, explica o idealizador da ComCausa, Adriano Dias.
Denúncia e proteção
A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) estabelece mecanismos de proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Além do Disque 180, estados e municípios contam com delegacias especializadas, casas de acolhimento e centros de referência.
A presença de testemunhas em grande parte dos casos — como indicam os 93% registrados — mostra que muitas pessoas ainda se calam por medo, omissão ou desconhecimento.
Campanhas recentes têm reforçado a importância da denúncia, mesmo por terceiros. “Se você presencia, você participa. O silêncio também mata”, alerta a promotora de Justiça Gabriela Manssur, fundadora do Instituto Justiça de Saia.
Caminhos para transformação
A mudança cultural é fundamental para reduzir os índices de violência. Projetos como o da ComCausa são considerados estratégicos por atuarem na prevenção, antes que a violência aconteça.
Segundo o UNFPA, “promover masculinidades positivas é um passo essencial para a igualdade de gênero e o fim da violência contra meninas e mulheres”.
A expectativa é que o Núcleo criado pela ComCausa se torne referência em ações de transformação social envolvendo homens e garotos em territórios vulneráveis.
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