Padre Nino Miraldi faleceu em 29 de julho de 1990, enquanto atuava como pároco na Paróquia São José Operário, na Baixada Fluminense. Sua presença marcante e dedicação deixaram um legado profundo na região. Conhecido por seu trabalho incansável em prol dos mais pobres e por suas ações transformadoras, Padre Nino é lembrado com carinho e respeito por todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Nascido na Itália, em uma família influente, Padre Nino poderia ter seguido carreiras promissoras, como diplomata ou médico. No entanto, sua vocação religiosa o levou a abandonar essas possibilidades para se dedicar aos marginalizados. Em 1967, ao lado do Padre Sérgio Minardi, ele chegou à Paróquia de Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, e logo se deparou com a dura realidade de uma comunidade marcada pela pobreza. Ambos os padres se dedicaram a organizar a paróquia de maneira participativa, promovendo a integração social e espiritual.
Como pároco da Paróquia Cristo Operário e Santo Cura D’Ars, Padre Nino buscou transformar a realidade local, propondo que Cristo Operário fosse o padroeiro da igreja, em um gesto que simbolizava a aliança entre a fé e a luta pelos direitos dos trabalhadores e marginalizados.
Sua atuação foi além das questões religiosas. Padre Nino foi um dos principais responsáveis pela criação de comunidades católicas na região, incluindo as capelas Bom Pastor, São Sebastião e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Essas capelas se tornaram verdadeiros centros de integração comunitária, oferecendo não apenas missas, mas também suporte social e espiritual.
Um exemplo notável de sua dedicação foi a construção da Capela Bom Pastor, em Catiri. Com poucos recursos e uma comunidade carente, ele ergueu um prédio modesto que se tornou um ponto central para os moradores. Enfrentando a falta de infraestrutura, como água e eletricidade, ele organizou soluções criativas com o apoio da comunidade.
Padre Nino também foi pioneiro na implantação das Comunidades Eclesiais de Base e dos Círculos Bíblicos, que promoviam o estudo do evangelho e a conscientização política. Ele incentivou a criação de sindicatos e associações de moradores, fortalecendo o engajamento cívico e a luta pelos direitos da comunidade.
Em 1980, Padre Nino foi transferido para a Diocese de Nova Iguaçu, onde continuou sua missão na Paróquia São José Operário e na Paróquia Santo Elias, atuando ao lado de Dom Adriano Hipólito, destacando-se pela defesa dos direitos dos mais vulneráveis.
Na Baixada Fluminense, sua atuação foi intensa, especialmente nos bairros de Califórnia, Vila Nova, Santo Elias e Jacutinga. Ele fundou diversas comunidades e promoveu iniciativas importantes, como a “Campanha do Quilo”, que arrecadava alimentos para os mais pobres. Padre Nino também dedicava atenção à formação política e cidadã, promovendo debates sobre a Constituição antes da Assembleia Constituinte de 1988.
Sua proximidade com a população era notável. Ele era frequentemente visto ajudando a qualquer hora do dia ou da noite, seja transportando doentes ou lidando com emergências em áreas violentas. O bairro de Jacutinga, onde ele morava, foi um dos principais focos de sua atuação, e hoje, em sua homenagem, a Associação Cultural Nino Miraldi continua a promover atividades de educação e inclusão social.
Padre Nino não foi apenas um líder religioso, mas um exemplo de dedicação ao próximo. Seu legado permanece vivo, inspirando novas gerações na busca por um mundo mais justo e solidário.
Uma História de Amor e Serviço ao Próximo
Padre Nino Miraldi é lembrado não apenas por sua missão religiosa, mas por suas histórias que aquecem o coração, como a relatada por Jaguar, um fiel que viveu momentos marcantes ao lado do sacerdote.
Em 1974, Jaguar, que não era batizado e pouco frequentava a igreja, recebeu uma visita inesperada. Sua esposa, uma católica fervorosa, não participava da comunhão por não ser casada no religioso, o que chamou a atenção de Padre Nino. Em uma atitude de empatia e diálogo, o sacerdote visitou o casal para conversar sobre a importância da comunhão, sem impor suas crenças a Jaguar, mas mostrando disposição para celebrar o casamento deles, mesmo sem que ele fosse batizado.
A celebração ocorreu de forma inesperada, na sala de estar da casa, em um círculo íntimo com vizinhos e familiares, durante uma reunião bíblica. Esse gesto simples, mas profundo, transformou a vida do casal, marcando um momento de renovação espiritual.
Além do aspecto religioso, Padre Nino era conhecido por sua generosidade. Jaguar recorda com carinho quando presenteou o sacerdote com uma bicicleta para facilitar sua locomoção durante as visitas à comunidade. Para surpresa de todos, Padre Nino doou a bicicleta a um vizinho que precisava mais do que ele, reforçando sua visão de que o serviço ao próximo sempre vinha em primeiro lugar.
Esses relatos são apenas fragmentos do grande legado de Padre Nino, que foi um incansável evangelizador e agente de transformação social na Baixada Fluminense. Ele deixou marcas indeléveis nas comunidades que serviu, mostrando que, para ele, viver o evangelho era, acima de tudo, servir aos outros com amor e generosidade.
As histórias que envolvem Padre Nino continuam a inspirar todos aqueles que tiveram o privilégio de cruzar seu caminho. Ele não apenas construiu capelas e organizou missas, mas também transformou vidas com sua compaixão, oferecendo um exemplo duradouro de fé em ação.
Esses momentos de calor humano mostram que o verdadeiro legado de uma pessoa está nas vidas que ela toca e transforma.
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