Neste 6 de outubro, completam-se mais um ano do falecimento de Padre Agostinho Pretto, figura central da história da Igreja latino-americana e das lutas populares no Brasil. Sua trajetória, que atravessa o século XX, é marcada por coragem, compromisso social e uma espiritualidade encarnada, que fez da fé um instrumento de transformação coletiva.
Nascido em 28 de março de 1924, na cidade de Encantado (RS), Agostinho Pretto cresceu em meio à religiosidade popular e ao ambiente do trabalho rural. Foi ordenado padre em 30 de novembro de 1953, trazendo consigo a sensibilidade para as causas sociais. Desde cedo, engajou-se nas pastorais voltadas aos trabalhadores e jovens, tornando-se assessor nacional e depois latino-americano da Juventude Operária Católica (JOC), movimento inspirado no método ver–julgar–agir, que unia fé, análise crítica da realidade e ação transformadora.
A experiência na JOC fez de Agostinho uma liderança internacional, conectada com operários e militantes de diversos países, tornando-o referência para aqueles que buscavam unir espiritualidade e compromisso com a classe trabalhadora.
Prisão, tortura e resistência à ditadura
Em 1970, no auge da repressão, Padre Agostinho foi preso e torturado pela ditadura militar brasileira, ao lado de outros militantes ligados às pastorais sociais. As sedes da JOC e de outras iniciativas foram lacradas pela polícia, e seus dirigentes, perseguidos. Décadas depois, ao relembrar o período, ele dizia que a prisão havia sido uma “segunda ordenação”:
“A cadeia foi o maior seminário da minha vida.”
Essa experiência radicalizou seu compromisso com os pobres e com a justiça social, transformando-o num dos rostos públicos da Igreja que resistiu à repressão e permaneceu ao lado do povo.
A chegada à Baixada Fluminense e a parceria com Dom Adriano
Em 1974, Padre Agostinho chega à Diocese de Nova Iguaçu, no coração da Baixada Fluminense, para trabalhar ao lado de Dom Adriano Hipólito, bispo símbolo da resistência eclesial. Era um contexto de violência política, marcada pelo sequestro de Dom Adriano (1976) e pelo atentado à bomba na Catedral de Santo Antônio (1979).
Mesmo sob ameaças, Agostinho ajudou a estruturar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), organizou a Pastoral Operária e formou lideranças populares, tornando-se uma das vozes mais firmes da Igreja dos Pobres na região metropolitana do Rio.
Fundador de movimentos e referência nacional
Padre Agostinho não apenas atuou, mas também fundou estruturas permanentes de organização. Foi um dos fundadores da Pastoral Operária no Brasil, tendo ocupado a coordenação nacional por vários anos. Sua presença era constante em fábricas, sindicatos e assembleias populares, onde insistia que a fé cristã não podia estar dissociada da luta por direitos.
Foi também o primeiro presidente da Associação Nacional de Presbíteros do Brasil (ANPB), entidade criada em 1992 para articular e apoiar padres em todo o país. Sua liderança ajudou a consolidar a ANPB como espaço de reflexão crítica, comunhão e defesa do clero diante das mudanças sociais e eclesiais.
Pároco da Catedral e presença marcante na Califórnia
Durante mais de duas décadas, Agostinho foi pároco da Catedral de Santo Antônio, em Nova Iguaçu, tornando o templo um espaço de acolhida e denúncia profética. Nos últimos anos de vida, assumiu a Paróquia São José Operário, no bairro Califórnia, onde manteve intenso trabalho comunitário até sua morte.
Era conhecido por sua simplicidade no trato e firmeza na palavra. Para muitos, era o “padre dos trabalhadores” e, para outros, um verdadeiro “educador popular” que formava consciência crítica sem abandonar a espiritualidade.
Morte e legado
Padre Agostinho Pretto faleceu em 6 de outubro de 2011, aos 87 anos. Seu funeral reuniu bispos, padres, lideranças populares, militantes e autoridades civis, numa demonstração do alcance de sua vida e obra. O governo federal, por meio do então ministro Gilberto Carvalho, divulgou nota oficial reconhecendo sua importância histórica para os direitos dos trabalhadores e para a Igreja no Brasil.
Hoje, sua memória é celebrada anualmente nas comunidades e paróquias da Baixada Fluminense, nas atividades da Pastoral Operária e nos encontros da ANPB. Escolas, centros comunitários e grupos de base preservam seu nome como símbolo de fé encarnada e compromisso social.
Presença que continua
Neste 6 de outubro, ao recordarmos Padre Agostinho Pretto, reafirmamos que sua vida e seu testemunho permanecem vivos. Ele segue inspirando padres, leigos, militantes e cidadãos a unir fé e transformação social, lembrando-nos de que “quem perde a história, perde a memória; e quem perde a memória não volta pra casa”.
Na Baixada Fluminense, no Brasil e na América Latina, a trajetória de Padre Agostinho Pretto é parte da história das lutas populares e da esperança que se renova. Seu nome segue sendo um chamado à consciência crítica, à solidariedade e à justiça social — valores que ainda hoje ressoam nas comunidades que ele ajudou a formar.
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