No dia 4 de janeiro de 2024, a vida de Marize Araújo foi atravessada por um vazio que até hoje permanece sem resposta. Seu filho, Edson Davi Silva Almeida, de apenas seis anos, desapareceu em plena luz do dia, na Praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Desde então, o que era para ser mais uma tarde de férias em família se transformou em uma busca incansável por justiça e verdade.
Naquela tarde de verão, Edson jogava bola com um turista argentino e seus filhos, próximo à barraca onde a família estava instalada. Por volta das 16h54, a brincadeira terminou. Uma testemunha relatou que o menino retornou à barraca, disse algo ao pai e, logo em seguida, correu para uma área próxima — justamente um trecho sem cobertura de câmeras de segurança. A partir daquele momento, ele nunca mais foi visto.
O caso foi inicialmente tratado pela Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) como possível afogamento. No entanto, essa hipótese foi imediatamente contestada pela família. Edson tinha medo do mar, não estava vestido para banho e nenhuma peça de roupa foi encontrada. Além disso, uma perícia técnica independente, contratada por Marize, concluiu que o menino nunca entrou no mar. Segundo ela, tudo leva a crer que seu filho foi vítima de rapto, possivelmente ligado ao tráfico de pessoas.
O mais grave, denuncia a mãe, foi a omissão da polícia ao negligenciar testemunhas essenciais. Uma delas viu o exato momento em que Davi correu em direção ao ponto cego e chegou a alertar o pai. Ainda assim, apesar de dois pedidos formais dos advogados da família, a DDPA se recusou a ouvir esse relato. A delegacia também teria incluído no inquérito depoimentos de pessoas que não estavam no local do fato, mas em horários e situações completamente diferentes, reforçando uma narrativa de afogamento tida como “montada”.
Desde então, Marize se transformou em uma guerreira solitária contra o esquecimento. Organizou atos na praia onde tudo aconteceu, pressionou autoridades, procurou a mídia e lançou apelos públicos para que a Polícia Federal assuma a investigação. Ela afirma que não mantém contato com a polícia desde o segundo mês do desaparecimento, pois perdeu a confiança na condução do inquérito. “Eles me disseram que meu filho ficou preso nas pedras, mas isso não é verdade. Contratei uma perícia séria que provou que ele não entrou no mar. Isso é um fato. Queremos justiça”, desabafa.
Luta por manter a memória
A cada marco temporal — um mês, três meses, seis meses, um ano — a família se reuniu na mesma praia para manter a memória de Edson viva e fazer barulho diante de um silêncio institucional que se torna cada vez mais insuportável. No último dia 25 de fevereiro de 2025, quando Edson completaria oito anos, mais uma vez o aniversário foi marcado por cartazes, orações, gritos por justiça e exigência de que o caso seja transferido para a Polícia Federal, com base na suspeita de rapto e possível envolvimento com redes de tráfico humano.
O que fazer quando alguém desaparece?
A história de Edson Davi escancara um drama muito maior e mais profundo
O desaparecimento de crianças e adolescentes no Brasil. São cerca de 250 mil pessoas desaparecem por ano no país, sendo que pelo menos 50 mil são crianças e adolescentes. Isso significa que uma criança ou jovem desaparece no Brasil a cada 15 minutos. Os dados mais recentes da SaferNet Brasil, da FIA-RJ (Fundação para a Infância e Adolescência) e da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos confirmam a gravidade do problema, com crescimento anual em torno de 10% dos registros de desaparecimentos infantojuvenis.
A maioria desses casos está diretamente associada a contextos de vulnerabilidade social: violência doméstica, conflitos familiares, abuso sexual, adoção ilegal, tráfico de pessoas, exploração sexual ou trabalho escravo. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 46 milhões de pessoas vivem hoje em situação análoga à escravidão, e mais de 40% delas são menores de idade.
Diante de um cenário tão alarmante, o Estado brasileiro criou em 2019 a Lei nº 13.812, que institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas e determina a criação do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, além de estabelecer diretrizes para investigação imediata, integração entre os órgãos de segurança e atualização permanente dos dados. No entanto, ainda são frequentes os relatos de desarticulação, lentidão, falta de prioridade e desrespeito com as famílias — como o que vivencia, dia após dia, Marize Araújo.
Acolher: Desaparecidos
É justamente frente a esse contexto que nasceu o projeto Acolher: Desaparecidos, uma iniciativa dos familiares de pessoas desaparecidas com apoio da ComCausa Defesa da Vida que tem como objetivo oferecer acolhimento às famílias de pessoas desaparecidas, especialmente crianças e adolescentes, e ampliar a visibilidade desses casos por meio de mobilização social, articulação com instituições de direitos humanos, produção de conteúdo informativo e pressão sobre o poder público.
Desde o primeiro trimestre de 2025, a ComCausa passou a acompanhar de forma ativa o caso de Edson Davi, contribuindo com reportagens, lives, ações de rua e materiais de conscientização. A história de Edson foi incorporada à galeria digital do Acolher, que reúne rostos, nomes e histórias de pessoas desaparecidas, buscando não apenas encontrá-las, mas também garantir que sua memória não se apague.
Edson Davi é mais do que uma estatística. Ele é filho, ele é neto, ele é amor. E enquanto não houver respostas, sua história continuará sendo contada por todos nós.
Saiba mais sobre o caso:
Desaparecimento de Edson Davi
Acolher é escutar. Acolher é cuidar. Acolher é não deixar que nenhuma criança desapareça em silêncio.
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