Na contramão dos indicadores econômicos otimistas — como a redução do desemprego e a elevação da renda média — o Brasil enfrenta um colapso silencioso e persistente: o aumento da população em situação de rua. Dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), atualizados em março de 2025, revelam que mais de 335 mil pessoas vivem nas ruas, o que representa um crescimento de 142% desde o início da pandemia de Covid-19, em 2020.
Trata-se do maior número já registrado desde a criação da Política Nacional para a População em Situação de Rua (PNSR), em 2009. Em 2019, antes da crise sanitária, o país contabilizava cerca de 145 mil pessoas vivendo sem moradia fixa. Cinco anos depois, o total mais que dobrou — e especialistas afirmam que os números reais podem ser ainda mais elevados, já que muitos municípios não atualizam seus cadastros ou enfrentam dificuldade de localizar esse público em constante deslocamento. O retrato que emerge é o de um país que, apesar de avanços econômicos pontuais, fracassa em redistribuir dignidade.
A contradição brasileira: melhora econômica, piora social
A taxa de desemprego no Brasil atingiu 7,1% em setembro de 2025 — o menor patamar desde 2014, segundo o IBGE. A renda média real do trabalhador cresceu cerca de 4,7% no último ano, impulsionada pela formalização e pelos programas de transferência de renda. Ainda assim, o aumento do custo de vida, especialmente nos grandes centros urbanos, fez com que milhares de pessoas fossem expulsas de moradias alugadas ou de cortiços.
O déficit habitacional brasileiro ultrapassa 6 milhões de moradias, de acordo com a Fundação João Pinheiro. Nas regiões metropolitanas, o valor do aluguel subiu 32% entre 2020 e 2024, enquanto os salários cresceram em média apenas 18%. Essa disparidade empurrou para a rua famílias inteiras, idosos e até trabalhadores empregados que não conseguem mais arcar com os custos de moradia, transporte e alimentação.
O perfil da exclusão
Os números oficiais revelam um padrão social de exclusão que reflete a desigualdade racial, de gênero e de renda do país.
- 84% são homens, a maioria adultos entre 25 e 59 anos;
- 68% se autodeclaram negros (pretos ou pardos);
- 52% não concluíram o ensino fundamental;
- 81% sobrevivem com até R$ 109 por mês, menos de 10% do salário mínimo;
- e 63% estão concentrados na região Sudeste — sendo São Paulo responsável por 42% de todo o contingente nacional.
Em números absolutos, São Paulo tem mais de 96 mil pessoas vivendo nas ruas; o Rio de Janeiro aparece em seguida com 21,7 mil, seguido de Belo Horizonte (14,4 mil), Salvador (11,2 mil) e Fortaleza (10,1 mil). Nas regiões Norte e Nordeste, o crescimento percentual é ainda mais acelerado, impulsionado pelo êxodo urbano e pela crise habitacional nas capitais.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) estima que uma em cada mil pessoas no Brasil não tenha moradia fixa, e alerta que a subnotificação pode ultrapassar 30%.
Violência e invisibilidade: viver e morrer nas ruas
Entre 2020 e 2024, o Disque 100 registrou 46.865 denúncias de violência contra pessoas em situação de rua — casos que vão desde agressões físicas até homicídios, remoções forçadas e tortura. O relatório “População em Situação de Rua: Diagnóstico com Base em Registros Administrativos” do próprio MDHC destaca que a letalidade é crescente e que a ausência de políticas de proteção e acolhimento eficazes contribui diretamente para a perpetuação desse ciclo de violência.
Em 2023, uma série de assassinatos em série de pessoas em situação de rua nas cidades de Goiânia, Recife e São Paulo gerou comoção nacional. Em muitos desses casos, os autores eram civis comuns, e não agentes estatais — o que evidencia um preocupante aumento da intolerância social e da naturalização da exclusão.
Raízes estruturais: o fracasso das políticas públicas
Desde a criação da PNSR, o Brasil pouco avançou na implementação de redes integradas de acolhimento e políticas de habitação social. O Plano Ruas Visíveis, lançado em 2023 pelo Governo Federal, prometia 99 ações articuladas entre 11 ministérios, com foco na reinserção social e na ampliação de abrigos humanizados.
Contudo, menos de 25% das metas foram executadas até o momento, segundo levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Moradia e Rua (RebrapRua). A maioria dos municípios carece de estrutura para o atendimento integral — não há psicólogos, assistentes sociais ou equipe médica suficiente nos centros de referência (Centros POP e SEAS).
Além disso, a burocracia no Cadastro Único e a falta de endereço fixo dificultam o acesso a programas como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Minha Casa, Minha Vida. Estima-se que ao menos 100 mil pessoas em situação de rua não estejam cadastradas em nenhum programa social.
A cidade que expulsa
A paisagem urbana brasileira se transformou. Em metrópoles como São Paulo e Rio, praças viraram dormitórios improvisados, marquises viraram abrigos e viadutos, novas moradas coletivas. A arquitetura defensiva — com pedras, gradis e jatos d’água instalados para afastar pessoas — tornou-se símbolo da política de exclusão.
Especialistas em urbanismo e direitos humanos alertam que essa prática agrava o problema e viola o direito constitucional à dignidade humana. Segundo o jurista Daniel Cara, da USP, “a cidade brasileira contemporânea é projetada para expulsar, não para acolher. A gestão pública trata o pobre como problema estético, não como sujeito de direito.”
O impacto econômico invisível
A situação de rua não é apenas uma tragédia humanitária, mas também um problema econômico. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estima que cada pessoa em situação de rua custa em média R$ 1.200 mensais aos cofres públicos, somando atendimentos emergenciais de saúde, assistência social, segurança e limpeza urbana.
Ao mesmo tempo, a informalidade e a ausência de políticas de reinserção profissional reduzem o potencial produtivo e o capital humano do país, perpetuando um círculo vicioso de pobreza. Para cada real investido em políticas habitacionais estruturantes, o Estado economizaria até R$ 4 em gastos emergenciais, segundo estudo da Fiocruz.
Entre o asfalto e o esquecimento
A pandemia agravou desigualdades históricas e fez emergir uma camada de pobreza urbana que vinha se mantendo invisível sob o tecido social. Famílias desalojadas, idosos abandonados e jovens desempregados tornaram-se protagonistas de uma tragédia cotidiana que as estatísticas não conseguem dimensionar.
Um país em busca de abrigo
A explosão da população em situação de rua no Brasil não é apenas um indicador social — é um sintoma de um modelo econômico e urbano excludente. Os números do CadÚnico, do IPEA e do IBGE mostram que o país precisa ir além das políticas paliativas e investir em estruturas permanentes de acolhimento, habitação e renda.
Mais do que um teto, o que está em jogo é o direito à vida digna. O país que comemora a queda do desemprego e o aumento do PIB precisa, antes, enfrentar sua mais dolorosa contradição: o crescimento econômico que não impede o avanço da miséria.
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