Um novo laudo pericial com reconstrução tridimensional anexado ao processo que apura a morte de Henry Borel, de 4 anos, reforça a tese de homicídio por agressões físicas dentro de casa e descarta completamente a versão de queda acidental. O documento foi produzido pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (DEDIT), como assistência técnica do Ministério Público do Rio de Janeiro, e foi juntado aos autos do processo que tramita no II Tribunal do Júri da Capital.
Henry morreu na madrugada de 8 de março de 2021, no apartamento onde vivia com a mãe, Monique Medeiros, e o então padrasto, Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, na zona sudoeste do Rio. Ambos são réus por homicídio triplamente qualificado, tortura e fraude processual. O julgamento está marcado para o dia 23 de março de 2026.
Lesões incompatíveis com queda
A principal conclusão do laudo é que a causa da morte foi uma laceração hepática com hemorragia interna, provocada por ação contundente. A lesão, segundo os peritos, não provocaria morte imediata, mas sim entre duas e quatro horas após o trauma — o que coincide com os horários registrados no processo.
A criança deu entrada no Hospital Barra D’Or por volta das 4h30, já sem vida, com sinais de rigidez cadavérica e temperatura corporal de 34ºC. O corpo apresentava múltiplas equimoses (manchas roxas), que não podem ser explicadas por uma queda simples, segundo o laudo.
Padrão de brutalidade
Ao menos 13 lesões externas foram mapeadas no corpo da criança, distribuídas por membros superiores, inferiores, costas e região toracolombar. Algumas apresentavam formato arredondado e coloração violácea, típicas de pancadas com objetos ou superfícies contundentes. O agrupamento de seis lesões na parte inferior das costas chamou atenção dos peritos, sugerindo ações repetidas ou uso de objeto com múltiplas pontas.
A disposição, intensidade e diversidade das lesões apontam que as agressões não foram um evento isolado, mas sim uma sequência de ações com força significativa. O laudo classifica o episódio como um ato de violência intensa e generalizada, incompatível com acidente doméstico.
Perícia no local também descarta acidente
Medições feitas no apartamento indicam que a altura da cama e de móveis próximos não seriam capazes de causar lesões tão graves e espalhadas. Isso reforça que a versão apresentada inicialmente pela defesa — de que Henry teria caído da cama — não se sustenta tecnicamente.
O que dizem as partes envolvidas
Acusação
O pai de Henry, Leniel Borel, que atua como assistente de acusação, afirmou que o novo laudo fortalece a esperança de justiça: “Esse laudo com modelagem 3D reforça algo que a investigação já aponta há anos: não foi acidente, não foi queda. Isso mexe comigo como pai, mas também fortalece a expectativa de que o júri fará justiça pelo meu filho.”
O promotor Fábio Vieira, que solicitou a perícia ainda em 2021, destacou que o trabalho foi minucioso e que não se trata de recurso sensacionalista, mas sim de uma ferramenta técnica para sustentar o conjunto de provas já robusto.
Já o assistente de acusação Cristiano Medina da Rocha classificou o material como coerente com os pareceres anteriores e acredita que o conteúdo seja irrefutável diante das evidências reunidas.
Defesa
O advogado Rodrigo Faucz, defensor de Dr. Jairinho, contestou o laudo e afirmou que ele é parte de uma estratégia do Ministério Público para influenciar a opinião pública às vésperas do julgamento: “Esse novo laudo é assinado por funcionários do próprio MP, que ignoram elementos relevantes. É comum, em casos midiáticos, que se recorra a materiais sensacionalistas para tentar manipular o júri.”
A defesa afirma ter recursos pendentes, incluindo três habeas corpus e uma correição parcial, e não descarta pedir adiamento do júri. No entanto, afirma confiar no Judiciário para garantir um julgamento “justo e imparcial”.
A defesa de Monique Medeiros ainda não se pronunciou oficialmente sobre o novo laudo até o momento.
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