O Clube do Livro Stelium leu Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, e avaliou a obra com nota 9,5 de 10. Na discussão, leitoras e leitores destacaram a força do relato sobre a ditadura militar, a construção humana da família Paiva e a forma como o autor trata, com sensibilidade, tanto a violência política quanto a deterioração da memória provocada pelo Alzheimer.
Publicado 35 anos depois de Feliz Ano Velho, o livro revisita a história da família de Marcelo Rubens Paiva a partir da prisão, tortura e morte do ex-deputado Rubens Paiva, em 1971, durante a ditadura militar. Ao mesmo tempo, a obra acompanha a trajetória de Eunice Paiva, que, após o desaparecimento do marido, precisou reconstruir a própria vida enquanto criava os cinco filhos e mais tarde enfrentava o Alzheimer.
Livro vai além da denúncia histórica
Para o clube, um dos pontos centrais de Ainda Estou Aqui é que a obra não se limita à denúncia dos crimes da ditadura. O livro também mergulha na intimidade de uma família atravessada pela violência de Estado, mostrando medo, afeto, contradições e sobrevivência.
Eunice Paiva aparece como uma personagem complexa e potente. Casada com Rubens Paiva, ela esteve ao lado do marido quando ele foi cassado e exilado após o golpe de 1964. Depois de ficar sozinha, voltou a estudar, tornou-se advogada e atuou na defesa dos direitos indígenas. No relato de Marcelo, porém, ela não surge como figura idealizada, mas como uma mulher real, com durezas, marcas do tempo e conflitos próprios.
Leitores destacam fluidez e impacto
Segundo a avaliação do Clube do Livro Stelium, a obra surpreendeu pela escrita fluida, mesmo tratando de um tema pesado. O grupo destacou que o texto não cansa o leitor com a repetição das atrocidades já conhecidas da ditadura, mas consegue manter o impacto ao transformar a história em experiência humana concreta.
Uma das passagens mais chocantes para os leitores foi a prisão de Rubens Paiva. No debate do clube, essa cena foi lembrada com força pela maneira como Marcelo Rubens Paiva reconstrói, a partir de relatos, o ambiente de terror em que o pai foi torturado ao som da canção Jesus Cristo, de Roberto Carlos.
Outro aspecto muito comentado foi a abordagem do Alzheimer de Eunice Paiva. As leitoras observaram que esse processo aparece com menos destaque na adaptação para o cinema, mas ganha mais profundidade no livro. Na obra, a doença altera a dinâmica da casa, da memória e das relações familiares, ampliando o sentido do título Ainda Estou Aqui.
Humanização aproxima o leitor
Na avaliação do clube, um dos maiores méritos do livro é humanizar Rubens e Eunice Paiva. Marcelo não mostra apenas as qualidades reconhecidas pelo público. Também expõe defeitos, preconceitos de época, modos ásperos de convivência e os efeitos da dor e da doença sobre a família.
Esse retrato aproxima a história do leitor. Para o grupo, a sensação é de que o autor lança uma mensagem direta: foi a história do pai dele, mas poderia ter sido a de qualquer família brasileira atravessada pela violência política.
Memória contra o negacionismo
O debate do Clube do Livro Stelium também reforçou um ponto político e histórico considerado incontornável: os horrores da ditadura militar seguem presentes na memória do país e sua negação é, por si só, uma violência.
Para os leitores, negar o que ocorreu é negar a história, a memória e a vida de Rubens Paiva, além de tantas outras pessoas que foram presas, torturadas, exiladas, desaparecidas ou mortas pelo regime. Nesse sentido, Ainda Estou Aqui foi visto pelo grupo como uma obra necessária, porque ajuda a preservar a verdade histórica e a enfrentar o esquecimento.
Do livro para o cinema
O livro deu origem ao filme Ainda Estou Aqui, estrelado por Fernanda Torres, vencedora do Globo de Ouro, e indicado a três categorias do Oscar 2025, incluindo Melhor Filme, segundo as informações enviadas. A adaptação ajudou a ampliar o alcance da história e reacendeu o interesse público pela trajetória da família Paiva.
Mesmo assim, na avaliação do clube, a leitura da obra segue essencial. É no livro que a densidade da memória, da dor e das contradições familiares aparece de forma mais ampla e íntima.
Ao final da discussão, o consenso entre os participantes foi claro: Ainda Estou Aqui é um livro impactante, real e necessário.
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