A Polícia Federal informou ao Supremo Tribunal Federal que a Polícia Militar do Rio de Janeiro ainda não entregou as imagens corporais dos agentes que participaram da Megaoperação Contenção, realizada em outubro de 2025, nos complexos do Alemão e da Penha, e que terminou com 122 mortos. No mesmo ofício, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, pediu ao ministro Alexandre de Moraes mais prazo para concluir a perícia do material já recebido, alegando alto volume de arquivos e complexidade da análise. Segundo o documento, a corporação solicita 90 dias para finalizar o trabalho.
A operação ocorreu em 28 de outubro de 2025 e é tratada como a mais letal do país, superando o número de mortos do massacre do Carandiru, em 1992, de acordo com o material enviado pelo usuário e com texto anexado à conversa. A ação teve como alvo o Comando Vermelho e deixou, ao todo, 122 mortos, entre eles cinco policiais.
Material segue incompleto
No ofício enviado ao STF, a PF afirma que recebeu apenas imagens captadas por câmeras corporais de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais, a Core, e de outras unidades da Polícia Civil do Rio. Até agora, porém, não teve acesso ao acervo audiovisual da Polícia Militar, incluindo registros do Bope, batalhão que atuou com o maior contingente de agentes na operação, segundo o documento.
A ausência dessas imagens, segundo a própria PF, compromete o andamento da investigação. No texto encaminhado ao Supremo, Andrei Rodrigues afirma que a conclusão da perícia e a juntada do material ao processo dependem do envio dos arquivos que ainda faltam.
Mais de 400 horas de gravação
A PF informou que uma equipe com 10 peritos federais foi mobilizada para examinar o conteúdo já entregue. Mesmo assim, o órgão diz que não consegue concluir a análise em 15 dias, prazo anteriormente fixado pelo STF. De acordo com o ofício, o material soma mais de 400 horas de gravação. Por isso, a corporação pediu nova extensão de prazo, desta vez de 90 dias.
O caso não é isolado. Segundo o texto anexado, em fevereiro deste ano a Polícia Federal já havia relatado dificuldades técnicas para acessar 945 arquivos enviados pela Polícia Civil do Rio. Na ocasião, a corporação pediu que o conteúdo fosse remetido em mídia física e, se necessário, acompanhado do aplicativo ou software capaz de reproduzir os arquivos.
Operação é alvo de questionamentos
A Megaoperação Contenção entrou no radar do STF no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. A ação discute a política de segurança pública do Rio de Janeiro e medidas para reduzir a letalidade policial. Conforme o texto enviado, o ministro Alexandre de Moraes é o relator do caso.
Em abril de 2025, o Supremo fixou uma série de determinações ao Estado do Rio. Entre elas, a implantação de câmeras em viaturas e em fardas de policiais civis, o uso de ambulâncias em operações planejadas, a restrição de ações perto de escolas e hospitais e a obrigatoriedade de relatórios detalhados ao fim das operações. Também determinou o compartilhamento de dados e microdados com o Ministério Público.
Após a operação de outubro, entidades como o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União questionaram o então governador Cláudio Castro sobre o cumprimento dessas medidas. O foco da apuração agora inclui justamente saber se os protocolos definidos pelo STF foram respeitados e por que as imagens da PM ainda não chegaram à perícia federal.
Falhas e responsabilidades
O ponto central do ofício da PF é a demora da Polícia Militar em entregar um material considerado essencial para a investigação. Como a unidade com maior efetivo na ação foi justamente a PM, a ausência das imagens corporais amplia dúvidas sobre transparência, cadeia de custódia e controle externo da atividade policial.
Também chama atenção o fato de a perícia depender de condições técnicas ainda não totalmente resolvidas, meses depois da operação. Isso indica falha institucional no armazenamento, no envio e no tratamento do acervo audiovisual de uma ação de grande impacto, com alto número de mortes e repercussão nacional.
O que diz a PF
Segundo o diretor-geral Andrei Rodrigues, o acervo disponível até agora é incompleto e não permite encerrar a análise técnica. No ofício, ele afirma que a perícia depende do material pendente e que a dimensão do conteúdo já recebido torna inviável cumprir o prazo inicialmente fixado pelo Supremo.
O caso envolve uma operação com 122 mortos, realizada em territórios densamente povoados, sob regras já estabelecidas pelo STF para conter abusos e reduzir mortes em ações policiais. A falta das imagens corporais da PM, quase seis meses depois, afeta a capacidade de reconstruir os fatos, identificar responsabilidades e verificar se houve cumprimento das decisões judiciais.
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