Hoje, 11 de setembro de 2026, Lucas da Silva Resende Monte faria 23 anos. Era para ser apenas uma data de comemoração, daquelas em que a família manda mensagem logo cedo, os amigos aparecem nas redes sociais, alguém escolhe uma fotografia para desejar feliz aniversário e a mãe talvez recorde, como fazem tantas mães, o dia em que o filho nasceu.
Era para haver planos, conversas sobre faculdade, trabalho, futuro, amigos, amores e tudo aquilo que faz parte da vida de alguém que ainda teria tanto para viver. Mas Lucas não está aqui. E, mais de dois anos depois de sua morte, seu aniversário chega carregado não apenas de saudade, mas também de uma pergunta que permanece atravessando a história de sua família e de todos nós que, de alguma forma, passamos a acompanhá-la: o que realmente aconteceu com Lucas?
Conheci a história de Lucas depois de sua morte, como jornalista e também a partir do acompanhamento realizado pela ComCausa junto à sua família. É importante dizer isso porque existe uma diferença enorme entre conhecer um “caso” e conhecer as pessoas que estão por trás dele. Quando uma história chega à imprensa, ela normalmente aparece organizada em datas, depoimentos, laudos, versões, investigações e documentos. Mas, quando nos aproximamos de uma família, tudo muda de dimensão. O nome deixa de ser apenas um nome escrito em uma matéria. Aparece a mãe. Aparecem as fotografias. Aparecem as lembranças, as dúvidas, as histórias que deveriam continuar sendo vividas. Aparece, sobretudo, a ausência. E talvez seja impossível acompanhar uma mãe que perdeu um filho sem compreender que, para ela, o tempo funciona de uma maneira muito diferente do tempo das manchetes.
Lucas tinha 20 anos quando morreu, em fevereiro de 2024. Era estudante da Universidade de Brasília, a UnB, e estava naquele período da vida em que quase tudo ainda parece possível. Aos 20 anos, ninguém deveria ter sua história encerrada. É uma idade de escolhas, de dúvidas, de mudanças, de amizades, de descobertas, de projetos que começam e terminam, de caminhos que ainda estão sendo construídos. Quando um jovem morre, não desaparece apenas aquilo que ele já viveu. Desaparecem também os futuros que poderiam existir. E talvez seja exatamente por isso que um aniversário como o de hoje provoque uma sensação tão difícil de explicar: inevitavelmente pensamos em quem Lucas seria agora, aos 23 anos, no que estaria fazendo, no que teria mudado em sua vida, em quais sonhos teria abandonado e quais outros teria descoberto pelo caminho.
No dia 10 de fevereiro de 2024, Lucas desapareceu depois de ir à casa de um amigo, no condomínio Alto da Boa Vista, em Sobradinho, no Distrito Federal. Durante os dias seguintes, sua família viveu a angústia de não saber onde ele estava. Quem acompanha situações de desaparecimento sabe que talvez existam poucas experiências mais violentas para uma família do que essa incerteza. O telefone que não toca, as mensagens que não são respondidas, a busca por qualquer informação, o desejo de que a pessoa apareça a qualquer momento e a dificuldade de aceitar que alguma coisa mais grave possa ter acontecido.
Três dias depois, o corpo de Lucas foi encontrado nas proximidades da residência. A busca por Lucas terminou da pior maneira possível e, naquele momento, começou outra caminhada: a busca para entender como ele morreu.
As circunstâncias encontradas durante a investigação levantaram questionamentos desde o início. Um dos elementos que mais impactaram sua família foi a informação de que o corpo apresentava 32 lesões perfurocortantes. Diante da possibilidade inicialmente considerada de que Lucas pudesse ter provocado os próprios ferimentos, sua mãe, Bernadete da Silva, fez uma pergunta que permanece impossível de ignorar: “Como meu filho conseguiu dar 32 facadas em si mesmo?”. É uma pergunta de mãe, mas é também uma pergunta que precisa ser compreendida dentro do contexto de uma investigação. Não significa estabelecer uma conclusão, não significa acusar alguém e muito menos substituir o trabalho da Polícia Civil, da perícia ou de outras instituições envolvidas. Significa perguntar.
E perguntar é um direito.
Outros elementos também foram questionados pela família, inclusive as condições em que Lucas foi encontrado, informações sobre suas roupas, a provável dinâmica da morte, o intervalo entre seu desaparecimento e o momento estimado do óbito e a própria forma como o corpo acabou sendo localizado a partir de uma denúncia anônima. Desde o começo, sempre procurei abordar essas dúvidas com a responsabilidade que um caso como esse exige. É preciso evitar especulações, evitar acusações sem provas e respeitar o trabalho das instituições responsáveis pela investigação. Mas responsabilidade jornalística não significa silêncio. O fato de não termos respostas definitivas não elimina o direito de formular perguntas, principalmente quando essas perguntas vêm de uma mãe tentando compreender como o filho morreu.
Talvez essa seja uma das coisas que mais me marcaram no acompanhamento de Bernadete. Existe uma diferença enorme entre ler a declaração de uma mãe em uma notícia e escutá-la pessoalmente. Quando alguém perde um filho, não está lidando apenas com documentos e procedimentos. Está tentando reorganizar a própria existência. Existe o luto, mas existe também a necessidade de compreender. Há famílias que conseguem viver o luto com alguma certeza sobre o que aconteceu. Outras precisam conviver com perguntas durante meses ou anos. E essa combinação entre ausência e dúvida pode tornar tudo ainda mais difícil.
É por isso que o direito à verdade precisa ser compreendido como um direito humano concreto e não como uma expressão distante. O direito à verdade é uma mãe conseguir saber, da maneira mais completa possível, como seu filho morreu. É ter acesso às informações. É poder formular perguntas sem ser tratada como alguém inconveniente. É conseguir entender os resultados das perícias, os caminhos das investigações e as conclusões construídas pelas autoridades. É poder discordar, questionar e pedir esclarecimentos quando algo não parece fazer sentido.
Hoje, no aniversário de Lucas, penso também em como o tempo pode ser cruel com histórias como essa. Para a imprensa, dois anos são muito tempo. Outros casos aparecem, novas manchetes ocupam espaço e aquilo que um dia provocou atenção pública acaba sendo empurrado para os arquivos. Para uma família, porém, não existe arquivo. A fotografia continua na mesma casa. O quarto continua existindo ou permanece na memória. As mensagens antigas continuam no telefone. A data do aniversário continua chegando. O Natal continua chegando. As datas familiares continuam chegando. A ausência se transforma, mas não desaparece.
Uma mãe não deixa de ser mãe porque o filho morreu.
Bernadete continua sendo mãe de Lucas.
E isso parece óbvio, mas precisamos repetir porque muitas vezes a sociedade espera que famílias que perderam alguém “sigam em frente” de uma maneira que simplesmente não existe. É possível continuar vivendo. É possível encontrar novos caminhos. É possível sorrir novamente. Mas determinadas ausências passam a fazer parte da própria vida. E, em datas como hoje, elas inevitavelmente ganham outra intensidade.
Hoje Lucas deveria estar completando 23 anos. Talvez estivesse perto de concluir uma etapa da universidade. Talvez tivesse mudado de curso. Talvez já estivesse trabalhando. Talvez estivesse fazendo planos que não imaginava aos 20. Talvez estivesse apaixonado. Talvez estivesse brigado com algum amigo e depois fazendo as pazes. Talvez estivesse preocupado com dinheiro, carreira, futuro, política ou simplesmente com aquilo que faria no fim de semana. Tudo isso é especulação, claro, mas é uma especulação sobre a vida, não sobre sua morte. E gosto de pensar assim porque existe um risco enorme de permitirmos que Lucas seja lembrado apenas pelo modo como morreu.
Lucas não é “o caso das 32 facadas”.
Não é apenas “o estudante encontrado morto”.
Não é somente o nome de um inquérito.
Lucas existiu antes daquele fevereiro de 2024. Existiram 20 anos de vida antes daqueles últimos dias. Existiram aniversários, brincadeiras, amigos, histórias, sonhos e uma mãe acompanhando seu crescimento. Existiu o momento de entrar para a universidade. Existiram escolhas que talvez tenham dado certo e outras que não deram. Existiu uma pessoa inteira. E nenhuma investigação, por mais necessária que seja, consegue traduzir tudo aquilo que uma pessoa foi.
Desde 2024, a ComCausa – Defesa da Vida, por meio do programa ACOLHER, vem acompanhando a família de Lucas em uma atuação voltada à escuta, à orientação, à defesa do direito à informação e à articulação com instituições e redes de direitos humanos. Esse tipo de acompanhamento é importante justamente porque famílias que enfrentam mortes violentas, desaparecimentos ou situações cercadas de dúvidas muitas vezes acabam obrigadas a aprender rapidamente um universo burocrático para o qual nunca estiveram preparadas. Precisam saber qual órgão procurar, que documento pedir, com quem falar, que caminhos institucionais existem e como acompanhar procedimentos que podem se estender por muito tempo.
O papel de uma organização de direitos humanos não é investigar no lugar da polícia, produzir versões alternativas ou transformar sofrimento em bandeira. É estar ao lado, ajudar a família a compreender seus direitos, facilitar diálogos, cobrar quando necessário e impedir que a solidão institucional seja adicionada à dor que aquela pessoa já carrega. E, em muitos casos, também é ajudar a preservar a memória.
A memória tem uma dimensão política.
Não falo de política partidária. Falo daquilo que significa escolher não esquecer.
Quando dizemos novamente o nome de Lucas, estamos dizendo que aquela vida continua importando.
Quando sua mãe continua fazendo perguntas, está dizendo que sua história não será encerrada simplesmente porque o tempo passou.
Quando voltamos a escrever sobre ele em seu aniversário, não estamos tentando reabrir artificialmente uma ferida. Essa ferida nunca dependeu da imprensa para existir. Estamos apenas reconhecendo que existe uma família para quem essa história continua presente todos os dias.
E existe algo ainda mais importante: perguntar não é acusar.
A imprensa precisa ter muito cuidado quando escreve sobre mortes investigadas, especialmente quando ainda há elementos complexos ou divergências sobre a interpretação dos fatos. Não cabe a nós criar culpados, construir narrativas definitivas sem elementos suficientes ou colocar pessoas no banco dos réus pela força de uma manchete. Mas o jornalismo também não deve tratar perguntas legítimas como algo inconveniente. Se uma mãe questiona a dinâmica apresentada para a morte do filho, essa dúvida merece ser registrada. Se existem aspectos técnicos que ela não compreende, merece receber explicações. Se existem informações que podem ser esclarecidas, as instituições precisam fazer esse esforço.
É esse equilíbrio que tento preservar desde que comecei a acompanhar a história de Lucas.
Não sabemos tudo.
Não devemos fingir que sabemos.
Mas aquilo que não sabemos também pode e deve ser perguntado.
O que aconteceu naquele período entre a noite em que Lucas foi visto e o momento em que seu corpo foi encontrado? Como exatamente foram produzidos os ferimentos? Qual foi a dinâmica de sua morte? Que elementos sustentam as conclusões produzidas pela investigação? As dúvidas apresentadas pela família foram integralmente respondidas? Ainda existem diligências ou informações que podem ajudar Bernadete a compreender o que aconteceu com seu filho?
Essas perguntas pertencem às autoridades responsáveis, mas também pertencem à família.
Hoje, porém, talvez eu queira deixar por alguns instantes os documentos e as perguntas de lado.
Porque hoje é aniversário de Lucas.
Gostaria muito que esta matéria tivesse outro título.
Gostaria de escrever que Lucas está completando 23 anos.
Gostaria de entrevistá-lo sobre a universidade, perguntar o que pretende fazer depois, saber quais são seus planos e registrar alguma coisa banal sobre sua vida. Talvez ele nem gostasse de dar entrevista. Talvez reclamasse da mãe por ter indicado seu nome. Talvez risse da situação. Não sei.
Mas gosto de imaginar Lucas na vida comum.
Porque a vida comum é justamente aquilo que lhe foi retirado.
Uma pessoa de 23 anos deveria ter o direito de viver dias comuns.
De acordar atrasado.
De discutir com alguém.
De se apaixonar pela pessoa errada.
De escolher a profissão errada e depois mudar de ideia.
De perder um ônibus.
De fazer aniversário sem saber exatamente o que fazer.
De cometer erros.
De recomeçar.
De envelhecer.
Lucas não teve esse direito.
E para sua mãe ficou uma ausência que nenhum processo consegue preencher.
Talvez seja por isso que hoje eu não queira terminar este texto com números, laudos ou cronologias.
Quero terminar com o nome dele.
Lucas da Silva Resende Monte.
Hoje você faria 23 anos.
Sua mãe deveria estar lhe desejando feliz aniversário.
Sua família deveria estar planejando algum encontro.
Seus amigos deveriam estar mandando mensagens.
Você deveria estar pensando naquilo que ainda faria amanhã.
Não foi assim.
Mas isso não significa que sua história terminou no dia em que seu corpo foi encontrado.
Enquanto houver memória, existe algo que permanece.
Enquanto sua mãe continuar dizendo seu nome, existe algo que permanece.
Enquanto houver perguntas legítimas ainda ecoando, existe uma responsabilidade coletiva de não transformar a passagem do tempo em esquecimento.
Hoje é aniversário de Lucas.
E eu continuo pensando no que aconteceu.
Não para alimentar teorias.
Não para apontar culpados.
Mas porque conheci uma mãe que merece respostas.
Porque acompanhei uma família que merece respeito.
E porque acredito que jornalismo também é isso: não permitir que determinadas histórias desapareçam apenas porque deixaram de ocupar as primeiras páginas.
Hoje, acima de tudo, é dia de lembrar Lucas vivo.
O estudante.
O filho.
O jovem.
O menino de Bernadete.
A pessoa que deveria estar aqui completando 23 anos.
Feliz aniversário, Lucas.
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