Caso Maicon de Acari: após 30 anos de luta, pai volta ao Ministério Público para prestar depoimento ao GAESP

Caso do Menino Maicon

José Luiz Faria da Silva, pai do menino Maicon de Acari, será ouvido nesta terça-feira, 8 de setembro, pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. O depoimento ocorre três décadas depois da morte da criança e em um momento de retomada institucional do caso. A ComCausa acompanhará José Luiz no MPRJ, por meio do CAIS ComCausa.

Trinta anos depois da morte de Maicon de Souza Silva, seu pai, José Luiz Faria da Silva, volta ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para mais uma etapa de uma luta que atravessou décadas e impediu que a história do menino fosse esquecida. A oitiva está marcada para esta terça-feira, 8 de setembro de 2026, às 15h, na sede do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP/MPRJ), na Avenida Marechal Câmara, nº 370, 7º andar, Centro do Rio de Janeiro.

Uma criança de dois anos e uma história que atravessou três décadas

Maicon tinha apenas dois anos quando morreu durante uma ação policial na comunidade do Amarelinho, em Acari, na Zona Norte do Rio, em 15 de abril de 1996. Na mesma ação, Renato da Silva Paixão, então com seis anos, foi atingido no rosto e sobreviveu, carregando sequelas físicas e psicológicas. O caso chegou ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos diante da ausência de responsabilização efetiva no Brasil.
Desde aquele dia, José Luiz transformou a dor pela perda do filho em uma luta permanente por memória, verdade e justiça. Ao lado de Maria da Penha de Souza, mãe de Maicon, participou de vigílias, protestos e manifestações e retornou inúmeras vezes ao Ministério Público para cobrar a reabertura das investigações e a responsabilização dos envolvidos.

A persistência de um pai que nunca deixou Maicon ser esquecido

Ao longo de 30 anos, José Luiz tornou-se uma presença constante na defesa da memória do filho. Quando o caso parecia desaparecer das instituições, ele voltava às ruas. Quando faltavam respostas, retornava ao Ministério Público. Sua trajetória passou a representar também a resistência de familiares que enfrentam anos ou décadas de espera por esclarecimento e justiça.

Em junho de 2026, essa caminhada teve um dos seus momentos institucionais mais importantes. Em cerimônia realizada no MPRJ, foi entregue a retificação do Registro de Ocorrência do caso, retirando a antiga classificação de “auto de resistência”. A mudança tem forte significado histórico, especialmente porque Maicon era uma criança pequena, não estava armada e não estava em confronto.
Aquele momento também representou um reconhecimento de algo que José Luiz repetiu durante décadas: Maicon não poderia ter sua história apagada por uma versão institucional que não correspondia ao que aconteceu.

Novo depoimento marca outra etapa do Caso Maicon

Agora, José Luiz volta ao Ministério Público para prestar declarações ao GAESP. A nova oitiva acontece depois dos movimentos recentes em torno do caso e recoloca a investigação diante de uma história que permanece aberta mesmo após três décadas.
Mais do que cumprir uma convocação formal, José Luiz retorna a uma instituição diante da qual já esteve inúmeras vezes, muitas delas segurando fotografias do filho e cobrando respostas. O novo depoimento representa, por isso, mais um capítulo de uma luta construída durante praticamente toda a sua vida adulta.

Adriano Dias acompanha o Caso Maicon desde antes da criação da ComCausa

A relação da ComCausa com José Luiz tem uma história anterior à própria organização. Adriano Dias, jornalista e fundador da ComCausa, acompanha o Caso Maicon há muitos anos e considera essa uma das mais antigas lutas por Direitos Humanos que acompanha pessoalmente — iniciada ainda antes da criação da instituição.

Ao longo dos anos, Adriano esteve ao lado de José Luiz em manifestações, vigílias e mobilizações públicas. A ComCausa também recebeu a família em sua sede, no Centro do Rio, para registrar a memória dessa trajetória.

Para Adriano, acompanhar José Luiz durante todos esses anos permitiu testemunhar não apenas a dimensão do caso, mas principalmente a persistência de um pai que se recusou a deixar o filho ser esquecido.

“O Caso Maicon é uma das lutas mais antigas que acompanho pessoalmente, desde antes da própria existência da ComCausa. Vi o senhor José Luiz muitas vezes sozinho diante das instituições, carregando a fotografia do filho e insistindo para que aquela criança não fosse esquecida. São 30 anos de uma luta que só chegou a este momento porque ele nunca desistiu. Para mim, estar ao lado dele agora é também honrar toda essa história.”

Adriano já havia destacado, durante o ato realizado em junho no MPRJ, que os avanços alcançados não ocorreram por acaso, mas foram resultado direto da persistência da família.Nesta terça-feira, a ComCausa – Defesa da Vida estará novamente ao lado de José Luiz. O acompanhamento será realizado por meio do CAIS ComCausa – Autonomia e Inclusão, desenvolvido em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos do Ministério da Justiça e Segurança Pública (SENAD/MJSP).

A presença da organização dá continuidade a uma relação construída ao longo de muitos anos e reafirma o compromisso com José Luiz, Maria da Penha, Renato e outras famílias atingidas pela violência de Estado.

Trinta anos depois, José Luiz retorna ao Ministério Público levando consigo a memória de Maicon e uma luta que nunca foi interrompida. Desta vez, a ComCausa estará novamente ao seu lado, acompanhando mais um capítulo da busca por memória, verdade, justiça, reparação e garantia de não repetição no Caso Maicon de Acari.

Colaborou: Marcela Malvino

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