O Rio de Janeiro perdeu, nesta segunda-feira, 27 de abril de 2026, uma das trajetórias públicas mais simbólicas da cidade. Luciana Gonçalves de Novaes morreu aos 42 anos, depois de enfrentar complicações graves de saúde. Sua história, marcada por uma tragédia ainda na juventude, tornou-se exemplo de resistência, reconstrução e compromisso com quem mais precisa ser visto pelo poder público.
Luciana tinha apenas 19 anos quando sua vida mudou para sempre. Em 5 de maio de 2003, ela cursava Enfermagem na Universidade Estácio de Sá, no campus do Rio Comprido, no Rio de Janeiro, quando foi atingida por uma bala perdida dentro da instituição. Segundo registros da época, o tiro entrou pela mandíbula e atingiu a coluna cervical, deixando Luciana tetraplégica e dependente de ventilação mecânica. Ela permaneceu 21 meses internada, sendo 18 meses em UTI, e chegou a receber dos médicos um diagnóstico de apenas 1% de chance de sobrevivência.
O episódio chocou o Rio. Uma jovem universitária, que havia iniciado seus estudos em Enfermagem, foi atravessada pela violência urbana dentro de um espaço que deveria representar futuro, formação e segurança. Mas a tragédia que tentou interromper seus sonhos não conseguiu encerrar sua história.
Luciana sobreviveu e fez da sobrevivência uma missão.
Após o longo período de internação e adaptação à nova realidade, ela voltou a estudar. Formou-se em Serviço Social e concluiu pós-graduação em Gestão Governamental. A mudança de trajetória também revelou uma escolha política e humana: Luciana transformou sua experiência pessoal em defesa pública dos direitos das pessoas com deficiência, das vítimas da violência, dos idosos, das pessoas em situação de rua e das populações em situação de vulnerabilidade.
Sua luta não nasceu de gabinete. Nasceu do corpo, da dor, da experiência direta com uma cidade marcada pela violência, pela falta de acessibilidade e pela exclusão. Luciana sabia, na prática, o que significava depender de políticas públicas, enfrentar barreiras físicas, disputar dignidade e exigir que a sociedade reconhecesse a existência de pessoas que muitas vezes são tratadas como invisíveis.
Antes de chegar ao Parlamento, Luciana já havia se tornado uma referência. Sua história começou a inspirar familiares de vítimas, pessoas com deficiência, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. A política, para ela, não era abstração: era instrumento para transformar sofrimento em direito, abandono em proteção e invisibilidade em presença.
Em 2016, Luciana foi eleita vereadora do Rio de Janeiro pelo PT. Com a eleição, tornou-se a primeira pessoa tetraplégica a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal do Rio. Sua presença no Legislativo carioca foi histórica, mas não apenas pelo simbolismo. Luciana chegou à Câmara com uma agenda concreta: acessibilidade, inclusão, saúde, educação, proteção social, combate ao capacitismo e defesa das pessoas em situação de vulnerabilidade.
Durante sua atuação parlamentar, destacou-se pela produção legislativa e por ações de fiscalização. Segundo sua própria biografia pública, foi campeã de leis aprovadas em seu primeiro mandato e realizou mais de 150 fiscalizações. Ao longo de sua trajetória, a Câmara Municipal registrou um legado de quase 200 leis voltadas sobretudo à inclusão, à defesa das pessoas com deficiência, dos idosos e da população vulnerabilizada.
Entre suas iniciativas mais importantes está a Lei nº 8.781/2025, que instituiu a Política Municipal de Rotas Acessíveis do Rio de Janeiro, voltada à locomoção de pessoas com deficiência, pessoas com mobilidade reduzida e idosos. A proposta tratava de um direito básico: o direito de circular pela cidade com segurança, autonomia e dignidade.
Luciana também atuou em projetos ligados à educação inclusiva, como a garantia de vagas prioritárias em escolas próximas para alunos com deficiência e processos avaliativos adequados às necessidades de estudantes com deficiência intelectual. Sua atuação alcançou ainda a pauta da saúde, da pessoa idosa, da população em situação de rua, da transparência pública, do enfrentamento à pobreza e da redução das desigualdades.
Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, Luciana enfrentou uma campanha eleitoral especialmente difícil. Por integrar o grupo de risco, não pôde fazer campanha nas ruas como outros candidatos. Mesmo assim, recebeu cerca de 16 mil votos e ficou como primeira suplente. Em 2022, candidatou-se a deputada federal, alcançou mais de 31 mil votos e ficou com a segunda suplência do PT no Rio de Janeiro. Em 2023, retornou à Câmara Municipal.
Sua atuação também dialogou com organizações da sociedade civil e iniciativas de direitos humanos. Entre outras ações, Luciana foi autora do Projeto de Lei nº 1645/2025, que propôs incluir a Associação Com Causa Cultura de Direitos, a ComCausa, na Lei nº 5.242/2011 como entidade de utilidade pública. A proposta foi publicada em 2 de dezembro de 2025 e registrada pela Câmara Municipal do Rio como de autoria da vereadora Luciana Novaes.
Esse gesto sintetiza uma parte importante de sua trajetória: Luciana compreendia que a defesa de direitos não se faz apenas por leis, mas também pelo fortalecimento das organizações que atuam nos territórios, acompanham famílias, acolhem vítimas, produzem memória, denunciam violações e constroem cidadania no cotidiano.
Nos últimos meses de vida, Luciana enfrentava problemas de saúde. Segundo informações divulgadas por sua assessoria e pela imprensa, ela estava internada quando sofreu uma intercorrência súbita e grave, compatível com rompimento de aneurisma cerebral, seguida de piora crítica do quadro neurológico. Na sequência, foi iniciado o protocolo de morte cerebral, procedimento médico que confirma a parada total e irreversível das funções do cérebro.
A morte de Luciana provocou forte comoção. O prefeito do Rio decretou luto oficial de três dias, publicado em edição extra do Diário Oficial. A Câmara Municipal lamentou a perda e destacou sua trajetória como exemplo de perseverança, superação, coragem e compromisso com os que mais precisam. Até a última atualização pública consultada, ainda não havia informação confirmada sobre local e horário do velório e do sepultamento.
Luciana deixa uma história que não cabe apenas na palavra superação. Superação, em sua vida, não foi discurso fácil. Foi respiração assistida, internação prolongada, dor, adaptação, estudo, trabalho, enfrentamento ao capacitismo, disputa por espaço e compromisso público.
Ela foi atingida pela violência urbana, mas não permitiu que sua biografia fosse encerrada como estatística. Foi uma mulher com deficiência em uma cidade pouco acessível, mas fez da própria presença uma denúncia e uma proposta. Foi sobrevivente, assistente social, militante, parlamentar e referência para muitas pessoas que encontraram em sua história uma razão para continuar lutando.
Luciana Novaes deixa leis, projetos, fiscalizações e políticas públicas. Mas deixa, sobretudo, um legado humano: o de alguém que transformou uma tragédia pessoal em luta coletiva.
Sua vida seguirá presente em cada rampa construída, em cada rota acessível, em cada pessoa com deficiência que exige dignidade, em cada família vítima da violência que busca acolhimento, em cada organização social fortalecida e em cada voz que se recusa a aceitar a invisibilidade como destino.
Luciana Novaes partiu.
Mas sua luta permanece.
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