Dia Mundial da Segurança do Paciente reforça a importância de práticas de cuidado que reduzam danos; CAIS, Juventudes.ComCausa e Crianças com Direitos destacam orientações para jovens, famílias, escolas e profissionais
Celebrado em 17 de setembro, o Dia Mundial da Segurança do Paciente chama atenção para um princípio fundamental de qualquer política de saúde: quem procura atendimento deve encontrar acolhimento, proteção, escuta qualificada e práticas capazes de reduzir riscos e evitar danos.
A data foi estabelecida em 2019 pela Assembleia Mundial da Saúde e integra uma mobilização internacional coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para ampliar a compreensão sobre segurança do paciente e estimular governos, serviços de saúde, profissionais, pacientes, famílias e comunidades a participarem da construção de um cuidado mais seguro.
Em 2026, a campanha internacional tem como tema “Cuidado seguro para doenças não transmissíveis”, com o lema “Cuidado seguro para a vida!”. A OMS chama atenção especialmente para pessoas que necessitam de acompanhamento prolongado e passam por diferentes etapas do sistema de saúde, da prevenção e do diagnóstico ao tratamento e ao acompanhamento contínuo.
Embora a campanha mundial deste ano esteja concentrada nas doenças não transmissíveis, o princípio do cuidado seguro permite ampliar a reflexão para outras situações que exigem atenção permanente da rede de proteção, entre elas o sofrimento emocional, as violências autoprovocadas e a automutilação, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens.
Dentro dessa perspectiva, CAIS, Juventudes.ComCausa e Crianças com Direitos destacam o 17 de setembro como oportunidade para compartilhar informações dirigidas a jovens, famílias, comunidades escolares e profissionais, reforçando que situações de sofrimento precisam ser acolhidas sem julgamento e encaminhadas para acompanhamento adequado.
Segurança também significa evitar danos durante o cuidado
Segurança do paciente não envolve apenas procedimentos hospitalares. O conceito abrange a organização de práticas, processos, ambientes e comportamentos capazes de diminuir riscos e reduzir danos evitáveis durante o atendimento.
Segundo a OMS, aproximadamente uma em cada dez pessoas pode sofrer algum dano durante a assistência à saúde, e cerca de metade dessas ocorrências é considerada evitável. Por isso, a organização defende sistemas integrados, profissionais preparados e participação ativa de pacientes e familiares no processo de cuidado.
No Brasil, o Ministério da Saúde também destaca a importância de manter informações atualizadas, esclarecer dúvidas, comunicar mudanças no estado de saúde e participar das decisões relacionadas ao tratamento. Essas medidas favorecem uma relação mais segura entre usuários e serviços.
Quando o atendimento envolve sofrimento psíquico ou situações de violência autoprovocada, segurança significa também garantir escuta, respeito, privacidade, acesso à rede de atenção psicossocial e continuidade do acompanhamento.
Automutilação precisa ser tratada como questão de saúde e proteção
O Brasil possui desde 2019 uma Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, instituída pela Lei nº 13.819. A legislação estabelece uma estratégia permanente do poder público para prevenção, promoção da saúde mental, atenção psicossocial e enfrentamento das violências autoprovocadas, prevendo ainda a participação da sociedade civil.
A política busca, entre outros objetivos, ampliar o acesso de pessoas em sofrimento aos serviços de atenção psicossocial, informar a sociedade sobre as lesões autoprovocadas e promover formação permanente de profissionais.
Isso significa reconhecer que a automutilação não deve ser reduzida a julgamentos, punições ou interpretações simplistas sobre o comportamento de uma pessoa. Uma situação dessa natureza exige atenção ao sofrimento existente, fortalecimento dos vínculos e busca de atendimento adequado.
Também é importante evitar abordagens que exponham a pessoa, transformem seu sofrimento em assunto público ou façam circular imagens e relatos desnecessariamente detalhados. O cuidado deve preservar dignidade e privacidade.
Para jovens: pedir ajuda é parte do cuidado
Quando um adolescente ou jovem percebe que está enfrentando sofrimento intenso, sentimentos difíceis de administrar ou comportamentos que podem colocar sua integridade em risco, procurar uma pessoa de confiança pode ser um primeiro passo importante.
Essa pessoa pode ser alguém da família, um professor, educador, profissional de saúde ou outra referência capaz de ajudar na construção de uma rede de apoio.
Também é possível procurar diretamente uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para orientação e atendimento.
Da mesma maneira, quando um amigo relata estar se machucando ou demonstra intenso sofrimento, a situação não deve ser tratada como um segredo que precisa ser mantido a qualquer custo. Buscar a ajuda de um adulto responsável ou de um profissional pode ser necessário para garantir proteção.
A principal orientação é não enfrentar situações graves sozinho.
Famílias: escutar antes de julgar
Para pais, responsáveis e familiares, descobrir que uma criança, adolescente ou jovem está se machucando pode provocar medo, preocupação e dificuldade para compreender o que está acontecendo.
Nesse momento, cobranças, ameaças, punições ou comentários que diminuam o sofrimento podem dificultar ainda mais o diálogo.
Uma abordagem mais protetiva começa pela disposição para ouvir.
É importante permitir que a pessoa fale no próprio ritmo, demonstrar interesse genuíno pelo que está acontecendo e buscar ajuda profissional quando necessário.
O Ministério da Saúde orienta que pessoas em sofrimento sejam levadas a sério e tenham a possibilidade de falar em privacidade, ser escutadas e receber apoio.
Quando houver percepção de risco imediato, a orientação é não deixar a pessoa sozinha, reduzir seu acesso a meios que possam causar novos danos e procurar atendimento de emergência.
Escolas são parte fundamental da rede de proteção
Professores e equipes escolares convivem diariamente com crianças e adolescentes e, por isso, podem perceber mudanças importantes no comportamento, no rendimento, na convivência ou na participação dos estudantes.
Isso não significa atribuir aos educadores a responsabilidade de realizar diagnósticos. O papel da escola está principalmente em acolher, identificar situações que necessitam de atenção e articular os encaminhamentos necessários com famílias, saúde, assistência social e demais integrantes da rede de proteção.
O próprio Programa Saúde na Escola (PSE) inclui entre suas frentes a promoção da saúde mental, a prevenção das violências e dos acidentes e a promoção da cultura de paz e dos direitos humanos.
Materiais do Ministério da Saúde destinados à prevenção da automutilação e do suicídio ressaltam ainda a importância de fortalecer o vínculo entre estudantes e escolas, preparar profissionais para reconhecer situações que necessitam de ajuda e desenvolver ambientes escolares seguros e acolhedores.
A escola pode contribuir estabelecendo canais claros de escuta, identificando adultos de referência, combatendo bullying e outras formas de violência, fortalecendo a convivência comunitária e construindo fluxos de encaminhamento com os serviços públicos do território.
Profissionais precisam atuar de forma integrada
Profissionais de saúde, educação, assistência social e demais setores da rede de proteção também ocupam posição estratégica.
O cuidado não termina com a identificação de uma situação de automutilação. É necessário garantir encaminhamento, acompanhamento e articulação entre os diferentes serviços envolvidos.
O Brasil mantém mecanismos de vigilância das violências autoprovocadas, utilizados para compreender a dimensão desses acontecimentos e subsidiar políticas públicas de prevenção e organização da atenção no SUS.
A existência de protocolos e registros, entretanto, precisa caminhar junto com uma abordagem humanizada.
Escutar sem julgamento, respeitar a dignidade da pessoa atendida, avaliar suas necessidades, orientar familiares quando necessário e organizar a continuidade do cuidado são componentes importantes de uma rede realmente protetiva.
Prevenção exige trabalho em rede
Automutilação, sofrimento emocional e outras situações de vulnerabilidade não podem ser enfrentados exclusivamente por famílias, escolas ou unidades de saúde de forma isolada.
A própria Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio prevê articulação entre diferentes níveis de governo e participação da sociedade civil, reconhecendo que prevenção demanda respostas intersetoriais.
É nesse sentido que iniciativas territoriais, projetos voltados às juventudes, organizações sociais e espaços comunitários também podem colaborar para identificar demandas, ampliar informações, fortalecer vínculos e aproximar a população dos serviços existentes.
Para CAIS, Juventudes.ComCausa e Crianças com Direitos, trabalhar o tema significa contribuir para uma cultura na qual crianças, adolescentes e jovens saibam que existem pessoas e serviços aos quais podem recorrer, enquanto famílias, profissionais e instituições estejam preparados para reconhecer situações de sofrimento e construir respostas de cuidado.
Onde procurar ajuda
O Sistema Único de Saúde oferece diferentes portas de entrada para pessoas que precisam de atendimento em saúde mental. O Ministério da Saúde indica as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) entre os serviços que podem ser procurados.
Em situações de urgência ou risco imediato, também podem ser acionadas UPAs 24 horas, prontos-socorros, hospitais e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo número 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia.
Cuidado seguro também é cuidado humano
O Dia Mundial da Segurança do Paciente lembra que nenhuma pessoa deveria sofrer danos evitáveis enquanto busca ajuda.
Quando esse princípio é aplicado às situações de sofrimento emocional, ele reforça uma ideia essencial: oferecer cuidado seguro não significa apenas garantir procedimentos tecnicamente corretos, mas construir ambientes em que as pessoas possam falar, ser ouvidas, receber orientação e continuar acompanhadas.
Para crianças, adolescentes e jovens, essa rede pode começar em casa, na escola, em uma unidade de saúde, em um projeto social ou com uma pessoa de confiança.
Fortalecer esses caminhos significa transformar prevenção em prática cotidiana e reafirmar que escuta, proteção, acesso à saúde e atuação em rede fazem parte da defesa da vida.
imagem de capa ilustrativa
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