A Zona Portuária do Rio de Janeiro se prepara para um novo capítulo de sua história. A arquiteta e paisagista Sara Zewde, etíope-americana radicada em Nova York, foi a vencedora do concurso nacional promovido pelo BNDES para a revitalização da Pequena África, região de profunda importância simbólica, histórica e cultural para a população negra brasileira.
O projeto selecionado foi elaborado pelo Studio Zewde, escritório fundado por Sara no Harlem, e tem como proposta principal reconectar o Cais do Valongo — local reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO — à sua história ancestral, por meio de intervenções simbólicas, arquitetônicas e paisagísticas.
Um caminho de memória e reconexão
A proposta de Sara prevê a construção de uma passarela com inclinação suave de 5%, conectando dois pontos-chave: as Docas de D. Pedro, onde hoje funciona o galpão do Ação da Cidadania, e um baobá próximo à Avenida Venezuela — árvore símbolo da ancestralidade africana.
A descida conduz o visitante até o sítio arqueológico do Cais do Valongo, transformando o percurso em um trajeto de reconexão cultural e espiritual, remetendo à jornada dos povos africanos escravizados. Elementos como piso trançado nas calçadas da Rua Sacadura Cabral e paisagismo com figueiras reforçam o entrelaçamento de histórias e resistências entre os dois continentes.
A proposta também prevê melhorias na acessibilidade, visibilidade das ruínas, reorganização urbana do Largo do Propósito e da Praça da Harmonia, criando um circuito coeso que integra patrimônio, cultura e vivência urbana.
Pequena África viva
O projeto se insere no Distrito Cultural da Pequena África, que busca articular e valorizar espaços como a Pedra do Sal, o Jardim Suspenso do Valongo, a Casa da Tia Ciata, o Cemitério dos Pretos Novos e o Museu da História e Cultura Afro-Brasileira. O objetivo é transformar a região em um grande território de memória, justiça racial e afirmação da cultura negra, com equipamentos culturais, educação patrimonial e inclusão social.
Uma proposta construída com escuta
Sara Zewde, professora da Universidade de Harvard e primeira mulher negra a integrar o Departamento de Arquitetura Paisagística da instituição, destacou que o projeto nasceu de escutas atentas aos moradores do entorno, suas memórias e seus sonhos.
“Eu trouxe todas as conversas, acontecimentos e sonhos das pessoas que ouvi, todas as pesquisas e todas as minhas evoluções como arquiteta e coloquei nessa proposta”, afirmou Sara ao jornal O Globo.
Sua conexão com o Rio começou há 15 anos, quando trabalhou na cidade por meio de uma ONG americana. Morou na Glória, frequentou rodas de samba e reconheceu na Pequena África carioca um espelho da história do Harlem e de Nova Orleans — onde cresceu.
Investimento e próximos passos
O concurso do BNDES premiou três projetos, além de conceder menções honrosas. A proposta de Sara Zewde foi a vencedora, recebendo certificação em cerimônia oficial. O banco público destinou R$ 7 milhões para os estudos e estruturação do projeto, cuja execução depende da aprovação dos órgãos de patrimônio como Iphan, Ibram, ministérios e prefeitura.
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