“As convocadas” expõem debate sobre gênero racismo e masculinidades no futebol

Esposas de jogadores

As companheiras de jogadores da Seleção Brasileira ocupam um papel público que vai além da vida privada dos atletas. Elas aparecem dentro de uma cultura em que o futebol ainda é fortemente associado à masculinidade, ao sucesso, à virilidade, à fama e ao poder econômico.

No imaginário do futebol, o jogador bem-sucedido costuma ser apresentado como “homem vencedor”: competitivo, rico, desejado, forte e reconhecido publicamente. Nesse cenário, a esposa ou namorada muitas vezes é colocada pela mídia como extensão desse prestígio masculino, quase como parte da imagem pública do atleta.

Essa exposição revela uma desigualdade: enquanto o homem é analisado pelo desempenho em campo, a mulher ao seu lado frequentemente é observada pela aparência, roupa, maternidade, comportamento nas redes sociais ou suposta influência emocional sobre o jogador. Isso mostra como o futebol ainda reproduz papéis tradicionais de gênero.

Ao mesmo tempo, muitas dessas mulheres deixaram de ocupar apenas o lugar de “esposa de jogador”. Elas constroem imagem própria, trabalham como influenciadoras, empresárias, modelos, profissionais da comunicação ou mães com grande visibilidade pública. Nas redes sociais, podem transformar a exposição em autonomia econômica e voz própria.

Dentro do debate sobre masculinidades, esse tema ajuda a mostrar como o futebol produz modelos de homem e também define lugares para as mulheres. A masculinidade do jogador é reforçada por símbolos de conquista, família, consumo e status. Já as companheiras são frequentemente cobradas a representar beleza, apoio, discrição, maternidade e lealdade.

ausência de mulheres pretas entre “as convocadas”

A ausência ou baixa visibilidade de mulheres pretas entre as companheiras mais midiáticas dos jogadores da Seleção Brasileira também precisa ser analisada dentro das masculinidades, do racismo estrutural e dos padrões de beleza valorizados socialmente.

No futebol brasileiro, muitos jogadores são homens negros ou pardos, vindos de territórios populares. Porém, quando alcançam fama, dinheiro e reconhecimento, a escolha afetiva que ganha maior visibilidade pública muitas vezes aparece associada a mulheres brancas ou de pele clara, dentro de um padrão socialmente construído como símbolo de status, ascensão e “sucesso”.

Isso não deve ser tratado como julgamento individual das relações afetivas, mas como reflexo de uma estrutura histórica. O Brasil foi formado por hierarquias raciais que colocaram a mulher branca como ideal de beleza, respeitabilidade e prestígio, enquanto mulheres pretas foram historicamente hipersexualizadas, desvalorizadas, invisibilizadas ou afastadas do lugar social de “companheira oficial”, esposa ou mulher a ser publicamente reconhecida.

Dentro das masculinidades, isso revela como o sucesso masculino, especialmente no futebol, pode reproduzir padrões raciais de desejo e status. Para muitos homens negros que ascendem socialmente, a relação com uma mulher branca ou embranquecida pode ser lida socialmente como sinal de chegada a outro lugar de classe e prestígio. Esse fenômeno não nasce apenas da escolha pessoal, mas de uma cultura racista que ensina quais corpos são valorizados, quais são exibidos e quais são apagados.

A ausência de mulheres pretas nesse imaginário público também mostra como o racismo atravessa a mídia esportiva. Quando aparecem, mulheres pretas tendem a receber menos destaque, menos glamourização e mais julgamento. A mídia costuma reforçar padrões de feminilidade ligados à branquitude, magreza, luxo e consumo, deixando em segundo plano outras formas de beleza, afeto, família e protagonismo.

Para a ComCausa, essa reflexão é importante porque o futebol e a Copa do Mundo não revelam apenas paixões esportivas. Eles também expõem como masculinidade, raça, classe, beleza e poder se cruzam. Discutir as companheiras dos jogadores é também perguntar: quais mulheres são reconhecidas como símbolo de amor, família e prestígio? Quais são invisibilizadas? E como o racismo molda até mesmo os afetos que ganham espaço público?

ComCausa – Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida

a ComCausa – Defesa da Vida, com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU), estrutura o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida como um caminho comunitário: rodas de conversa orientadas, pactos de convivência, ferramentas práticas de maturidade emocional e mobilização pública para transformar autocontrole em proteção real, dentro e fora de casa.

Este artigo integra o Núcleo de Masculinidades Positivas para a Defesa da Vida, estruturado pela ComCausa – Defesa da Vida com apoio do UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU). A proposta enfrenta padrões de masculinidade associados a conflitos familiares e violências cotidianas, com foco em atitudes práticas: autocontrole, convivência pacífica, respeito, corresponsabilidade e cuidado.

Parceria UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas (ONU):

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