Carta do arcebispo Dom Orani pede paz e lembra vítimas após operação letal no Rio

Cardeal Dom Orani Tempesta

O Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta pública em que expressa “profundo pesar” e chama a população à oração, à reconciliação e à defesa da vida, após a megaoperação policial que deixou 64 mortos e desencadeou cenas de choque em comunidades da Zona Norte.

No documento, com brasão da Arquidiocese, o cardeal descreve a dor da cidade e lembra que a vida humana é “dom sagrado de Deus” que deve ser sempre preservada. Ele dirige “minhas preces e minha profunda solidariedade” às famílias enlutadas e convoca fiéis e autoridades a rejeitarem “ódio, vingança e indiferença” e a trabalharem pela construção de uma sociedade mais justa.

A mensagem papal local surge em meio a uma série de repercussões nacionais e internacionais — da ONU à Anistia Internacional e à Defensoria Pública da União — que questionam a letalidade da ação e pedem investigação independente sobre possíveis violações de direitos humanos.

Cena de horror e suspeitas de subnotificação

A operação, batizada Operação Contenção, mobilizou cerca de 2.500 agentes para cumprir quase 100 mandados nos complexos do Alemão e da Penha. O governo estadual contabilizou 64 mortos — 60 suspeitos e quatro policiais — e 81 prisões, além de apreensões de armamento e drogas. Entre os mortos, estão os policiais Marcus Vinícius Cardoso de Carvalho, Rodrigo Velloso Cabral e os sargentos do Bope Cleiton Serafim Gonçalves e Heber Carvalho da Fonseca; as corporações fizeram homenagens às vítimas.

Entretanto, moradores do Complexo da Penha afirmam que mais de 50 corpos foram levados para a Praça São Lucas entre a noite e a madrugada subsequente — cadáveres que, segundo relatos, não constariam do balanço oficial divulgado pelo governo. Vídeos e testemunhos de vizinhança mostram pessoas transportando corpos cobertos por lençóis e improvisando identificação em meio ao luto. A possível existência de vítimas fora da contagem oficial intensifica denúncias de subnotificação, ocultação e execuções fora do protocolo legal.

A Defensoria Pública e coletivos de direitos humanos exigem acesso irrestrito às perícias e às informações oficiais para garantir identificação, devolver corpos às famílias e esclarecer responsabilidades.

População, transporte e educação: impacto imediato

Segundo a Secretaria de Segurança, cerca de 280 mil pessoas vivem nas áreas alvos da operação. O confronto de mais de 12 horas gerou pânico: ônibus foram usados como barricadas, 71 veículos foram tomados e mais de 200 linhas tiveram tráfego afetado, obrigando muitos moradores a retornarem a pé. Metrô, barcas e trens operaram, mas com maior fluxo de passageiros.

A violência também paralisou atividades: aulas foram suspensas em escolas e em universidades públicas — entre elas UFRJ, UERJ e UFF — e unidades de ensino técnico. Moradores relataram que residências foram atingidas por tiros e que houve casos de pessoas mantidas reféns por integrantes do Comando Vermelho.

Reações institucionais e disputa federal-estadual

A operação reacendeu a disputa entre o Palácio Guanabara e o governo federal. O governador Cláudio Castro afirmou em coletiva que solicitou apoio das Forças Armadas e foi “deixado sozinho”; a União negou omissão, afirmou ter atendido pedidos anteriores com envio da Força Nacional e informou que não houve solicitação formal de tropas para esta operação específica — além de autorizar, à noite, a transferência de presos para presídios federais.

Organizações internacionais, como o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos e a Anistia Internacional, manifestaram horror e cobraram apuração célere. A Anistia classificou a ação como mais um exemplo do que chama de “padrão de letalidade” nas políticas de segurança estaduais.

O apelo religioso com carga social

A carta de Dom Orani, além da consolo espiritual, tem tom político e social: ele pede que a cidade não alimente a “vingança” e que volte a sua vocação de acolhimento. Ao destacar que “o amor e o bem são mais fortes que qualquer violência”, o arcebispo se alinha às vozes que pedem investigações transparentes, respeito à dignidade humana e respostas que não se limitem a operações militares.

Leia a carta na íntegra

Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2025

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”
(Mt 5,9)

Amados irmãos e irmãs em Cristo,

Hoje vivemos um dia muito difícil no Rio de Janeiro. Com profundo pesar, acompanhamos os trágicos acontecimentos deste dia, em que tantas vidas foram ceifadas. A violência e o medo têm ferido o coração da nossa cidade e tirado a paz de muitos lares. Diante dessa dolorosa realidade, como Pastor desta Igreja, não posso deixar de expressar minha dor por tanto sofrimento e de reafirmar que a vida e a dignidade humana são valores absolutos. A vida humana é dom sagrado de Deus e deve ser sempre defendida e preservada.

Quero elevar minhas preces e minha profunda solidariedade às famílias que choram a perda de seus entes queridos. Que Cristo, o Príncipe da Paz, envolva cada coração ferido com Sua ternura, restaure a esperança e faça brotar, mesmo entre as lágrimas, a certeza de que o amor é mais forte do que a morte. Que Ele transforme a dor em fé e a saudade em semente de vida nova.

Somos chamados, como discípulos de Cristo, a ser construtores da paz, a superar o ódio, a vingança e a indiferença que corroem o tecido social. É urgente que unamos nossas forças pela reconciliação, pelo respeito mútuo e, sobretudo, pela proteção da vida, pela promoção da justiça e pela construção de uma sociedade pacífica, que promova a dignidade de cada pessoa, especialmente dos mais pobres e vulneráveis.

Mesmo diante do caos, creio firmemente que o amor e o bem são mais fortes que qualquer violência. Peço a cada um que seja instrumento dessa paz. Não podemos alimentar o ódio, nem responder com indiferença. O Rio de Janeiro nasceu com vocação para a alegria e a acolhida. Que, com fé e perseverança, possamos devolver à nossa cidade o brilho da paz e a força da fraternidade. E, como diz o hino da nossa cidade: “Que Deus te cubra de felicidade — Ninho de sonho e de luz.”

Convido a todos a permanecerem firmes na oração e na construção da paz. Que nossas palavras e atitudes sejam sementes de reconciliação, e que cada gesto de amor seja um passo rumo a uma cidade mais fraterna e justa. Que o Senhor da vida converta nossos corações, cure as feridas da violência e nos faça instrumentos de Sua PAZ. Que Maria, Rainha da Paz, interceda por nossa cidade, por nossas autoridades e por todas as famílias atingidas pela tragédia de hoje.

Invoco, sobre todos, a bênção de Deus, sinal de esperança e consolo neste momento de dor.

Orani João Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro

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