Em 25 de outubro de 2025, a Catedral da Sé foi novamente o palco de um dos momentos mais emblemáticos da luta pela democracia no Brasil. Um ato inter-religioso reuniu representantes de diferentes religiões, jornalistas, familiares e defensores dos direitos humanos para homenagear o jornalista Vladimir Herzog e todas as famílias que perderam entes queridos durante a ditadura militar.
Organizado pela Comissão Arns e pelo Instituto Vladimir Herzog, o evento aconteceu no mesmo local onde, em 1975, cerca de 8 mil pessoas se reuniram para a missa de sétimo dia em memória de Herzog, desafiando o regime militar. Naquela ocasião, a cerimônia, presidida pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo Jaime Wright, com o apoio do jornalista Audálio Dantas, tornou-se um marco de resistência contra a repressão.
A cerimônia de 2025 reafirmou o compromisso da sociedade com a memória, a verdade e a justiça, celebrando o legado de Herzog e de todos que se opuseram à censura e à perseguição política em tempos sombrios.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o jornalista Juca Kfouri destacou a importância do ato para conectar as novas gerações à história da luta democrática. “É uma forma de lembrar aos jovens jornalistas o que significou Vladimir Herzog para o Brasil e para o jornalismo. Vlado é um símbolo de resistência e dignidade profissional”, afirmou.
Cinco décadas após o assassinato de Herzog, sua memória segue sendo um farol para todos que acreditam em um país justo, livre e comprometido com os direitos humanos.
A História de Vladimir Herzog
Em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, conhecido como Vlado, foi torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI, órgão de repressão da ditadura militar. Ele havia se apresentado voluntariamente para “prestar esclarecimentos” sobre supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Respeitado no jornalismo e na defesa da democracia, Herzog tornou-se um símbolo da resistência contra a censura e a violência do regime militar. Sua morte gerou uma comoção nacional e deu início a um movimento social e político que impulsionou o processo de redemocratização, culminando na promulgação da Constituição Federal de 1988.
Trajetória e Legado
Vladimir Herzog nasceu em 27 de junho de 1937, em Osijsk, na então Iugoslávia (hoje Croácia). Emigrando para o Brasil em 1942 com sua família, fugindo da perseguição nazista, ele se naturalizou brasileiro e formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Começou sua carreira no jornal O Estado de S. Paulo em 1959, e com o tempo passou a assinar como “Vladimir” para se adaptar melhor ao idioma português. Herzog teve uma carreira diversificada, trabalhando também em televisão, lecionando na FAAP e na ECA-USP, e dirigindo o departamento de jornalismo da TV Cultura de São Paulo. Além disso, morou em Londres entre 1965 e 1968, onde trabalhou na BBC e teve seus filhos Ivo e André.
O Crime e a Farsa do “Suicídio”
No dia 24 de outubro de 1975, Vladimir Herzog foi preso e submetido a torturas no DOI-CODI. No dia seguinte, foi encontrado morto. O regime militar divulgou a versão oficial de suicídio por enforcamento, acompanhada de uma fotografia forjada. Contudo, testemunhos de outros presos políticos desmentiram a versão oficial, revelando que Herzog foi assassinado durante o interrogatório. Anos depois, o legista Harry Shibata admitiu ter assinado o laudo necroscópico sem examinar o corpo, confirmando a fraude.
Justiça e Reconhecimento
A busca por justiça durou décadas. Em 1978, a Justiça condenou o Estado por prisão ilegal, tortura e morte de Herzog. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu oficialmente o assassinato e concedeu indenização à família, que recusou o valor, insistindo que o Estado continuasse a investigação. Somente em março de 2013, após quase 40 anos, o atestado de óbito de Vladimir Herzog foi retificado, substituindo a causa de morte por suicídio pela verdade histórica: “Morte decorrente de lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório em dependência do II Exército – SP (DOI-CODI).”
Símbolo da Democracia
O nome de Vladimir Herzog segue sendo um símbolo de liberdade de imprensa e direitos humanos no Brasil. Sua memória é celebrada em prêmios, instituições e espaços públicos, mantendo viva a luta pela democracia, pela verdade e pela justiça.
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