Um festival gratuito que celebrava a história e a diversidade do punk paulistano terminou marcado por uma tragédia na noite do último fim de semana. O “200 Anos de Punk”, realizado no Centro Cultural Tendal da Lapa, zona oeste de São Paulo, reuniu diferentes gerações em shows e atividades culturais, mas, horas após o encerramento, uma briga nas proximidades resultou na morte de Helen Cristina Vital, mãe de uma filha pequena.
O evento, organizado pelo coletivo homônimo, contou com apresentações de bandas como DzK e Fogo Cruzado e transcorreu pacificamente. No entanto, já na madrugada, dois grupos entraram em confronto em um ponto próximo, e Helen foi brutalmente espancada, não resistindo aos ferimentos.
A Polícia Civil investiga o caso e ainda busca identificar testemunhas. Os relatos sobre a participação de envolvidos no espancamento divergem.
Em manifesto publicado nas redes sociais, o coletivo 200 Anos de Punk expressou pesar e condenou veementemente a violência interna na cena.
“O coletivo 200 anos de punk é um coletivo cultural, de punks para punks. Nós repudiamos e condenamos qualquer tipo de violência de punk contra punk. […] Desde o início, o movimento punk, infelizmente, é marcado por episódios de violência e isso só nos afasta uns dos outros, fecha espaços e enfraquece a nossa cena. […] Nossos mais sinceros pêsames aos familiares e amigos próximos e que os responsáveis por essa atrocidade sejam identificados e arquem com as consequências.”
O texto do manifesto também critica a “autossabotagem” do movimento quando a estética agressiva e o discurso contestador se convertem em conflitos físicos entre membros da própria cena. A mensagem finaliza com o apelo: “Paz entre nós, guerra aos senhores!”.
O movimento punk em São Paulo, surgido no fim dos anos 1970, já foi marcado por rivalidades violentas entre grupos, mas vinha nos últimos anos consolidando ações coletivas pacíficas e voltadas à cultura, política e inclusão social. O episódio reacende um debate sobre o impacto da violência no enfraquecimento da cena e no fechamento de espaços culturais.
Leia o manifesto do coletivo 200 Anos de Punk:
“ Qual violência é pior?
Sofremos violência todos os dias, seja pelas pressões socioecônomicas, seja por repressão policial, falcatruas do governo, julgamentos de grupos religiosos, racismo, machismo, homofobia e tantos outros tipos de violência ao nosso dia a dia.
Através do punk, nós achamos uma válvula de escape para essa realidade cruel e achamos um motivo pra celebrar e sorrir, dando sentido à isso que chamamos de vida.
Esse festival foi um evento construído por esse coletivo que ama o punk e viveu ele através das décadas com seus altos e baixos.
O evento do domingo foi elaborado e desenvolvido por meses, feito de punks para os punks e rolou na tranquilidade. Estávamos todos extasiados de ver todas as gerações do punk reunidas e ter conseguido concluir o evento com sucesso e sem maiores ocorrências.
Até que, na segunda pela manhã, nos chegou a notícia que houve uma briga na rua, após o término do evento que acabou culminando com a morte da punk Helen Vitai, que era mãe e deixa uma filha pequena.
O coletivo 200 anos de punk é um coletivo cultural, de punks para punks. Nós repudiamos e condenamos qualquer tipo de violência de punk contra punk. Sabemos que todos gostarem de todos é uma utopia, mas todos respeitarem à todos é um objetivo a ser ainda alcançado dentro do nosso movimento. O diálogo deveria ser sempre o caminho.
Desde o início, o movimento punk, infelizmente, é marcado por episódios de violência e isso só nos afasta uns dos outros, fecha espaços e enfraquece a nossa cena.
Nossos visuais e discursos agressivos são como uma carapaça de proteção contra tudo isso que nos é imposto todos os dias. Mas quando isso extrapola um limite e se torna autossabotagem dá a impressão que não entendemos nada, não evoluímos nada.
Nossos mais sinceros pêsames aos familiares e amigos próximos e que os responsáveis por essa atrocidade sejam identificados e arquem com as consequências.
Seguiremos tentando construir, somar e passar nossa visão!
Paz entre nós, guerra aos senhores!”
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